Somos quase todos machianos

Pretende-se colocar em evidência alguns aspectos da epistemologia da prática científica proposta por Ernst Mach (1838-1916), mostrando de que maneira ele conjuga um projeto anti-metafísico com o uso de ficções heurísticas na sua prática de pesquisa e sua epistemologia da ciência. Depois de retomar qual foi a importância de Mach no cenário intelectual de sua época, reconhecendo que poucos homens influenciaram a tantos em tantas áreas do saber como ele, proponho analisar um caso específico: sua influência na proposta de Freud, de utilizar uma metapsicologia,  enquanto um superestrutura especulativa da psicanálise, na construção da sua psicologia como uma ciência da natureza. Ao que tudo indica é este proceder que parece conjugá-lo com Albert Einstein, também influenciado por Ernst Mach. Tal análise pode apresentar a questão de saber se tal procedimento, no uso de ficções heurísticas, não ocorre, ainda, em todas as práticas científicas (seja nas chamadas ciências duras, sociais ou sociais aplicadas).

Para Kant só existem duas ciências naturais: a física e a psicologia (1786). Newton e Einstein representam nomes paradigmáticos da física; Skinner e Freud, por sua vez, são os representantes maiores de duas perspectivas de constituição da psicologia como uma ciência da natureza. Pois bem, a epistemologia das ciências de Ernst Mach paira como uma sombra sobre Einstein, Skinner e Freud… talvez sobre todos nós!  É isto que pretendo mostrar nesse texto, com o intuito de mostrar que essa epistemologia parece estar presente nas práticas científicas.

Num certo sentido, é arriscado colocar um psicólogo para falar numa casa que hospeda a ciência, especialmente físicos. A psicologia ainda luta, em muitos de seus ramos ou possibilidades, para ter um assento confiável nessa casa. O próprio Kant duvidou da possibilidade da psicologia poder constituir-se como uma ciência da natureza (cf. Fulgencio, 2006b) e, até hoje, convivemos, na psicologia, com uma diversidade de paradigmas (para usar o termo de Kuhn) sem que haja unidade e hegemonia de enquadres nessa área do conhecimento, até mesmo, possamos duvidar que certas propostas mereçam ser avaliadas como propostas científicas (ao lado da física e de outras ciências). Certamente a psicanálise é uma destas, a ponto de Richard von Kraft-Ebing (1840-1903) tê-la caracterizado como um conto de fadas científico.

Tenho me dedicado compreender a proposta e o pensamento de Freud, na  sua defesa da psicanálise como sendo uma ciência da natureza e, nessa direção, já me ocupei de analisar as semelhanças, influências e diferenças entre as propostas de Ernst Mach e Sigmund Freud.[1] Nesse sentido talvez eu possa fazer alguma contribuição no que se refere à compreensão de uma epistemologia machiana da prática científica de pesquisa, ou ainda, uma psicologia do cientista, como talvez dissesse Mach.

Assim, com esse objetivo, me proponho a: 1. Retomar o lugar e a importância de Mach na história da produção do conhecimento, mostrando sua presença e influência em diversas áreas do conhecimento; 2. Explicitar algumas das propostas de Mach para compreender a relação entre sua crítica à metafísica na ciência, associada à prescrição do uso de especulações heurística na prática de pesquisa; 3. Analisar a presença da epistemologia de Mach na proposta de Freud, na sua construção da psicanálise como uma ciência da natureza e no uso que este faz de ficções heurísticas como instrumentos de pesquisa; 4. Explicitar, com apoio documental na correspondência entre Freud e Einstein bem como nas relações históricas entre Mach e Einstein, que há uma comunhão epistemológica machiana entre a física e a psicologia.

A importância histórica de Ernst Mach

Mach é conhecido popularmente, no Brasil, como uma marca de lâmina de barbear descartável! No meio científico, ele aparece como nomeando fenômenos e uma unidade de medida: a Banda de Mach, o Cone de Mach e a Unidade de Velocidade Supersônica de aviões. Menos aparente, mas com sua influência já reconhecida, podemos citar sua presença na vida e na obra de cientistas (tais como Einstein, Planck, Heisenberg), de matemáticos (tais como R. Von Mises e Georg Helm), filósofos (tais como como Schlick, Wittgenstein, Carnap[2], Willian James[3]), políticos (tais como Bogdanov e Lenin[4]), homens de direito (tal como Hans Kelsen[5]), economistas (tais como Schumpter e Polanyi), psicólogos (tais como Skinner e Freud[6]),  literatos e artistas (tais como Robert Musil[7] e Franz Kafka[8]), críticos de arte (tal como Carl Einstein[9]), pintores (tal como Paul Klee[10]) etc.

Poucos homens influenciaram tantos em tantas áreas como Ernst Mach!

Uma das suas influências mais notórias talvez seja a que exerceu sobre Einstein, a ponto deste subscrever, numa carta a Mach de 1909: “Eu permaneço seu aluno que o venera” (apud. Holton 1967, p. 108, carta de Einstein de 17/08/1909). Na sua biografia, temos o relato de uma entrevista que Einstein dá para I. Bernard Cohen (historiador da ciência em Harvard) quando já estava com 76 anos e um tanto quanto debilitado, onde Cohen comenta: “Einstein também se lembrou de seus encontros com Mach e disse que, além de Mach, Newton, Lorentz, Planck e Maxwell eram os cientistas que mais admirava. Eram, de fato, os únicos que considerava seus verdadeiros precursores” (Brian, 1996, p. 465).

Mach morre em 1915 e Einstein escreve seu obituário: “O fato é que Mach, através de seus escritos histórico-críticos […] exerceu uma grande influência na nossa geração de cientistas da natureza. Chego a acreditar que as pessoas que se veem como opositores de Mach, mal sabem o quanto absorveram a forma de pensar de Mach, por assim dizer, com o leite de suas mães” (Einstein 1916, pp. 154-155).

Desde o final do século passado a importância de Mach tem sido retomada e ressaltada, com um aumento significativo de novas publicações (cf. Banks, 2003; Blackmore, 1972, 1992; Blackmore, Itagagi, & Tanaka, 2001; Blackmore, Itagagi, & Tanaka, 2009; Cohen & Seeger, 1970; Gerald Holton, 1993; Ratliff, 1965a; Ratliff, 1965b).  De 16 a 18 de junho de 2016, tivemos um congresso internacional por ocasião do centenário da morte de Mach, em conjunto com a comemoração do 25º  aniversário do Círculo de Vienna (nascido de um grupo de estudo sobre a obra de Mach), na Universidade de Vienna.

No meu livro, Mach & Freud. Influências e Paráfrases (2016), retomei diversos passagens desses comentadores mais atuais, fazendo um rápido panorama de suas avaliações sobre a importância de Mach, que não me parece ser o caso aqui retomar.

Os principais livros de Mach são: A ciência da Mecânica (1883), Análise das Sensações (1886) e Conhecimento e Erro (Mach, 1905). Além de seu texto, também clássico, História e Raízes do Princípio de Conservação de Energia (1872).

A proposta de Mach como antimetafísico e como defensor do uso de especulações no vir-a-ser da ciência

No seu livro A Ciência da Mecânica (1883), Mach esclarece seu propósito: “A presente obra não é um manual destinado ao ensino das teorias da mecânica. Aqui se encontrará muito mais um trabalho de explicação animado de um espírito antimetafísico” Mach (1883, p. 1). O que parece indicar que ele se oporá a todo tipo de metafísica, a todo tipo de especulação, a todo tipo de proposta de conhecimento científico (todo tipo de teoria) que não esteja referido aos fenômenos com seus substratos empíricos, factuais.

Mach ressalta que, na sua experiência como professor, deu-se conta de que havia certas lacunas e/ou obscuridades no seu conhecimento ordinário: “A seguinte aventura deve acontecer a mais de um mestre: está se expondo com certo entusiasmo às concepções tradicionais e aprendidas quando, de repente, sente-se que as próprias convicções primeiras se abalam. Refletindo sobre isso, depois, já com a cabeça descansada, não se demora a descobrir alguma inconsequência lógica que, uma vez reconhecida, torna-se insuportável” (Mach, 1896: Princípio da teoria do calor, “Prefácio”).

Foi assim nessa direção que Mach compreendeu que a física carrega consigo diversas entidades metafísicas, pois, ao se tentar explicar a origem de certos conceitos, nem sempre era possível distinguir muito bem aquilo que vinha da experiência do que era dado a priori. Para Mach, ocorriam contradições na exposição dos conceitos da física porque as diversas proposições da ciência não eram apresentadas numa ordem conveniente, em especial, pelo fato de não se dar atenção adequada para a distinção suficientemente clara entre o que vinha da experiência e o que era dado a priori.

Na tentativa de fazer essas distinções, Mach elaborou uma maneira para reexpor a física de forma adequada, o seu método histórico-crítico: histórico porque faz um julgamento do próprio desenvolvimento da física na explicação dos fenômenos da natureza e crítico por colocar nessas explicações a questão de saber o que vem da experiência e o que é um dado a priori. Seus dois principais livros, nesse sentido, são: A Mecânica. Exposição e crítica de seu desenvolvimento, de 1883, cujo objetivo ele declara claramente “ é esclarecer as ideias, e livrar-se das obscuridades metafísicas” (Mach 1883, p. IX); e Conhecimento e Erro (1905).

A natureza da noção de força na física para Mach

Nesse caminho ele faz uma série de análises sobre a natureza de alguns conceitos da física. Dentre eles,  o conceito de força.

Para Mach a noção de força é um conceito antropológico, trata-se da projeção de uma percepção humana, no contato de seu corpo com os outros corpos e no seu próprio movimento, o homem sente uma pressão (em si mesmo) e a associa ao movimento. O conceito de força corresponde, num determinado momento da história da física, aquilo que se supõe ser a causa dos movimentos, uma causa suposta e, para Mach (num formulação que parece ser surpreendente) um tipo de mito.

Ao comentar quais serias as causas “míticas” consideradas pelos físicos como sendo as responsáveis, em última instância, pelos movimentos da natureza (Physis), Mach afirma: “Nós podemos caracterizar com o nome de mitologia da natureza esta ciência do início [Grega/Thales, Pitágoras etc.] com seus elementos fantasiosos. Depois, a mitologia da natureza, animística e demonológica, se transforma, pouco a pouco, numa mitologia mecânica e automática e, enfim, numa mitologia dinâmica” (Mach 1905, p. 77).

Mach considera a noção de força como um “mito” que explica a causa primeira, anterior à qual nenhuma outra deve ser considerada, para explicar como ocorrem os movimentos, para auxiliar na procura da efetiva relação entre os fenômenos.

É nesse sentido que Mach declara-se entusiasmado pela proposta de Hertz de construir uma física axiomática, na qual o conceito de força não seria necessário: “Em função disto o conceito de força tornar-se-ia supérfluo” (Mach 1883, pp. 548-555).

As ficções heurísticas em Kant: a ideia de força e a ideia de Cosmos[11]

Ao analisar como Newton procedera para a produção do conhecimento, no campo das ciências da natureza, tomando-o como um modelo da própria cientificidade, Kant comentará, no seu Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza (1786), que na história da física os homens sempre necessitaram considerar a existência de uma causa incondicionada, primeira ou originária, para os movimentos. A máxima que estabelece a relação infinita entre causas efeitos (para todo efeito há uma causa), deixa lacunas causais em aberto (ao menos, a do seu início), o que exige, para o bem da própria razão e da possibilidade de conhecer, supor, por convenção, uma causa anterior à qual nenhuma outra deve ser procurada ou suposta.

Kant reconhece, na história da física, duas propostas desse tipo: a do ponto de vista mecânico, ou atômico, onde a causa dos movimentos são, por assim dizer, “átomos de movimento” que são transmitidos de um corpo para outro; e a do ponto de vista dinâmico, ou das forças, onde a causa do movimento são as forças que agem entre os objetos, e nem mesmo uma infinidade de forças, mas somente duas, as de atração e de repulsão.[12] Tanto num caso como noutros, estabelecidas por convenção.

Não é difícil retomar a história da física, desde Aristóteles, para reconhecer essas duas opções. Mas tanto uma quanto outra, tanto os átomos de movimento quanto as forças de atração e repulsão, são, para Kant, ficções heurísticas, causas incausadas, originárias, anterior às quais não se deve procurar outras mais primitivas ou mais originárias, a serviço tanto do processo de pesquisa e descoberta, quanto da garantia de que será possível estabelecer uma série causal sem lacunas.

As ficções heurísticas são, para Kant, idéias da razão, produzidas por ela para o bem do conhecimento, e, nesse sentido, meras idéias sem um referente objetivo na realidade fenomênica:

Os conceitos da razão […] são meras ideias e não têm, evidentemente, objeto algum em qualquer experiência, mas não designam por isso objetos imaginados e ao mesmo tempo admitidos como possíveis. São pensados de modo meramente problemático, para fundar em relação a eles (como ficções heurísticas) princípios reguladores do uso sistemático do entendimento no campo da experiência. Se sairmos deste campo, são meros seres da razão, cuja possibilidade não é demonstrável e que não podem também, por hipótese, ser postos como fundamento da explicação dos fenômenos reais. (Kant, 1787, B 799)

Kant se refere a outras ideias da razão, dentre elas, uma que é de interesse central dos físicos, que é a ideia de que existe apenas uma natureza, um único cosmos, regido pelas mesmas leis universais. Certamente, se houvesse duas ou mais naturezas e/ou cosmos com leis díspares para os mesmos conjuntos de fenômenos, não teríamos, jamais, alguma certeza da determinação causal dos fenômenos, tornando o conhecimento impossível. Para o bem da razão, é melhor considerarmos que existe uma só natureza, um só cosmos! Mas isso não deixa de ser uma ficção!

Creio que é nessa direção que Mach se opunha ao conceito de átomo como um conceito que tivesse uma realidade fenomênica objetiva; ele o via como mais uma ficção heurística. Talvez seja este um dos pontos que fez com que Mach fosse um pouco desconsiderado, ou esquecido, ao longo do desenvolvimento da física no século XX.

Dependências mútuas, causas e efeitos

Mach também colocará em cheque aquilo que se convenciona formular como sendo as relações de causa e efeito, referindo-se a este modo de colocar as coisas como sendo apenas mais um tipo de convenção. Dado os fenômenos e suas dinâmicas de determinação mútua, o que temos são essas relações, sem que seja possível distinguir claramente o que seria uma causa e um efeito. Diz Mach, para caracterizar sua posição:

Examinemos mais de perto o que entendemos por causalidade, de maneira a dar ao que precede uma justificação mais estreita. A concepção antiga de causalidade, que herdamos da tradição, é um tanto quanto rígida, dado que para uma quantidade definida de causa resulta uma quantidade definida de efeito. Tal é a expressão típica de uma concepção do mundo primitiva e farmacêutica, como é ainda o caso nas teorias dos quatros elementos. O emprego do termo causa [Ursache] é suficiente para o tornarmos evidente. Na natureza, as conexões são raramente muito simples, de maneira que se possa fornecer, num caso dado, uma só e mesma causa, um só e mesmo efeito. É por isso que me esforcei, já a um longo tempo, em substituir o conceito de causa pelo conceito de função matemática, o que significa dependência mútua dos fenômenos, ou, mais precisamente ainda, dependência mútua das características que pertencem aos fenômenos. (Mach, 1886, pp. 88-90).

O valor heurístico das ficções

Mas qual é o objetivo da ciência? Para ele, a resposta é simples: a ciência  procura explicar as relações de determinação entre os fenômenos. Certamente, há uma série de dificuldades e de possibilidade de acesso a essas relações, e isto não se resolve a partir da dedução do que se pode esperar de certas condições dadas conhecidas, levando o cientista a ter que inventar e experimentar na busca dessas relações:

A pesquisa analítica das condições, do que é um fato dado, é uma tarefa muito menos determinada do que a tarefa da dedução das consequências das condições dadas; assim, este trabalho só se faz passo a passo, por tateamento, com a ajuda de hipóteses, com as quais é possível combinar diversos itens, até mesmo itens falsos ou indiferentes, na busca das relações [de determinação] corretas [entre os fenômenos]. Desta maneira a linha de pensamento adotada pelos cientistas ser tão influenciada por contingências. (Mach, 1905, p. 197)

O que é notável nessa afirmação de Mach é a sua referência ao uso de “itens falsos ou indiferentes”, como um recurso para a pesquisa ou busca das efetivas relações entre os fenômenos. Também é esclarecedor que Mach (1905) se refira à teoria como sendo uma descrição sucinta dos fatos, ainda que nem toda teoria usada na ciência seja desse tipo.

Esses itens falsos ou indiferentes são construções teóricas auxiliares especulativas a serviço da descoberta das efetivas relações entre os fenômenos, eles são, numa denominação conceitual mais precisa, aquilo que Kant denominou de ficções heurísticas.

Necessidade e Provisoriedade das ficções heurísticas na ciência

Essas ficções são ou não necessárias? Como Mach pode defender o uso de especulações ao mesmo tempo em que se propõe a combater a metafísica na ciência? Devemos creditar isto a uma contradição no seu pensamento?

Para esclarecer que a proposta de Mach é coerente e sem contradição é necessário distinguir o que Mach considera ser a ciência no seu estágio final – “tudo o que é hipotético, metafísico, fútil, deve ser eliminado” Mach (1886, p. 29) – e a ciência no se estágio de vir-a-ser, no qual ela usa, com fins heurísticos, construções teóricas auxiliares especulativas e/ou metafísicas, mas considerando que isto é provisório, que “os conceitos empíricos simplesmente tomam o lugar dos conceitos metafísicos” (Mach 1886, p. 332).

Nesse sentido, como disse Cohen, é necessário considerar que existem dois Machs: “um que atribui um papel importante para as hipóteses – mesmo quando são parciais – e outro cujo programa era eliminar da ciência toda ilusão e simulacro, ou seja, toda metafísica. A razão pela qual o Mach antimetafísico não se sentia limitado pelo fato de a ciência ser banhada de hipóteses é que, ao se confrontar com isso, ele fazia o papel do Mach evolucionista” (Cohen, 1970, p. 145).

Em 1905, Mach aponta objetivamente quais seriam alguns desses itens falsos ou indiferentes, dando exemplos de ficções heurísticas na prática de pesquisa científica, bem como qual o destino dessas:

Pensemos nas partículas da luz de Newton, nos átomos de Demócrito e de Dalton, nas teorias dos químicos modernos […] e, finalmente, nos modernos íons e elétrons. As múltiplas hipóteses físicas sobre a matéria, os turbilhões cartesianos e eulerianos, que reaparecem nas novas teorias eletromagnéticas de correntes e turbilhões, os sumidouros e as fontes que levam à quarta dimensão do espaço, as partículas ultra mundanas que geram a gravitação etc. etc. poderiam ainda ser mencionadas. Ocorre-me que se trata de uma roda-viva de representações aventureiras modernas que, tal como uma festa das bruxas [Hexenssabbat], impõe respeito. Essas filhas da fantasia lutam pela existência na medida em que procuram se sobrepujar mutuamente. Inúmeras dessas orações da fantasia devem ser aniquiladas, pela crítica implacável, tendo em vista os fatos, antes que uma delas possa desenvolver-se e ter uma permanência mais longa. Para que se possa avaliar esse processo, é necessário levar em conta o fato de que se trata de reduzir os processos naturais a elementos conceituais mais simples. (Mach, 1905, p. 77)

Mach esperava, no entanto, que um dia a fiísica estaria livre de toda e qualquer metafísica (Mach, 1883, p. 7).

Poderíamos, aqui, fazer uma certa digressão, numa crítica ou aparente contradição de Mach, retomando o argumento central do seu Análise das Sensações (1886), onde ele afirma que tudo o que percebemos do mundo, seus aspectos físicos e não-físicos, nada mais são do que sensações (unidades da apreensão do mundo) agrupadas de uma [apreendidos como físicos] ou outra maneira [como não-físicos]. A realidade seria composta, fundamentalmente, de sensações. Ora, o literato Robert Musil, autor de O homem sem qualidades, fez uma tese de doutorado em Filosofia sobre Ernst Mach, Para uma apreciação das teses de Mach (1908), sob a orientação de Carl Stumpf, apontando criticamente para o fato de que as sensações, como elementos últimos que comporiam a realidade (corpórea e não-corpórea) seriam, por sua vez, entes metafísicos, considerando, então que Mach procurou expulsar a metafísica da ciência, como fantasmas expulsos pela porta, mas a reinseriu com sua teoria das sensações, como fantasmas que retornam pela janela da casa da ciência.

Realismo versus instrumentalismo: a controvérsia entre Planck e Mach

Mach e Planck publicaram uma série de textos, em diálogo, discutindo a natureza das teorias científicas.  O que estava sendo discutido nesse enfrentamento era a natureza das “visões de mundo” na prática científica, a questão do valor a ser dado a certos conceitos no que diz respeito a realidade empírica ou a natureza apenas instrumental desses. Eles se opunham fortemente: de um lado, Planck, se colocando num ponto de vista realista, por outro Mach, num ponto de vista instrumentalista.

Um dos lances curiosos dessa disputa foi a publicação de um Manifesto, em 1912, intitulado: “Convocação para a fundação de uma ‘Sociedade para a Filosofia Positivista’”[13]. Constam, como assinantes, um número expressivo das autoridades intelectuais do começo do século passado, entre eles: Ernest Mach, Sigmund Freud, Albert Einstein, David Hilbert, Félix Klein[14], George Helm[15], Jacques Loeb[16], entre outros.[17]

Tínhamos, pois, de um lado a posição instrumentalista de Mack e, por outro, a realista de Planck. Para esse último, a ciência não nos forneceria apenas convenções, mas algo que deveria refletir as leis do mundo. Ele questionava: “Ela [a visão de mundo científica] é uma pura e arbitrária criação de nosso espírito ou reflete, na sua realidade, os processos naturais tal como eles se desenvolvem independentemente de nós?”.[18] A sua oposição a Mach é explícita: “Eu estou persuadido que o sistema de Mach, se ele é rigorosamente aplicado, permanece ao abrigo de contradições, mas eu penso também que sua significação é puramente formal e que ele não toca na essência das ciências naturais, isto porque ele não leva em conta a característica fundamental da investigação científica: a elaboração de um sistema de mundo constante, independente das vicissitudes temporais e das mentalidades nacionais. O objetivo da ciência não é o de adaptar perfeitamente nossos conhecimentos a nossas sensações, mas de depreender uma representação do mundo físico que seja completamente independente da personalidade dos homens que a constituem”.[19]

Sem que seja necessário nos aprofundarmos na análise dessa controvérsia (cf. Gómez, 2004), é um fato que Einstein e Freud se colocaram, pois, como signatários da posição de Mach.

A epistemologia de Freud é a enunciada por Mach

Ainda que Freud cite Mach algumas poucas vezes e de forma muito lateral, alguns pesquisadores desconfiaram que havia uma grande proximidade epistemológica entre eles (Assoun, 1981, 1985a, 1985b; Szasz, 1960; Borch-Jacobsen & Shamdasani, 2012b): “Freud era um positivista clássico, para quem a base fundamental do conhecimento era a observação, a percepção e a descrição de fenómenos. Como todo bom positivista – por exemplo, Ernst Mach, que parece ter sido sua referência principal em assuntos epistemológicos –, ele distingue firmemente a observação e a teoria”.[20] Borch-Jacobsen & Shamdasani consideram que Mach foi a principal referência epistemológica de Freud; eles apresentam essa influência colocando, lado a lado, passagens de textos dos dois autores, dedicados à epistemologia, que têm o mesmo conteúdo e/ou sentido.[21] Nessa direção eles enfatizam o fato de que Freud utiliza diversos conceitos metapsicológicos como ficções heurísticas, seguindo a mesma postura epistemológica de Mach: “Para Freud, os ‘conceitos básicos’[22] de sua metapsicologia eram apenas ‘ficções’[23], ‘entidades míticas’[24], superestruturas especulativas’[25], ‘construções científicas’[26] ou ‘hipóteses de trabalho’[27] destinadas a serem substituídas caso entrassem em conflito com a observação” (Borch-Jacobsen & Shamdasani, 2012, p. 133). [28]

Retomarei, então, alguns aspectos da obra de Freud, com o objetivo de esclarecer a epistemologia de Mach.

A psicanálise para Freud

O que é a psicanálise? Freud responde objetivamente: “A psicanálise é um procedimento médico que tende à cura de certas formas de nervosidade (neuroses) por meio de uma técnica psicológica” (Freud, 1913j, p. 165). Noutro momento, especificando que a psicanálise também é uma ciência, ele diz: “Psicanálise é o nome 1. de um procedimento para a investigação de processos anímicos, que são pouco acessíveis de outra maneira [os processos psíquicos inconscientes]; 2. de um método de tratamento das perturbações neuróticas, que se fundam sobre essa investigação; 3. de uma série de pontos de vista psicológicos, adquiridos por esta via, que crescem progressivamente para se juntarem numa disciplina científica nova” (Freud, 1923a, p. 235).

Ainda nessa direção, que caracteriza os fundamentos empíricos da psicanálise, Freud acrescentará dois fenômenos que ocorrem durante esse método de tratamento psicoterápico (a transferência e a resistência [ao acesso a conteúdos inconscientes], como elementos constituidores da psicanálise:

A teoria psicanalítica é uma tentativa de tornar compreensível duas experiências que sobrevêm, de maneira contundente e inesperada, quando se experimenta levar os sintomas mórbidos de uma neurose às fontes de onde eles derivam naquilo que foi vivido [na história de sua vida]: o fato da transferência e o fato da resistência. Toda orientação de pesquisa que reconhece esses dois fatos e os toma como pontos de partida de seu trabalho está no direito de se nomear psicanálise, mesmo se chega a outros resultados que não os meus. Mas aquele que se lança a outros aspectos do problema e se afasta dessas duas premissas escapará dificilmente da reprovação por ter  atentado à propriedade numa  tentativa de cópia fraudulenta, se persiste em nomear-se psicanalista. (1914d, pp. 27-28)

Se observamos bem, esses conceitos fundamentais da psicanálise acima indicados, são todos conceitos com referentes empíricos objetivos e adequados na realidade fenomênica. Eles constituem, por assim dizer, os conceitos clínicos e/ou psicológicos da psicanálise. Há, no entanto, outro conjunto de conceitos usados na psicanálise (libido ou energia psíquica, aparelho psíquico, pulsão, quantum de afeto) que são de outro tipo, são construções teóricas auxiliares de valor apenas heurísticos, que não têm, pois, um referente empírico adequado na realidade fenomênica mas, mesmo assim, são úteis para compreender como é e como funciona o psiquismo.

A metapsicologia para Freud

Freud utiliza o termo metapsicologia em dois sentidos distintos: por um lado, enquanto sinônimo de uma teoria psicológica que toma o inconsciente como aquilo que é propriamente psíquico[29], ou seja, como uma teoria que vai para além da psicologia da consciência e, por isso mesmo, meta, ou seja, a metapsicologia como uma teoria geral de uma psicologia do inconsciente;[30] por outro, a considera como um conjunto de conceitos que são construções teóricas auxiliares, especulativas, de valor apenas heurístico.

Já em 1894, Freud explicita seu uso de construções auxiliares. Neste momento, Freud está à procura da compreensão da dinâmica que produz os sintomas na histeria, na fobia e na neurose obsessiva, patologias tão diferentes em suas manifestações que apresentavam uma dificuldade no que se refere à elaboração de uma compreensão geral que pudesse servir às três, teoria geral única para as neuroses. Para isto ele lança mão da idéia de quantum de afeto, como uma construção teórica auxiliar especulativa. Os sintomas, na neurose, para ele, seriam como que o retorno de um quantum de afeto reprimido. Esse retorno poderia realizar-se por diversos caminhos, cada um deles constituindo um tipo de sintoma: no caso da histeria a energia reprimida retornaria investindo o corpo; na obsessão, investiria o pensamento; e na fobia, o mundo exterior. Diz Freud, nesse sentido, reconhendo seu proceder epistemológico especulativo: ”exporei em poucas palavras a representação auxiliar da qual me servi nesta exposição das neuroses de defesa. É a seguinte: nas funções psíquicas, cabe distinguir algo (montante de afeto, soma de excitação) que tem todas as propriedades de uma quantidade — ainda que não haja meio algum de medi-la —; algo que é suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se difunde pelas marcas mnêmicas das representações, como faria uma carga elétrica pela superfície dos corpos.[31]

A ideia de quantum de afeto ou de energia psíquica são construções auxiliares a serviço da procura da relação de determinação, dinâmica, entre os  fenômenos. Freud utilizará, consistentemente e de forma sempre presente na sua obra, de outras duas construções auxiliares fundamentais: a de aparelho psíquico e a de força psíquica (Trieb[32]). Em 1914, Freud escreve referindo-se ao conceito de libido, que ocupará o lugar conceitual da noção de quantum de afeto: “É que estas ideias [as de libido do eu e de objeto] não são o fundamento da ciência, sobre o qual tudo repousa: esse fundamento, ao contrário, é somente a observação. Não constituindo as fundações, mas o cume de todo edifício, elas podem, sem prejuízo, ser substituídas e retiradas” (Freud, 1914c, p. 85).

No que se refere à noção de aparelho psíquico, no seu livro A Interpretação dos sonhos (1900), Freud afirma, referindo-se à sua hipótese especulativa que procura comparar, por analogia, o psiquismo a um aparelho[33]: “eu estimo que nós temos o direito de dar livre curso a nossas suposições, desde que, ao fazer isto, mantenhamos a cabeça fria e não tememos o andaime pelo edifício. Como nós temos a necessidade de representações auxiliares para fazer uma primeira aproximação das coisas desconhecidas, nós preferimos, primeiro, aquelas hipóteses mais brutas e mais concretas” (Freud, 1900a, pp. 536-537).

Ao caracterizar qual é a natureza e a organização da sua primeira noção de aparelho psíquico, a chamada primeira tópica (apresentada no Cap. 7 do A Interpretação do Sonhos), Freud explicita claramente que se trata de uma especulação heurística reconhecível, por exemplo, na própria Física:

Ora, sei que você vai dizer que estas representações são muito grosseiras e fantasiosas, e que elas não são de forma alguma aceitáveis numa apresentação científica. Eu sei que elas são grosseiras: mais ainda, nós também sabemos que eles são imprecisas e, se não nos engamos muito, já temos disponível uma [representação] melhor[34]. No momento, elas são, para nós, representações auxiliares, como aquelas do Homem de Ampère que nada numa corrente elétrica; elas não são desprezíveis, na medida em que podem ser usadas para entender o que observamos. Quero assegurá-los que estas hipóteses grosseiras (dois espaços [Ics – PcsCs], um guardião na soleira entre os dois, com a Cs como um espectador alojado no canto da segunda sala), não deixam de ser constituírem-se como representações próximas do verdadeiro estado dos fatos. Quero ainda vos fazer entender que nossas designações (inconsciente, pré-consciente, consciente) prejulgam pouco e são mais fáceis de justificar do que outras que foram propostas ou utilizadas, tais como subconsciente, paraconsciente, intraconsciente etc. (Freud, 1916x, p. 296)

Freud reitera sua posição metodológica, em 1939, no seu último texto publicado (Esboço de Psicanálsie), afirmando o valor heurístico. No início do primeiro capítulo deste livro, de nome “O Aparelho Psíquico”, Freud diz, referindo-se a sua suposição de considerar o psiquismo como se[35] fosse um aparelho: “A psicanálise supõe um postulado fundamental que pertence à filosofia discutir mas cujos resultados justificam o valor” (Freud, 1940a, p. 145).

A noção de força psíquica é outra especulação fundamental, bem de acordo com sua formação com cientista da natureza, no laboratório de Fisiologia da Universidade de Vienna, dirigido por Ernst Brücke. Nesse sentido, lembremos do juramento epistemológico de Brucke e Dubois-Reymond:

Brücke e eu [Dubois-Reymond] nos comprometeremos a impor esta verdade, a saber, que somente as forças físicas e químicas, com exclusão de qualquer outra, agem no organismo. Nos casos que não podem ser explicados, no momento, por essas forças, deve-se empenhar em descobrir o modo específico ou a fonte de sua ação, utilizando o método físico-matemático, ou então postular a existência de outras forças equivalentes em dignidade às forças físico-químicas inerentes à matéria, redutíveis à força de atração e repulsão. ( apud  Shakow e Rapapport, 1964, p. 34)

Freud, certamente, postulou essas forças iguais em dignidade: “A psicanálise propõe, no lugar de uma simples descrição, uma explicação dinâmica fundada sobre a interação de forças psíquicas, […]” (Freud, 1913m, p. 207).

A noção de força psíquica (Trieb) corresponderá, epistemologicamente falando, à noção de força utilizada pelos físicos. .

A teoria das pulsões (ou das forças psíquicas)

Para Freud, a noção de força psíquica (Trieb) corresponde a uma idéia abstrata que se refere à causa fundamental do movimento na vida psíquica, tal como as forças se referem às causas fundamentais do movimento dos corpos na física. Ela é uma ideia abstrata, não muito clara, ou melhor, ela é uma convenção necessária. Diz Freud nesse sentido:

Nós ouvimos com frequência a defesa da exigência segundo a qual toda ciência deve ser edificada sobre conceitos fundamentais claros e bem definidos. Na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo as mais exatas, começa por tais definições. O começo correto [adequado] da atividade científica consiste antes na descrição dos fenômenos que são em seguida agrupados, ordenados e colocados em conexão. Já na própria descrição, não se pode evitar de aplicar ao material certas idéias abstratas que advêm de outro lugar, certamente não apenas das novas experiências. Tais idéias – os conceitos fundamentais posteriores da ciência – são, na elaboração futura do material, ainda mais indispensáveis. Inicialmente, elas devem comportar um certo grau de indeterminação; não se pode pensar em discernir com clareza seu conteúdo.  Enquanto se encontram nesse estado, temos que nos por de acordo sobre seu significado para remetê-las repetidamente ao material empírico do qual parecem ter sido extraídas, mas que, na verdade, lhe é submisso. Com todo rigor, elas têm, então, o caráter de convenções, ainda que tudo dependa do fato de que elas não são escolhidas arbitrariamente, mas, ao contrário, estão determinadas por relações significativas com o material empírico, relações que acredita-se poder advinha-las antes mesmo de poder reconhecê-las e demonstrá-las. Somente após uma exploração mais aprofundada do domínio fenomenal em questão, é que  pode-se apreender mais exatamente os conceitos fundamentais científicos e os modificar progressivamente para os tornar, em certa medida, utilizáveis e, ao mesmo tempo, isentos de toda contradição. É somente depois disso que chega a hora de confiná-los em definições. Mas o progresso do conhecimento não sofre, no entanto, de uma rigidez das definições. Como o exemplo da física ensina de maneira evidente, mesmo os “conceitos fundamentais”, que foram fixados nas definições, sofrem uma constante mudança de conteúdo. Um tal conceito fundamental convencional, provisoriamente ainda muito obscuro, mas que nós não podemos dispensar em psicologia, é o de pulsão. Tentemos, partindo de diversos lados, preencher o seu conteúdo. (Freud, 1915c, pp. 117-118)

Na continuidade desse texto – em conformidade com a posição de Kant, considerando que pensamentos sem conteúdos são vazios, ao mesmo tempo que intuições (percepções empíricas) sem conceitos são cegas (Kant, 1787, B 75) [36]– Freud procurará preencher esse conceito especulativo [Trieb] com conteúdos empíricos, fazendo uma série de analogias. No entanto, deve-se ressaltar, que esse preenchimento é feito sempre de forma inadequada, ou seja, o conceito de Trieb jamais encontrará na realidade objetiva um referente que lhe corresponda adequadamente (como ocorre, por exemplo, com o conceito de mesa). O conceito de Trieb é tal como o conceito de Centauro, que encontra partes empíricas que o compõe (cavalo, asas) na realidade fenomênica, mas não encontra isto conjugado empiricamente na realidade fenomenológica.

A teoria das pulsões como uma mitologia

As forças psíquicas (Trieb, pulsões) são, nesse contexto que estou analisando, a referência à causa incondicionada, anterior à qual nenhuma outra deve ser procurada. Uma convenção que, para Freud, e nas suas próprias palavras, são um tipo de mitologia, uma mitologia do ponto de vista dinâmico: “A doutrina das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosas na sua indeterminação. Nós não podemos, em nosso trabalho, abstraí-las um só instante e, todavia, nunca estamos seguros de as ver distintamente” (Freud, 1933a, p. 35).

Como não ouvir aqui o eco das palavras de Mach referindo-se à mitologia do ponto de vista dinâmico!

As características e a natureza da metapsicologia para Freud

Ao definir o que é a metapsicologia, Freud afirma: “Proponho que se fale de uma apresentação metapsicológica quando conseguimos descrever um processo psíquico segundo suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas” (Freud, 1915e, p. 181). Ou seja, a metapsicologia corresponde a uma apreensão da vida psíquica em termos das relações pensadas com o uso, respectivamente, dos conceitos de pulsão (dinâmica), aparelho (tópica) e libido (econômica).

Freud sabe que esses conceitos (pulsão, aparelho, libido) são construções auxiliares especulativas. Ele até mesmo modificou o modelo que figurava como seria a organização do aparelho psíquico e suas partes e/ou instâncias, passando de uma primeira tópica (Ics, Pcs-Cs, Cs) para uma segunda (Id, ego, SuperEgo), em função de torná-la heurísticamente mais eficiente (na resolução de problemas clínicos que o primeiro modelo teve dificuldades em explicar). É assim, reconhecendo e afirmando qual é a natureza da metapsiologia, que ele a caracterizará como sendo uma especulação de valor apenas heurístico:

Que seja suficiente marcar que pareceu legítimo completar as teorias, que são expressão direta da experiência, por hipóteses que são apropriadas ao controle do material e que se reportam aos fatos que podem tornar-se objeto de observação imediata. A subdivisão do inconsciente é correlativa à tentativa de imaginar um aparelho psíquico edificado a partir de um certo número de instâncias ou de sistemas, cuja relação mútua é expressa em termos espaciais, sem que seja procurado, no entanto, uma ligação com a anatomia do cérebro real (o ponto de vista tópico). Essas representações e outras similares pertencem a uma superestrutura especulativa (spekulativer Überbau) da psicanálise, onde cada parte pode ser sacrificada ou trocada sem dano nem remorso, a partir do momento onde uma insuficiência é constatada. Ainda resta, no entanto, muita coisa que está mais próxima da observação. (Freud, 1925d, pp. 32-33)

Necessidade ou provisoriedade da metapsicologia

Para Mach, vimos, as ficções heurísticas devem ser, ao longo do desenvolvimento da ciência, eliminadas, substituídas por conceitos empíricos, substituídas pela descrição das relações de determinação recíproca entre os fenômenos. No entanto, diferenciando-se de Mach, para Freud elas são necessárias: “Sem especular nem teorizar – por pouco eu ia dizer fantasiar – metapsicologicamente, não se avança aqui um passo sequer” (Freud, 1937c, p. 225). Pierre Fédida reafirma essa posição freudiana:  “nós jamais poderemos anular o conceito de pulsão ou a ficção do aparelho psíquico” (1983, p. 36); ainda que encontremos psicanalistas que consideraram e consideram isto possível.

Ao longo do desenvolvimento da psicanálise, encontramos diversos destinos para a metapsicologia, relativizando a posição de Freud. Comentei, num de meus artigos (Fulgencio, 2015) como a metapsicologia foi ampliada ou modificada (com as propostas de Abraham, Ferenczi, Klein, Federn, Fairbairn, Hartmann, Kohut, Bowlby, Green), substituída por outras de mesma natureza ainda que redescritas mas com outras terminologias e perspectivas (como em Biswanger, Bion e Lacan), e até mesmo rejeitada (por Winnicott).

Creio que a própria história da psicanálise poderia ser descrita considerando a divisão entre aqueles que mantiveram a metapsicologia (reiterando-a, redescrevendo-a ou substituindo-a por outra de mesma natureza) e aqueles que a criticaram, se afastaram dela ou até a rejeitaram como instrumento heurístico de pesquisa.

Porque seriamos todos machianos?

Já citei o fato de que Mach é um elo de ligação entre Freud e Einstein. Eles se encontraram uma única vez, no final de 1926, em Berlim, um encontro rápido, mas com uma comunicação interessante, cada um mantendo-se no alto do seu universo de preocupações e de saber. Disse Freud, sobre esse encontro, numa carta a Ferenzi: “Ele é alegre, seguro de si e amável, ele sabe tanto de psicologia quanto eu de física, é por isso que nós tivemos uma discussão agradável” (Carta a Ferenczi, 2/janeiro/1927).

A ligação entre estes dois cientistas não foi, pois, via suas obras de físico e de psicólogo e as influências conceituais que teriam exercido um sobre o outro, eles falavam línguas diferentes, de coisas (factuais) diferentes. Parece haver, entre eles, um tipo de comunhão epistemológica, que tem nas concepções de Mach sobre a prática científica seu elo mais objetivo. É em função dessa comunhão que, em 1933, eles foram convidados a publicar uma discusão sobre o tema da guerra e da agressividade do ser humano (“Por que a Guerra?”, foi o título  proposto e assim também publicado), publicado em forma de supostas cartas trocadas por eles (o que jamais ocorreu, na verdade). Diz Freud a Einstein:  “Talvez você tenha a impressão de que nossas teorias são um tipo de mitologia; no caso aqui presente, uma mitologia que não é nem mesmo muito feliz. Mas, toda ciência da natureza não retoma, ela mesma, um tal tipo de mitologia? Acontece hoje de uma maneira diferente para você na física?” (Freud, 1933b, p. 211).

Creio que, nessa passagem, Freud retoma a questão do uso de ficções heurísticas para o desenvolvimento da ciência, em especial a que se refere ao ponto de vista dinâmico e a consideração de que as forças (em Einstein, de um tipo, e em Freud, de outro, mas iguais em dignidade às forças físico-químicas), consideradas como a causa incondicionada, origem do movimento (seja ele físico ou psíquico). Num e noutro, seriam um tipo de mitologia de alto valor heurístico.

Na psicologia e, mais especificamente, na psicanálise, permanecemos nesse cenário: as forças psíquicas (as pulsões) permanecem como seres dessa natureza; ainda que alguns psicanalistas tenham migrado a psicanálise para um outro cenário epistemológico (existencialista, fenomenológico) que prescinde da ideia de força psíquica para pensar o psiquismo humano.

Eu me pergunto, então, como lida hoje o físico com a noção de força, em termos da concepção sobre a sua natureza e do seu referente?

Mas, e isto talvez seja muito pouco, pensando numa comunhão com todos os praticantes da pesquisa científica (seja nas ciência duras, seja nas sociais), qual cientista não tem uma relação importante com as ficções heurísticas, seja as estruturantes do pensamento (a necessidade de uma cosmologia) seja com seus modelos operativos (na construção de experimentos etc.), como instrumentos do seu pensamento? É nesse sentido, do reconhecimento do uso, provisório ou não, de especulações heurísticas na prática científica, que afirmei já no título de meu artigo: Somos quase todos machianos!

 

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[1]           O que estarei analisando nesse texto corresponde a um uso e reformulação do que já analisei em dois livros, frutos da minha tese de doutorado: O método especulativo em Freud (2008) e Freud & Mach: Influências e Paráfrases (2016).

[2]           Em 1928, um conjunto de pensadores (matemáticos, físicos e filósofos – Hans Hahn, Oto Neurath, Philip Frank, Moriz Schlick e Rudolph Carnap) fundou a Associação Ernst Mach, que será o berço do Círculo de Viena (Soulez, 1985, p. 33).

[3]           Willian James, de passagem em Praga no ano de 1882, escreve para sua mulher sobre Mach, dizendo que nenhum homem lhe havia causado uma impressão assim tão forte de puro gênio intelectual: “Eu acho que nenhuma outra pessoa me deu uma tão forte impressão de ser um puro gênio intelectual”. Cf. a importância de Mach para Willian James, em Holton (1993, pp. 7-11).

[4]                Lenin escreve, em 1908, um texto opondo-se a Mach: Materialismo e empirocriticismo. Nesta obra, Lenin vê em Mach uma empreitada metafísica que deve ser ultrapassada pela crítica do materialismo dialético (Lenin, 1908).

[5]           Kelsen, com sua teoria positivista do Direito, foi um dos responsáveis pela redação da Constituição austríaca do pós-guerra.

[6]           Cf. Holton (1993, pp. 15-16); Assoun (1981, pp. 73-89).

[7]                Musil, autor de O homem sem qualidades, fez uma tese de doutorado em Filosofia sobre Ernst Mach: Para uma apreciação das teses de Mach (Musil, 1908).

[8]           Assoun (1981, p. 85, n54) aponta para o fato de que Gottwald – professor de história natural que dera aula para Kafka no Liceu alemão de Praga – era um seguidor de Mach.

[9]           Carl Einstein (1885-1940), poeta e historiador da arte, foi uma espécie de representante e intérprete da vanguarda artística do início do século XX. Ele foi responsável por uma das primeiras apresentações da arte negra para o público europeu, fato artístico que terá uma importância decisiva para muitos artistas do início do século XX, como comenta Rubin (1984), no texto dedicado a analisar o primitivismo na arte do século XX. Cf. Carl Einstein (1926); Carl Einstein & Kahnweilwe (1993).

[10]         Cf. Laude (1984, p. 488).

[11]         Para uma análise mais detalhada dessa perspectiva de Kant, no quadro da sua metafísica da natureza, como um programa de pesquisa a priori para as ciências da natureza, apresentado por ele na sua Crítica da Razão Pura, veja meu livro O método especulativo em Freud (2008, Parte I, Capítulos 1 e 2).

[12]              Ou seja, para Kant, não se trata de supor infinitas forças, o que apenas obscureceria o entendimento, mas sim de considerar somente duas forças básicas: as de atração e de repulsão. Afirma ele: “todas as leis mecânicas supõem leis dinâmicas e uma material, enquanto em movimento, não pode ter nenhuma força motriz a não ser em virtude da sua repulsão ou atração, sobre as quais e com as quais age imediatamente no seu movimento e comunica assim o seu próprio movimento a uma outra material” (Kant 1786, p. 88, A 107; itálicos meus). Ainda que Kant tenha em mente aquilo que Newton formulou, ele não chega a caracterizar como são as forças de atração e repulsão. O fato de que, hoje, considera-se, como instrumento operativo para explicar os movimentos, as forças de longo alcance (as eletromagnéticas e as gravitacionais) e as de curto alcance (as nucleares  fortes e as nucleares fracas), não modificaria a formulação de Kant.

[13]              Publicado num importante periódico científico (Pysikalische Zeitschrift) e, simultaneamente, num dos primeiros periódicos psicanalíticos (Zentralblatt fuer Psychoanalyse, vol. 3, 1912-1913, p. 56. Keith Davies, do Museu Freud, forneceu-me a informação sobre a publicação nesse periódico de psicanálise). Esse documento é pouco conhecido e raramente mencionado. Gerald Holton (1967, p. 102, n. 1; 1993, pp. 12-4; 1998, p. 207-8) e Friedrich Herneck (1958) fazem-lhe algumas referências e comentários. Está publicado na revista Natureza humana, acrescido de alguns comentários meus (cf. Fulgencio 2000).

[14]         Hilbert e Klein eram dois dos mais importantes matemáticos do começo do século.

[15]         Helm era físico, com importantes trabalhos sobre energia. Será a partir de seus trabalhos que Wilhem Ostwald, prêmio Nobel da química em 1909, desenvolverá suas concepções energéticas.

[16]         Como comenta Holton, Loeb foi o mais fanático fisicalista intérprete do comportamento animal. Contribuiu com importantes estudos sobre a partenogênese artificial e o tropismo (cf. Holton 1993, pp. 11-2).

[17]         Publiquei este documento, comentando os aspectos gerais da discussão em jogo, bem como a presença de Freud como signatário, na Revista Natureza Humana, vol. II, n. 2, 2000.

[18]         Planck 1949 [1908], p. 48.

[19]         Planck 1963 [1908], p. 64.

[20]         Borch-Jacobsen & Shamdasani (2012b, p. 133). Nessa mesma direção eles citam uma passagem de uma carta de Siegfried Bernfeld para Hans Ansbacher, de 26 de maio de 1952, na qual colocam em evidência o lugar epistemológico de Freud, que era uma extensão da posição de Mach: “Freud pertencia ao grupo de médicos e fisiólogos em torno de Brücke que preparam o caminho para o positivismo de Mach e Avenarios. Ele decerto conhecia o Programa para uma filosofia científica [Zeitschrift für wissenschaftliche Philosophie]. Nos anos de 1890, Mach o conquistou […]. De uma forma ou de outra, o positivismo era inquestionavelmente seu modo ‘natural’ de pensar. (Acervo Sigfried Bernfeld, Divisão de Manuscritos, Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.; citado por Bernfeld, Cassirer e Grubrich-Smitis, Bausteine der Freud-Biographik, p. 260)”. (apud Borch-Jacobsen & Shamdasani, 2012b, p. 133).

[21]         Borch-Jacobsen & Shamdasani (2012b, p. 134).

[22]              Freud (1915c, p. 117). Freud será citado segundo a classificação estabelecida por Tyson & Strachey (1956).

[23]         Freud (1900a, p. 598; 1926e, p. 194).

[24]         Freud (1933a, p. 95).

[25]         Freud (1925a, p. 32).

[26]         Freud (1917a, p. 142).

[27]         Freud (1915c, p. 124).

[28]         Essas concepções de Freud encontrariam formulações análogas em Mach (no meu livro Mach & Freud: influênicas e paráfrases, há uma análsie mais detalhada dessas paráfrases de Mach em Freud). Borch-Jacobsen & Shamdasani também mostram outras proximidades textuais entre eles, referindo-se: a consideração de que a metapsicologia corresponde a um conjunto de conceitos provisórios (Freud 1920g, p. 60; 1937c, p. 225; Mach, 1905, p. 9); a natureza especulativa dos conceitos (ficções) iniciais de uma ciência (Freud 1915c, p. 116; Mach, 1905, p. 9); a concepção de conhecimento científico como uma maneira de descrever, aproximadamente e progredindo nesta direção, os fatos (Freud, 1914c, p. 77; 1923a, pp. 253-254; Mach, 1905, p. 120).

[29]         Freud 1900a, p. 612.

[30]         Veja, por exemplo, Freud (1901b: Psicopatologia da vida quotidiana, Cap. XII, SE 6, p. 259), primeiro texto publicado no qual Freud usa o termo metapsicologia. Neste, o  termo refere-se à teoria geral científica que pode explicar os fenômenos psíquicos. Freud também utilizará o termo “psicologia das profundezas” (Freud 1926f, p. 265), dando à metapsicologia esse sentido de teoria geral de sua psicologia científica focada nos processos psíquicos inconscientes, enquanto uma ciência empírica, que pensa, pois, a vida psíquica para além [meta] da consciência.

[31]         Freud 1894a, p. 60.

[32] Trieb foi traduzido, inicialmente, na tradução inglesa, por Instinct (o que mostrou-se um erro, dado que Freud usa tanto Trieb quanto Instinkt, em alemão, diferenciando-os); em inglês, tem-se usado também drive e instictual drive. Numa tradução mais francesa, optou-se por traduzir Trieb pelo termo Pulsion. Em português encontramos, pois, tanto instinto como pulsão. Cf. Loparic (1999) para uma análise do termos na filosofia e psicologia alemãs, na época de Freud.

[33]         Cf. uma análise do método analógico de pesquisa em Fulgencio (2006a).

[34]         Freud está se referindo ao seu segundo modelo, sua segunda tópica, da suposta organização do psiquismo como se o psiquismo fosse (por analogia) um aparelho subdividido em suas  instâncias e/ou sistemas (Id, Ego, Superego).

[35] Esse como se, certamente, lembra a proposta de Hans Vaihinger, no seu A Filosofia do como se (1911).

[36]         Cf. Uma análise mais detalhada em Fulgencio (2008).

Autor

  • Professor Associado (Livre-docente) do Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento da Universidade de São Paulo (USP). Autor dos livros O método especulativo em Freud (2008, EDUC), Por que Winnicott? (2016, Zagodoni) e  Mach & Freud: Influências e Paráfrases (2016, Concern) e coautor dos livros Freud na filosofia brasileira (2005, Escuta), A fabricação do humano (2014, Zagodoni, segundo lugar no Prêmio Jabuti de 2015), Amar a si mesmo e amar o outro: narcissismo e sexualidade na psicanálise contemporânea (2016, Zagodoni, finalista do Prêmio Jabuti de 2017), e A bruxa metapsicologia e seus destinos (2018, Blucher).