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Paradigmas, valores e incomensurabilidade na cosmologia contemporânea

Por Cecilia Mouta 5 de maio de 20265 de maio de 2026

Segundo o filósofo Thomas S. Kuhn, a ciência normal ocupa grande parte do empreendimento dos pesquisadores. Esse período é caracterizado pelo compromisso dos cientistas com um paradigma. O paradigma possui vários significados, mas dois destaques que o filósofo dá para o termo são no sentido de matriz disciplinar e exemplares. Matriz disciplinar é seu sentido mais global e representa o conjunto compartilhado de valores, crenças, técnicas e instrumentos. Exemplares são as soluções concretas aceitas pela comunidade científica que servem de modelo para futuras pesquisas.

Segundo Kuhn, uma das principais características da ciência normal é a não pretensão de produzir nenhuma novidade, é uma atividade voltada para a resolução de quebra-cabeça. O cientista, após aderir a um paradigma, dedica-se a atividades como determinação de fatos significativos, adequação entre fatos e teorias e articulação do paradigma. Por oferecer uma determinada visão de mundo, é comum a prática da ciência normal oferecer resistência a novas descobertas. Quando um paradigma, numa de suas atividades, começa a falhar, surgem as anomalias. A anomalia é quando a resposta esperada para um quebra-cabeça não acontece, contradizendo as expectativas do paradigma vigente. Quando muitas anomalias persistem e se acumulam, a ciência entra no período de crise. Neste período, novas ideias surgem para tentar solucionar a anomalia. É nesse momento de ciência extraordinária que acontece a competição de paradigmas.

Dois paradigmas diferentes, no entanto, dificilmente investigam o mesmo problema. Isso porque cada paradigma pode redefinir o que conta como problema legítimo, mudar critérios de solução e alterar o que é considerado uma “solução satisfatória”. Afinal, cada paradigma fornece uma visão de mundo e dois paradigmas concorrentes podem ser incomensuráveis. Se, muitas vezes, essa competição não se dá nos mesmos termos, como a escolha de paradigmas, numa crise, é feita? Kuhn aponta para fatores extra paradigmáticos nas escolhas de teorias, que ele chamou de valores.

Algumas características são desejadas para uma teoria científica ser considerada boa. Primeiro, acurácia, isto é, conseguimos deduzir consequências da teoria que estão de acordo com os dados e observações. Segundo, a teoria precisa ter consistência interna e externa. A consistência externa garante que a teoria está de acordo com o conhecimento produzido até então e a consistência interna garante que não há termos contraditórios dentro da mesma. Terceiro, a teoria deve ser abrangente, isto é, as consequências deduzidas da teoria precisam ir além das observações atuais e daquilo que as teorias atuais explicam. Quarto, a teoria deve ser simples. Quinto, e importante para a escolha de teorias, a teoria precisa ser frutífera, isto é, precisa prever novos fenômenos ou prever relações novas com os fenômenos já conhecidos (Kuhn, 1977).

Esses critérios, chamados por Kuhn de valores, são vitais na chamada ciência extraordinária, onde os cientistas devem escolher entre um paradigma já estabelecido e um novo. De acordo com o filósofo, não existe um conjunto de regras fixas utilizadas pelos cientistas na escolha de um paradigma. O que influencia são valores, e esses valores são compartilhados, mas podem ser interpretados de maneiras diferentes. Para além do nível de comunidade, no nível individual, segundo Kuhn, aspectos subjetivos influenciam na escolha de teorias como, por exemplo, o tempo que um determinado cientista trabalha com uma determinada teoria, os impactos da nova teoria no seu trabalho. Os aspectos subjetivos, reforça o filósofo, não se referem ao gosto dos cientistas, mas sim ao julgamento que eles fazem de determinados aspectos da teoria[1].

Na cosmologia contemporânea, podemos ver um caso interessante como exemplo. O paradigma atual é o modelo ΛCDM. Este modelo tem, como compromisso duas entidades: a matéria escura fria (CDM), que interage gravitacionalmente, mas não eletromagneticamente; e a constante cosmológica Λ, que é responsável pela expansão acelerada. Outro compromisso é a isotropia e homogeneidade do universo, além da relatividade geral como modelo que o descreve. O modelo também assume uma singularidade inicial. Já o modelo de bouncing, entendido como um concorrente ao ΛCDM, assume outros compromissos. O primeiro deles é que a singularidade não é um limite físico real, é um limite onde a descrição da Teoria da Relatividade Geral falha. Isso pressupõe que haja uma física mais fundamental que conseguiria “resolver” essa singularidade. O universo, então, não teria um início absoluto, mas uma continuidade através do bouncing. 

Como podemos ver, os dois paradigmas têm visões diferentes sobre o que é uma solução satisfatória em relação à singularidade. Enquanto o ΛCDM vê a singularidade como um limite de onde a física consegue ir, o modelo de bouncing vê a singularidade como algo que se consegue resolver.

Como diz o cosmólogo Mario Novello:

  • “A física é uma ciência experimental que, por razões óbvias, não pode ter como resultado de uma medida esse valor inobservável “infinito”, mas sim e somente, valores reais, finitos.”  (Novello, 2026)

Dessa forma, dada a estrutura pela qual Kuhn descreve o funcionamento da ciência, o debate entre os paradigmas ΛCDM e bouncing não é apenas empírico, mas envolve diferentes compromissos teóricos do que conta como uma resposta satisfatória. A recusa da singularidade como solução física nos modelos de bouncing reflete como um paradigma carrega valores distintos de critérios como frutificação teórica e inteligibilidade física, em contraste com a postura mais conservadora do ΛCDM diante dos limites da relatividade geral.

Assim, este caso ilustra a tese de Kuhn de que, em momentos de crise, a escolha entre paradigmas não é determinada por regras fixas, mas por valores que, embora sejam compartilhados, admitem diferentes interpretações.

            Referências:

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 13. ed. São Paulo: Perspectiva, 2017.

________________. Objectivity, Value Judgment, and Theory Choice. In: KUHN, Thomas S. The Essential Tension: selected studies in scientific tradition and change. Chicago: University of Chicago Press, 1977. p. 320–339.

_________________. The function of dogma in scientific research. In: CROMBIE, A. C. (Ed.). Scientific Change: Historical Studies in The Intellectual, Social and Technical Conditions for Scientific Discovery and Technical Invention, from Antiquity to the Present. Londres: Heinemann Educational Books Ltd, 1961. p. 347-369

NOVELLO, Mario. Sobre o uso do termo universo primordial. Cosmos & Contexto. Disponível em: https://cosmosecontexto.org.br/sobre-o-uso-do-termo-universo-primordial/. Acesso em: 19 abr. 2026.


[1] Essa diferença de subjetividade como gosto e como julgamento é importante para a compreensão da objetividade científica. Enquanto gosto, a subjetividade se confronta com a ideia de objetividade. Mas enquanto julgamento não. Segundo Kuhn, os critérios pelos quais os cientistas preferem uma teoria à outra podem ser discutidos racionalmente e, portanto, a subjetividade enquanto julgamento não compromete a objetividade científica.

Autor

  • Cecilia Mouta

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