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Apontamentos para uma autobiografia

Por Mario Novello 12 de maio de 202612 de maio de 2026

(MN):  … Os físicos têm horror ao infinito!…
(NBS): … E mais ainda de tratar de fundamentos!
(Diálogo com Newton Bignotto de Souzadurante a conferência (2015) Renascimentos:
cosmologia, natureza, ética
.)

Em 1986 eu havia terminado de escrever meu primeiro livro sobre cosmologia. Seu título Cosmos e Contexto mostra bem a visão que era apresentada. Eu fazia um levantamento das principais questões e avanços da Cosmologia e, em particular, dedicava um capítulo inteiro, a que chamei universo inacabado, apresentando a ideia dos friedmons, uma analogia da descrição do universo e do interior das partículas elementares proposto pelo cientista russo Moisey Markov.

Como esse livro deveria interessar principalmente a comunidade científica, pareceu-me natural que ele poderia ser publicado por alguma editora universitária ou mesmo um centro de pesquisas como o CBPF. Nessa época o diretor do CBPF era Leite Lopes e então em um dia de maio de 1986 enviei um memorandum argumentando que…” como pesquisador titular dessa Instituição, tendo feito minha carreira científica neste Centro desde meus primeiros passos sob sua orientação, a publicação desse livro viria consubstanciar como um marco importante o programa de Cosmologia que há 14 anos tive a honra de inaugurar no CBPF.”

Em seguida, como esse pedido não tivesse tido sucesso, dirigi-me para a Universidade de Brasilia que contava com uma boa Editora. Jayme Tiomno, que havia sido chefe do departamento de Fisica da UnB, escreveu uma carta para o reitor daquela universidade apoiando sua publicação.  Essas duas tentativas tinham para mim um registro simbólico, pois representavam os lugares onde eu havia me formado.

Não tendo conseguido nenhum órgão para publicar meu livro nas organizações acadêmicas, voltei-me para as Editoras convencionais. Lembro-me que fui a três delas. Nenhuma aceitou publicar meu livro. O principal argumento era que Cosmologia era um tema por demais específico e não interessaria a não ser a comunidade cientifica. Falta de visão dessas editoras, pois menos de 10 anos depois, um boom de livros apareceu no mercado internacional, na esteira da difusão mediática da teoria do big bang, que eu descrevia em meu livro e já criticava.

É por isso que meu livro foi publicado primeiramente em francês, pela Editora Masson de Paris. Nesse período eu estava trabalhando no Institut de Mécanique da Universidade de Paris-VI com Yvonne Choquet-Bruhat.  Tinhamos acabado de escrever um artigo sobre as equações quase-Maxwellianas (que chamávamos de JEK) que representavam a teoria da relatividade geral usando o formalismo que os físicos alemães Jordan, Ehlers e Kundt haviam estabelecido. Yvonne queria apresentar esse trabalho na Academia de Ciências de Paris pois, disse-me ela, Lichnerowicz estaria presente nessa sessão, uma vez que o trabalho que havíamos feito era baseado no resultado dos alemães, mas havíamos usado as ferramentas formais introduzidas por Lichné, que era a forma carinhosa como ela se referia a seu colega.

Ao sair da Academia, fomos andando até a estação de metrô Odeon. Em frente a essa estação ficava a sede da Editora Masson, pela qual sairia em breve meu livro Cosmos et Contexte. Ao despedir-me dela e contar sobre meu livro ela disse “Eu gostaria muito de ler seu livro. Posso tê-lo antes de ser publicado”? Claro, disse eu e fomos juntos à Editora para obter uma cópia de meu texto. Ali chegando, ao saber que a acadêmica Choquet-Bruhat estava comigo meu editor M. Legrand ficou superexcitado. Parece que ele havia estudado matemática com um membro célebre de sua família que ele (o editor da Masson) considerava um símbolo da tradição intelectual francesa. Ficamos ali conversando bastante tempo. Foi uma experiência muito agradável.

Dias depois, ao entrar na sua sala Yvonne me estende um texto.

“Tive a petulância de escrever sobre seu livro que me agradou e muito”, disse ela. Quando li o que havia escrito não hesitei um minuto e lhe pedi: posso usar isso como prefácio a meu livro? Ela disse que não havia pensado nisso, mas se eu quisesse de verdade então ela iria mudar um pouco o tom, pois havia escrito uma carta para mim como um colega e não para o público.

Uma semana depois recebo seu texto final que, com alegria, reproduzo abaixo.

PRÉFACE

La cosmologie est une discipline passionante, à la mesure de l´ambition de l´esprit humain qui souhaite tout comprendre, tout expliquer. C´est la Science par excellence  dont l´objet d´étude est l´univers tout entier.

Nulle part  ailleurs qu´em cosmologie n´apparaisent mieux cependant les problèmes conceptuels liés à la connaisance scientifique. Certes, les progrès spectaculaires des observations astronomiques  de ces dernières annés, nous ont fourni de nombreuses donnés expérimentales, tandis que les théoriciens nous proposaient des modèles audacieux qu´ils cherchent à adapter aux donnés d´observation. Nous avons um foisonnement de résultats mais aussi de problèmes ouvertes, qui méritent une analyse et une réflexion profonde.

C´est à cette tâche que cet ouvrage est consacré. Son auteur M. Novello est um scientifique, physicien théoricien spécialiste particulièrement em Relativité Générale et Cosmologie, connu internationalement pour ses travaux personnels et pour l´école de haut niveau “Gravitation and Cosmology” qu´il dirige à Rio de Janeiro.

Il réussit dans ce livre remarquable à communiquer, sans presque utiliser de mathématiques, ce que la Science contemporaine connâit de notre cosmos. C´est une riche moisson, mais pleine aussi de mystère, que M. Novello discute avec la lucidité d´um physicien et d´um philosophe. 

                                                                      Yvonne Choquet-Bruhat

                                                Professeur `a l´Université Pierre et Marie Curie

                                               Membre de l´Académie des Sciences

 Anos depois, meu grande amigo e um maravilhoso professor de filosofia, Claudio Ulpiano, me revelou que um amigo comum ouvira de um colaborador do filósofo francês Gilles Deleuze que ele considerava esse meu livro, junto com La nouvelle aliance de Isabelle Stengers e Ilya Prigogine, os livros básicos que ele consultava sobre ciência contemporânea.

 Posteriormente, em 1988, a editora Forense Universitária publicou uma versão em português.

Curiosamente, a comunidade dos físicos brasileiros não se entusiasmou por ele. Anos antes, Steven Weinberg havia publicado um livro de grande sucesso e de título incompreensível: Os três primeiros minutos. O leitor saberia folheando esse livro que se tratava do tempo de existência do universo no cenário explosivo dito big bang. Foi esse livro que atraiu os físicos de partículas para a cosmologia. É bem verdade que havia outra razão mais forte: a crise no terreno das Altas Energias pela recusa do governo americano em construir um novo acelerador de partículas de dez bilhões de dólares, coisa que a Europa o fez no CERN, na década seguinte.

Leite me disse que meu livro era mais profundo que o de Weinberg, mas tinha uma aparência e um tom que desagradava os físicos. Mais do que isso, os deixava em pânico. Eu apresentava a cosmologia através de um prisma a um só tempo grandioso e filosófico. Não era o que fazia a atração dos físicos. Eles preferiam ficar com Weinberg que escrevera o livro tendo um alvo preciso: os físicos. Teu livro, continuava Leite, tem uma pretensão maior. A mim, particularmente, me agrada mais teu modo de escrever. Ademais, disse, você apresenta alternativas ao big bang que os físicos de partículas não estão acostumados, nem entendem a razão dessa proposta.

Leite tinha razão. Meu livro interessa ainda hoje aos que, não sendo físicos, refletem sobre a dimensão cósmica do mundo, filósofos, historiadores, psicólogos, pensadores das áreas humanas. Ou seja, embora sem me desviar um momento sequer de uma linha científica convencional, correta e apropriada, eu teria transformado a questão cosmológica em um negócio humano, talvez demasiadamente humano.

 No entanto, Leite não só admirava o pensamento filosófico como se interessava também por questões maiores da ciência. Mais do que isso, estimulava esse interesse nos físicos. Assim, não opôs nenhuma grande dificuldade quando lhe comuniquei que eu estava trazendo um jovem filósofo francês Eric Alliez que se encontrava em trânsito no Rio, a passar um ano em nosso centro. Era uma ousadia, pois o CBPF era um centro avançado de pesquisas em física. Havia também uns poucos cientistas de outras áreas como matemática e química, mas elas não causavam nenhuma dificuldade, pois não destoavam das atividades consideradas normais no CBPF.

Meu propósito era ambicioso: criar um grupo dentro do CBPF para estudar questões de fronteira entre a cosmologia e a filosofia. Ou, como Leite em seguida sugeriu, em um sentido mais amplo ainda, entre a física e a filosofia.

Eric se dedicava a estudos que se concentravam na evolução filosófica da questão causal e como eu estava estudando as propriedades do horizonte causal seja em buraco negro, seja em universos em rotação, como o de Gödel, e das dificuldades de teorias não lineares do eletromagnetismo se adequarem ao sistema causal do eletromagnetismo de Maxwell, havíamos encontrado pontos de interesse comum. Ademais, garantia Eric, toda crise da ciência que termina com uma revolução, passa sempre pela questão causal e isso certamente deve interessar aos físicos.

Eric tinha sido aluno de Deleuze e durante sua viagem ao Rio fez amizade com um professor de filosofia brasileiro, o filósofo Claudio Ulpiano. Eu conhecera Ulpiano através de meus colaboradores José Salim e Luiz Alberto Oliveira. Uma noite, eles conseguiram me arrastar a assistir uma aula que Claudio dava em uma Escola na praça São Salvador. Foi uma paixão à primeira vista. Reconheci que ele tinha um conhecimento profundo das questões filosóficas, mas também uma amplidão de ideias, um entusiasmo exuberante. Ficou claro para mim que acabava de conhecer um grande personagem, desses que elevam e inebriam o pensamento. Ficamos amigos até sua morte, embora tenhamos nos vistos muito menos do que deveríamos. Quando lhe pedi para escrever uma ou duas linhas para a orelha de meu livro Máquina do tempo, escreveu um texto tão maravilhoso que me dá prazer e alegria reproduzi-lo aqui.

A filosofia nasce sob a força de um desejo: desejo de eternidade; recusa obstinada do tempo. As ciências prolongam a filosofia, a filosofia clássica – e é a razão pela qual as estrelas se mantiveram fixas por tão longo período. Mas, de Galileu ao século XX houve uma grande virada – a entrada do tempo nas filosofias, nas ciências e nas artes. Virtuais, fractais e figurais. Conceitos filosóficos, proposições científicas e afetos sensíveis entronizam o tempo – tornam-no senhor de nossa idade; príncipe de nossas perplexidades.

Mário Novello é um cientista e, como tal, entre a sofisticação da matemática e as alternâncias do movimento da física, por exemplo, se apropria de curvas do tempo que violam nossas certezas, que envolvem a questão temporal, a de que um corpo só pode viajar para o futuro afastando-se do passado.

Uma série crescente de dificuldades teóricas liberta o tempo – afirma o pensador moderno Mário Novello, com seu sonho de um universo centrado, labirintos de luz, para uma viagem quase sem fim do espírito, em que círculos e demonstrações da matemática misturam-se com o desejo do tempo, com o desejo de tempo puro. Este é o campo teórico em que o mais rigoroso e o mais criativo se identificam em um plano de referência desprovido de consistência (Gödel). E o paradoxo, como diz o filósofo, torna-se a mais alta paixão do pensamento. Não devemos pensar mal do paradoxo, porque ele é a paixão do pensamento, e um pensador sem paradoxo é como o amante sem paixão. De modo nenhum é o caso de Mário Novello – um cientista apaixonado e brilhante, rigoroso e criativo.

                                                                                    Claudio Ulpiano

A grandeza de Ulpiano, sua paixão e interesse pelo mundo, pelo conhecimento, pelas dúvidas humanas, a interação forte que começamos a ter logo no primeiro contato nos levou a pensar na construção de um espaço onde poderíamos reunir, sem compromissos maiores, de modo livre e totalmente independente, pensadores de diversas áreas. Levamos isso para frente e acabamos por criar uma união extremamente diversificada de estudiosos que se juntavam para produzir alguma coisa que não queríamos caracterizar a priori, deixando livre sua construção.

 Começamos a nos reunir em minha casa. Além dos filósofos, Cláudio e Eric, estavam ali dois psicanalistas, um literato, um professor de sociologia e outras duas pessoas que não me recordo quem eram, e um fisico.

A história daquelas reuniões é fascinante, mas me afastaria de meu tema aqui. O que importa comentar é que precisávamos que Eric permanecesse pelo menos um ano, talvez mais, conosco para permitir que esse núcleo internacional se estabelecesse.

 O fato é que consegui com a FAPERJ uma bolsa de pesquisa para Eric que passou então um longo período no CBPF. Creio que hoje, isso seria muito difícil, quase impossível mesmo, dado ao caráter tecnicista que domina hoje as organizações científicas e até mesmo os institutos de física no Brasil.

 Nesse mesmo ano, 1988, Eric entrou em contato com um grupo paulista que se interessou em estimular essa relação e conseguiu que o jornal Folha de São Paulo publicasse um folhetim inteiro sobre questões da física que se mesclavam a questões da filosofia. Ali contribuíram Eric, Luiz Alberto Oliveira, José Salim e eu. 

Havia uma mistura de meus antigos orientadores – José  Leite Lopes e Jayme Tiomno- nessa história. O aperfeiçoamento da técnica é importante. Mas há um momento, a partir de um certo nível que o aumento quantitativo de um conhecimento, em qualquer área, se torna contraproducente, passa a impedir que se perceba nuances que estão ali presentes, embota nossos olhos e mentes. Há que realizar um salto para ir além. Quando isso ocorre e em que momento esse salto nos é indispensável? Impossível dizer. Só a intuição permite chegar próximo desse bom momento, a técnica passa a inibir e frear esse movimento: por pura inércia mental e graças a seu sucesso. Quanto maior esse sucesso, mais difícil esse salto qualitativo.

Afinal, Leite tinha razão. Minha tendência a me aproximar de questões de fronteira da Cosmologia, cedo ou tarde deveria trazer para nosso grupo questões que meus colegas físicos consideravam fora de nosso domínio. E, no entanto, cada vez mais eu acreditava que não deveríamos nos deixar envolver completamente por esse tecnicismo que faria da cosmologia uma atividade fria, com pouca ambição, produzindo somente questões técnicas, quando o que está à nossa frente é um oceano de indagações múltiplas sobre o universo e os homens.

Nunca me pareceu incompatível conciliar meu trabalho cotidiano no desenvolvimento e análise das equações com que procuramos entender a evolução do Universo, com questões mais fundamentais típicas dos primeiros cientistas. Ao contrário, sempre enfatizei a antiga tradição de que a principal função do conhecimento racional do mundo é aumentar a liberdade do espirito de cada um; e para entender o significado disso, é preciso ir além da técnica.

Estávamos querendo introduzir não somente a questão estética em nosso domínio, mas principalmente a questão ética. Projeto cada vez mais difícil, pois ao longo do século XX a técnica praticamente absorveu o pensamento livre.

Havia uma regra não dita, aceita por todos, de uma aparência simples e evidente, mas que escondia um compromisso terrível com os tempos modernos de dominação capitalista, pondo em evidência o imediatismo que deveria orientar a academia e que podia se resumir na sentença autoritária e castradora: físicos falam com físicos, historiadores falam com historiadores, filósofos falam com filósofos.

Lutei sempre contra essa prática e em meu Instituto reuni sistematicamente ao lado de meus colegas físicos, outros saberes, filósofos, historiadores, pensadores de diversas áreas, ultrapassando os limites implicitamente impostos pelo establishment acadêmico.

 Em meu livro O que é cosmologia? explicitei essa situação, considerando a maior parte do tempo seu lado técnico, adotando uma tática de guerrilha, para que minhas críticas fossem aceitas, sem assustá-los, tentando atrair meus colegas físicos. Disse ali então:

A Cosmologia foi severamente criticada precisamente por sua ambição de produzir afirmativas sobre o mundo que a Física se impôs não fazer. E esse impedimento não foi imposto de fora. Não provém de nenhuma tentativa de um outro saber que teria levado a impedir tal movimento. Não, esta impossibilidade veio de dentro, teve sua origem no núcleo duro desta ciência, refletindo na tentativa da redução da função da Cosmologia a uma Física extragaláctica.  Entre as afirmativas, típicas de seu território de investigação, podemos reconhecer algumas como:

Qual a origem da expansão global do universo?

Quais são os dados iniciais do universo?

Existem mais dimensões do que as quatro de espaço-tempo?

Por que existe mais matéria do que antimatéria?

Por que existe alguma coisa e não nada?

A Cosmologia está produzindo um discurso sobre essas questões, permitindo penetrá-las e produzir, inventar e codificar nosso conhecimento sobre elas. Isso nos ajuda a entender porque vimos afirmando um modo novo de conceber seu papel. Sua verdadeira dimensão deve ser procurada precisamente no lugar em que produz acesso a este tipo de questões. Para desempenhar este papel, a Cosmologia deve refundar a Física, reexaminar os fundamentos sobre os quais ela repousa e se sustenta. Nesse caminho deve-se usar todos os meios que dispõe o homem e isso significa recuperar todo o conhecimento que foi colocado em compartimentos separados muito dos quais foram etiquetados como filosofia e, dessa forma, impedidos de colaborarem com nossa ambição de conhecer o mais profundamente possível o universo e os homens.

Era precisamente para preparar a mim, meus alunos e meus colaboradores para esse salto no escuro, que comecei a procurar aquelas alternativas.  Não queríamos filósofos que se dedicavam a questões formais, como os positivistas lógicos do começo do século ou os seus seguidores modernos, pois para esse tipo de reflexão estávamos preparados, tínhamos sido treinados para isso. Tínhamos que ir além. Precisávamos estabelecer conexão com questões da Metafísica e da Ética.

Alliez e, principalmente, Ulpiano eram exemplos particulares de um movimento de ideias e propostas que permitiriam enxergar através do nevoeiro que o abuso excessivo da dominação da técnica criara na ciência e a partir daí, desenvolver um novo caminho, produzindo resultados práticos em nossa atividade cientifica cotidiana. A fascinação de pensar além da proposta do big bang, por exemplo, parecia ser naturalmente um desses caminhos. Foi o que decidi escolher.

Muito antes, ainda na Universidade de Brasilia, eu já manifestara essa vontade de considerar a atividade do cientista bem além de sua técnica, como um homem aberto, procurando conexões e identidades com companheiros de caminho que optaram por outros saberes. Em vários momentos Tiomno me alertava para as dificuldades que eu iria enfrentar. Hoje, devo reconhecer que nesse ponto ele tinha razão. Mas isso não diminuía em nada meu entusiasmo por essa conexão, por atrair filósofos, historiadores, homens de outros saberes, para um diálogo que deveria ser de mão dupla, buscando um conhecimento universal.

Logo ficou claro para mim que uma tal orientação tinha consequências práticas, até mesmo na escolha da produção científica, do caminho a seguir, da seleção dos cientistas que deveríamos convidar para interagir conosco. Curiosamente, descobri então que a riqueza de novas ideias não se encontrava no ocidente arrogante e tecnicamente competente, mas lá longe, nos centros de pesquisa da União Soviética, na imaginação extraordinariamente rica que ali se estava desenvolvendo.

Essa descoberta me deixou perplexo por muito tempo e só consegui entendê-la um pouco melhor recentemente, pois isso sempre me pareceu estranhamente contraditório.  Enquanto a liberdade política era restrita sob o regime comunista na URSS, as ideias desenvolvidas por seus físicos e cosmólogos eram exuberantes e pareciam não ter limite, algumas vezes beirando uma maravilhosa e atraente orquestração de processos que pareciam associados a uma interpretação fantasiosa da realidade. Por outro lado, contra toda expectativa, no ocidente, nos EUA e na Europa, a imensa liberdade política aparente criava o isolamento da razão, gerado a partir de um tecnicismo eficiente e autorreferente, fechado em si, limitando o que deveria ser considerado a verdade científica pelo establishment. Estranhamente seus físicos se revelavam conservadores, construindo um muro no interior da academia, para resguardar sua verdade científica, rejeitando novas formas de descrição da realidade, inibindo ostensivamente a imaginação na construção de representação de retalhos da natureza e, principalmente, enfatizando a técnica em detrimento da produção de uma visão de mundo.

Essa união entre diversos saberes tem sido uma constante em minha vida. Um exemplo recente foi a conferência chamada Mitos Cosmogônicos que organizamos no Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas. Reproduzo a seguir o texto que preparamos para a abertura daquela conferência.

   Mitos cosmogônicos

Todas as civilizações, algumas antigas de mais de 40 séculos, produziram uma história do nascimento do mundo. Cada uma delas constituiu a base para instaurar as diversas religiões. Nas últimas décadas pensadores de diversas áreas tem se dedicado ao estudo comparativo dessas versões reconhecendo que esses mitos de criação possuem, de uma maneira intrigante, uma estranha semelhança aos cenários de descrição das origens de nosso universo como propostos nos tempos atuais pelos cientistas.

O exame desses mitos cosmogônicos ganhou notoriedade graças a uma celebre reunião ocorrida em outubro de 1957 em Paris onde antropólogos, historiadores e filósofos debateram como as diferentes civilizações representavam as origens do mundo. O interesse comum entre pensadores de áreas tão distintas se deveu à análise desses diversos mitos que conduziu ao reconhecimento de que eles possuem aspectos repetidos e extremamente semelhantes, mesmo tendo sido produzidos por civilizações tão afastadas no espaço e no tempo como nos antigos egípcios, nos sumérios, hititas, Canaã, Israel, Islã, turcos e mongóis, na Pérsia pré-Islâmica, no Tibet, na América do Norte e do Sul assim como em outros territórios.

Na conferência Mitos Cosmogônicos reunimos, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, físicos, cosmólogos, antropólogos, filósofos, mitólogos e psicanalistas para examinar à luz do conhecimento atual dessas áreas, as diferentes versões da criação do mundo.  A grande novidade e que distingue a reunião ocorrida em Paris-1957 da nossa Rio-2013 foi a participação ativa de físicos e cosmólogos.

 A entrada de cosmólogos naquele grupo para examinar as ideias que os homens construíram sobre as origens do mundo decorre do avanço de nosso conhecimento sobre o Universo realizado nessas últimas décadas.

Uma análise mesmo que superficial daqueles mitos permite estabelecer uma surpreendente analogia com os dois principais cenários que a ciência moderna elaborou, isto é, o chamado big-bang e o universo eterno dinâmico.  No primeiro, bastante popular na mídia, o universo teria começado a sua expansão como uma explosão singular, seu volume espacial total aumenta com o tempo cósmico e teria tido o valor zero há um tempo finito de nós; no segundo cenário, o Universo teria tido uma fase colapsante inicial na qual seu volume total diminuiria com o passar do tempo, atingido seu valor mínimo, diferente de zero, e ingressado a seguir na atual fase expansionista. Enquanto a origem no ponto singular estaria completamente fora de qualquer análise racional; no cenário do universo eterno, a questão do início estaria remetida a um tempo longínquo, e devido à instabilidade do vazio, teria precipitado aquele colapso por razões que a cosmologia pode fornecer.

Os cientistas estariam assim respondendo, de um modo inesperado, à antiga questão dos filósofos “por que existe alguma coisa ao invés de nada”, apresentando as ideias atuais sobre a origem do Universo através de uma sentença — provocativamente elaborada na “linguagem antiga” — afirmando que Deus não é capaz de produzir um vazio (de matéria e de espaço e tempo) estável: isto é, o mundo existe graças à ineficácia do demiurgo.

O vazio que a física atribui a um estado especial da matéria não é estável, e consequentemente não pode permanecer para sempre nesse estado levando-o necessariamente a se transfigurar no estado que chamamos matéria e energia.

 Como é possível compreender essas semelhanças dos diversos mitos de criação explicitada na reunião do Rio? Como conciliar os mitos de criação em Hesíodo; a evolução das múltiplas faces de Exu no Candomblé e sua povoação do mundo; a formação da estrutura a partir do tempo mítico; a declaração dos mitos indígenas do Alto Xingu; a tentativa de identificar os mecanismos de construção subjetiva da representação do mundo; tudo isso associado intimamente com a Cosmologia contemporânea?

Todas essas análises que, para um observador externo àquela reunião, podem parecer independentes e sem ponto de contato, tratam, no entanto, da mesma coisa.  Alguns atribuem essa semelhança a propriedades do inconsciente coletivo, como sugeriu o psicanalista Carl Jung; outros sustentam que sua origem estaria ligada à estrutura do pensamento lógico ou a uma forma universal de introversão da realidade externa; enquanto outros ainda consideram essa semelhança a nada mais do que características do funcionamento orgânico de nosso cérebro. Independentemente dessas diversas explicações podemos concluir dessa reunião que o encontro da Cosmologia com esses outros saberes está provocando um novo diálogo com a natureza.

Tudo leva a crer que é precisamente desse diálogo que os mitos de criação tratam.

Esse texto foi extraído (editado) de meu livro Os Cientistas da Minha Formação (Ed. Livraria da Fisica (2016).

Autor

  • Mario Novello

    Professor Emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (2012) e Bolsista Sênior (Faperj), publicou diversos livros de divulgação científica e mais de 150 artigos científicos em prestigiosos periódicos internacionais, e orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado no CBPF. Em 1979 elaborou o primeiro modelo cosmológico de um universo eterno com bouncing.

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