Pauli & Jung: uma amizade sincronística

ARTIGO /

Emanuel Tadeu Borges* //

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O tema geral da correspondência científica entre Pauli e Jung é a relação direta entre as duas realidades básicas da existência humana: psique e matéria. Essa relação, ou o intercâmbio entre essas duas esferas fundamentais da realidade, pode ser examinada pelo senso comum. Isto é, mesmo visto do modo mais corriqueiro, já se mostra interessante… Examinemos esse ponto usando a linguagem coloquial.

Se pensamos em estender o braço para pegar alguma coisa, acionamos, em seguida, a nossa vontade, e então realizamos a ação. E em sentido contrário, quando “somos atingidos” em nosso sistema sensório por estímulos tais como luz, som, texturas, fragrâncias ou paladares, de imediato formamos uma imagem visual, auditiva, tátil, odorífica ou gustativa. Assim, a mente afeta ou mobiliza o corpo; ou, contrariamente, a matéria do mundo impressiona o corpo, que produz então representações mentais. Em suma, uma esfera se traduz na outra, nos dois sentidos. E permanece um mistério para a ciência: “de que modo se dá essa passagem?” Como a substância densa material se torna a imagem imaterial que constitui a mente? E vice-versa: como a mente se impõe à matéria levando o corpo a se manifestar? Mesmo que se fale em ondas luminosas ou sonoras, as duas formas mais sutis de “matéria”, ainda assim permanece o hiato entre o fenômeno sensorial e a produção de imagens mentais ou entre os “comandos mentais” e a mobilização das partes do corpo para a realização de ações.

Porém, a investigação empreendida pela parceria Pauli/Jung é ainda mais instigante, pois o que se busca determinar é a realidade da relação direta entre os fenômenos psíquicos e os acontecimentos materiais, sem a mediação dos sentidos ou sem a intervenção da volição… Precisamente o que Jung batizou com o nome de sincronicidade, o “princípio de conexões acausais” entre processos psíquicos ou entre estes e as ocorrências do mundo físico. Comecemos com uma definição geral de sincronicidade:

“Termo criado por Jung para fenômenos que coincidem em tempo e espaço, para os quais não há explicação causal, mas que possuem uma clara conexão significativa entre si. Podem ocorrer entre psique e psique, até certo ponto telepaticamente, como também entre psique e physis [mundo físico] – isto é, externamente, na realidade física (psicocineticamente). Que se me permita um exemplo do último tipo, que me foi relatado por Pauli: P encontrava-se sentado, só, à janela do Café Odeon, ponderando sobre sua função inferior [na terminologia junguiana trata-se da função psicológica cujo desempenho é problemático para um dado indivíduo] (sentimento-cor vermelha). Havia um grande automóvel vazio estacionado do lado de fora do café. P não conseguia tirar seus olhos daquele carro e então, de repente, o carro pegou fogo e consumiu-se em chamas (‘efeito Pauli’)” (Maier, 2001:xviii; nesta citação e daqui em diante tudo que estiver entre colchetes, grifado ou sublinhado nas citações é destaque nosso).

Em seu livro Tipos psicológicos, Jung postula a existência de duas atitudes básicas do comportamento humano: introversão e extroversão. Extroversão é um voltar-se para fora preferencial da atenção. O interesse preponderante é focado no objeto, isto é, no mundo. No caso do introvertido o foco principal é o sujeito, a pessoa e seus interesses. Tem-se com isso os dois tipos básicos de atitude ante o mundo, ou os dois modos de “direcionamento da libido”. Libido significando aqui interesse, atenção ou, como cita nominalmente Jung, energia psíquica (Jung, 1991; §§ 799, para extroversão; 831, para introversão; 850, para libido).

Uma dessas atitudes se estabelece como tendência dominante do comportamento para cada indivíduo. Dominante mas não exclusiva, na medida em que a outra, ainda que, por assim dizer, permaneça nos bastidores, encontra-se latente e relativamente disponível, uma vez que ambas as tendências constituem a totalidade da dinâmica psíquica humana. Aliás, é recomendável que se busque um equilíbrio de desempenho dessas duas direções da atenção e do comportamento para que possa se realizar a contento o processo de individuação, a busca de integração entre as forças em conflito na psique humana.

No que foi acima mencionado, observa-se em ação o princípio de integração de opostos, ou enantiodromia, pela primeira vez enunciado, possivelmente, na filosofia do pré-socrático Heráclito de Éfeso (“não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias como de arco e lira”), e adotado por Jung como princípio essencial da psique e talvez da própria natureza.

A sabedoria ancestral chinesa, através do Tao, adota esse princípio de tensão entre duas forças fundamentais que comandam a natureza, denominando-as Yang (o princípio positivo, ativo ou masculino)e Yin (princípio negativo, passivo ou feminino). (Aqui, positivo e negativo não se referem a valores morais, mas a “valores ontológicos”, quer dizer, princípios fundamentais que atuam na própria natureza.) Do mesmo modo, no Livro das Mutações, o I Ching, aparecem essas manifestações fundamentais, ilustradas pelos hexagramas do Criativo e do Receptivo. O jogo entre esses “contendores” é magnificamente ilustrado pelo Wu Wei, figura na qual um “peixinho branco com olho preto” e um “peixinho preto com olho branco” giram no interior de um círculo constituído por seus próprios corpos, alternando ascensão e descenso. Pode-se interpretar essa figura como um símbolo que indica uma atuação dual e contrastante (“enquanto um sobe, o outro desce”), porém complementar, das duas forças acima referidas. No translado circular, ou “giro”, dos peixinhos, tem-se a expressão da alternância de dominância entre as duas forças ou qualidades fundamentais. Por outro lado, em cada peixinho o olho de cor oposta ao resto da figura sugere a existência e o desenvolvimento de uma semente ou embrião de tendência oposta no âmago de cada componente do par. A força yin em latência no âmago da força Yang, mas também a força yang latente no cerne da força Yin.

yin-yang

Portanto, uma alternância também interna ou imanente. Jung dá o nome de compensação a esse princípio, e ele significa a dinâmica complementar entre consciente e inconsciente responsável pelo equilíbrio da psique humana: “(…) o fator que traz a doença ou qualquer outro resultado desfavorável ocorre quando conteúdos que estão prontos para a consciência não são levados em conta” (Maier, 2001:51). Ou ainda, Pauli, referindo-se ao texto de outro autor numa carta a Jung (26/10/1934):

Tenho realmente uma desconfiança acerca da figura (p. 12) na qual o consciente aparece localizado como uma “estreita fronteira” do inconsciente. Não parece preferível defender a ideia de que o inconsciente e o consciente são complementares (numa relação mutuamente excludente) e não que um seja parte do outro? (Maier, 2001:6).

É interessante, nesse sentido, examinar a aproximação e a interação entre esses dois homens brilhantes, cada um em seu respectivo terreno. Um psicólogo e um físico e a busca compartilhada de um desenvolvimento da compreensão na disciplina do colega. Ou melhor, em termos de compensação: uma tentativa, da parte de ambos, no sentido de integrar a tendência complementar à sua. O introvertido Jung, buscando a disciplina tipicamente extrovertida e a característica psicológica correspondente. O extrovertido Pauli interessado na introversão típica da ciência psicológica e oportunamente podendo integrar as qualidades inerentes a esse tipo de interesse (e, aliás, já acometido por sonhos de caráter fortemente simbólico). Jung recorre a Pauli. Pauli busca a Jung. Cada um deles, através do outro, buscando no plano mais obscuro ou não esclarecido de seu pensamento e de sua sensibilidade a tendência temperamental oposta, por meio da disciplina científica complementar dominada pelo colega. Uma vez que

A ciência [física] tradicionalmente investiga os fatos mais fundamentais, objetivos e universais através da confirmação e mensuração da realidade externa por meio de experimentos. A psicologia, entretanto, ao presumir normas e anomalias em suas descrições dinâmicas e diagnósticos diferenciais, volta-se primordialmente para a experiência subjetiva e a apreensão individual (Maier, 2001:xxvii-xxviii).

Vamos ilustrar o início dessa empreitada através das primeiras cartas entre os dois cientistas, que, ao mesmo tempo, servem de ilustração para o conceito de sincronicidade. Talvez seja mais justo atribuir a elaboração e formulação dessa noção tão importante do pensamento de Jung a uma parceria entre ambos os pesquisadores ou pelo menos como produto de seu diálogo de alto nível e ao feedback propiciado pela compensação, que pôde se estabelecer entre as duas mentes (a nível tanto consciente quanto inconsciente!). Ou seja, uma autêntica transferência positiva, o que no jargão da dinâmica analítica talvez possa ser traduzido, no âmbito das relações interpessoais, por uma relação de verdadeira amizade intelectual.

Sincronicidade é uma consequência necessária do conceito de relatividade do tempo: O conceito moderno de “complementaridade entre energia e tempo” formula uma dependência recíproca, como a da “complementaridade entre inconsciente e consciente”. O que isso significa, em termos gerais, é que Um toma o lugar do Outro, com ambos, tanto Um quanto Outro, adquirindo um Ser (‘transcendental’). [Isso significa que] Os eventos nunca são independentes do tempo e o tempo nunca é independente dos eventos. Como consequência disso, não só o tempo é determinado pelo evento como este último é também determinado pelo primeiro. Um “valor de energia precisamente conhecido” [como determinação precisa da medida de um evento] é equiparado a “um progresso temporal completamente desconhecido” [enquanto determinação imprecisa da duração de tempo] e vice-versa. (De uma carta do prof. Pauli.) Num caso, um montante de energia é precisamente determinado, em detrimento da medida de tempo; no outro caso, o tempo é determinado, em detrimento da medida de energia. Energia e tempo são aspectos e, portanto, fatores de um evento observado; em outras palavras, ambos são principia explicandi[princípios de explicação] ainda que um não possa ser substituído pelo outro e ambos sejam dotados de quantidade. Todo evento físico pode ser observado do ponto de vista da energia, de um lado, e do ponto de vista do tempo, por outro lado. O que é mais proveitoso para a observação de processos psíquicos é a teoria do campo físico, no qual “cada mudança em qualquer ponto envolve uma mudança em todos os outros”. Essas mudanças são provocadas por “forças de campo” atuando a distância(Nota não datada escrita por Jung, a mão, sobre a sincronicidade; Maier, 2001:211).

Neste texto, recorre-se aos referidos princípios da física como fundamentação hipotética para os fenômenos de “coincidência significativa” que caracterizam os acontecimentos “sincronísticos”. Em outras palavras, Jung recorre à física, precisamente, (1) à correlação entre os fatores de tempo e espaço da “teoria da complementaridade” e (2) à interferência à distância entre as partículas, na “teoria do campo”, como fundamentação científica à sua hipótese da sincronicidade como correlação sem causa aparente entre eventos físicos e psíquicos. Numa carta a Pauli em 29/10/1934, ele comenta:

Era inevitável que a investigação sistemática do desconhecido centro do átomo, que levou à conclusão de que o sistema observado é também um distúrbio causado pela observação [Jung refere-se aqui à relação de interferência mútua entre observador e observado, postulada pela física quântica], mostraria que a essência do processo de observação seria perceptível na perturbação causada pela própria observação. Colocando em termos mais simples, se você olha por um tempo suficiente para o interior de um buraco escuro, então você percebe o que está te olhando dentro dele. Assim como no princípio de percepção na yoga, que deriva toda percepção, do vazio absoluto da consciência. Esse método de conhecimento é, portanto, um caso especial da exploração introspectiva da psique em geral (Maier, 2001:7).

Jung descreve a ideia de imagem da totalidade como sendo o modo de apresentação característico dos conteúdos inconscientes (notadamente nos sonhos) que, desse modo, revelam, em determinado momento, a situação psicológica de interesse para o indivíduo. É como se o indivíduo, na imagem psíquica (do sonho, por exemplo), “sobrevoasse a cena em que está inserido” e, “olhando do alto”, pudesse mais claramente observar-se no contexto existencial destacado pelo inconsciente. Assim, o indivíduo aparece numa “parcela de totalidade” selecionada pelo inconsciente e revelada no sonho ou na fantasia. A passagem seguinte expressa essa interessante propriedade do inconsciente que nada mais é do que a “forma de apresentação” da dinâmica de compensação, que rege a relação entre as duas instâncias psíquicas – o consciente e o inconsciente, constituindo o princípio de regulação ou equilíbrio da vida psicológica, como uma homeostase psíquica:

A imagem interior [psíquica] é uma expressão complexa, constituída dos mais variados materiais das mais diversas procedências. Não é, entretanto, um conglomerado, mas um produto homogêneo com um sentido próprio. Essa imagem é uma expressão condensada da situação psíquica como um todo e não meramente, nem predominantemente constituída de conteúdos inconscientes pura e simplesmente. Indubitavelmente ela expressa conteúdos inconscientes, mas não em sua totalidade, apenas aqueles que se encontram momentaneamente constelados. Esta constelação é o resultado por um lado da atividade espontânea do inconsciente e por outro lado, da situação momentânea do consciente, que sempre está a estimular a atividade de material subliminar[isto é, inconsciente]relevante[em relação à situação vivida conscientemente]e ao mesmo tempo a inibir a manifestação do material que for irrelevante. Consequentemente, a imagem interior é uma expressão tanto da situação do inconsciente quanto da consciente num dado momento. E a interpretação do seu significado, portanto, não pode se dar nem a partir do inconsciente nem do consciente exclusivamente mas somente em função de sua relação recíproca.[Daí a importância das associações com a história pessoal do sonhador para a interpretação dos sonhos.] (Jung, 1981, § 745).

Em 25/06/1935, Pauli resolve oferecer a Jung seus registros de sonhos e fantasias “acumulados por certo período de tempo”:

Não posso pensar em nada melhor para fazer com eles do que enviá-los a você (…) As fantasias frequentemente assumiram seus próprios caracteres peculiares, pelo emprego de terminologia da física, muito familiar para mim (tais como ‘separação isotópica’, ‘estrutura fina’, ‘reciprocidade entre rotação autoinduzida e órbita’, ‘corpos ressonantes’, ‘núcleo radioativo’ etc.) para expressar analogias com fatos psíquicos que eu apenas vagamente consigo presumir (Maier, 2001:8-9).

E numa carta seguinte, em 04/07/1935,

(…) Há três desenhos bem grandes e um esboço. O último é um exemplo típico do abuso da terminologia da física que se impõe intrometidamente a partir do inconsciente [ou seja, inconscientemente, vale dizer, sem o concurso da razão] com um certo grau de persistência. É provavelmente uma espécie de associação livre de analogias que deve ser vista como um estágio preliminar de pensamento conceitual.

No trecho acima assistimos, fascinados à argúcia psicológica de Pauli, que sugere que o estágio preliminar da elaboração intelectual (os conceitos) é a “intromissão” irracional de ideias não refletidas (portanto, provenientes do inconsciente) na consciência.

Adiante, em carta de 02/10/1935, Pauli, talvez devêssemos dizer, “através de seu processo compensatório inconsciente”, começa a correlacionar explicitamente fenômenos da física com fenômenos psicológicos, trazendo à baila a própria hipótese da “correspondência psique/matéria”, base da ideia de sincronicidade, ao correlacionar o “simbolismo” de termos da física, como ele define, a uma (também na sua definição) “interpretação psicológica”. Assim, segue-se uma série de correspondências (para os trechos citados abaixo, Maier, 2001:11-13):

(1ª) o “mapeamento” [mapping], que “sempre aparece através de um campo de força polarizado, no qual a transmissão é feita de uma tal maneira que as pessoas mapeadas relacionam-se entre si”, é comparado na “interpretação psicológica” ao fenômeno de “participation mystique”, que significa a conexão mágica ou identificação relativa de um indivíduo a um objeto ou a outra pessoa [um exemplo que nos é bem conhecido é a ligação fanática a um líder religioso ou político]; (2ª) em seguida, “pequenos dipolos arrumados de forma paralela (como acontece com um corpo sólido magnético)” são interpretados psicologicamente como “diversas pessoas com um senso de identidade inconsciente, como no caso de um experimento hipnótico” [nosso exemplo: torcidas de futebol]; (3ª) “a suspensão do mapeamento ocorre quando, no caso dos dipolos, um dipolo começa a girar como consequência de seu calor inerente”, o que Pauli faz corresponder psicologicamente à “suspensão da ‘participação mística’ por meio da diferenciação individual” [nosso exemplo: “não gosto mais de futebol, agora gosto de origami…”]; (4ª) “a cisão de linhas do espectro num campo magnético” corresponde ao “processo de diferenciação”, mas, comenta Pauli, “o que o campo polarizado significa em termos psicológicos? Deve ser essencial como causa da diferenciação (…) O campo polarizado deve representar uma espécie de regularidade dinâmica do inconsciente coletivo” [o vínculo com a natureza ou com a totalidade é tão importante quanto a individualidade diferenciada…]; (5ª) o “núcleo radioativo” é relacionado ao “self” e, escreve Pauli, “é claro que ‘núcleo’ significa a mesma coisa que o centro do indivíduo. Mas o que significa ‘radioatividade’ em termos psicológicos? De um lado parece significar uma transformação gradual do centro e, de outro lado, um efeito que se irradia para fora (raios!)” [como um wu wei quântico…]. Nesse ponto, o comentário de Jung é extremamente interessante:

“A rotação de um polo [item 3 das correspondências de Pauli] é, indubitavelmente, o início da individuação, daí os inúmeros símbolos de rotação em seus [de Pauli] sonhos (historicamente designados como circulatio spiritum e entre os chineses como circulação da luz). É provavelmente basicamente uma rotação espiral com um movimento perpétuo em direção ao núcleo.”

O “motivo” ou tema da espiral pode ser descrito, também, por meio de um paradoxo no qual a espiral realiza, simultaneamente, um movimento centrípeto (em direção ao núcleo ou centro) e um movimento centrífugo (rumo à periferia: irradiação, ou, como designa Pauli, “raios!”): a fase centrípeta representa a necessária referência ao centro regulador da psique (o self); ao passo que a fase centrífuga refere-se ao processo expansivo de ação/experimentação/compreensão, fundamental à existência. Essas duas fases do movimento espiralado exprimem simbolicamente um movimento potencialmente infinito: quanto mais se aprofunda em direção ao ‘centro absoluto’ (qual a menor partícula da matéria ou ‘átomo’ – ‘o não divisível’?), mais se expande em direção à periferia absoluta (qual o limite do universo?). Ou, em termos psicológicos, referindo-se ao desenvolvimento implícito na obra alquímica: “Para que os ramos de uma árvore possam alcançar o céu, é preciso que suas raízes alcancem o inferno”.

Finalmente a 6ª correspondência de Pauli: “Ressonâncias = Arquétipos. Todo engenheiro conhece os efeitos catastróficos decorrentes da coincidência de 2 frequências vibratórias. Mas o que o trabalhador comum normalmente não sabe é que se pode escapar da ressonância ampliando-se o grau de revolução, o que em psicologia = ‘mergulhar’ no arquétipo por identificação”.

Nessa última correlação, Pauli faz um comentário bastante refinado. De fato, o modo de expressar o arquétipo como padrão criativo e não incorrer na alternativa oposta (psicologicamente mortal!) é agir objetivamente no mundo (abandonar a “Casa do pai” e “cair no mundo”, como fez o filho pródigo). “Fazer a revolução”, isto é, o movimento em extensão como ação transformadora. Ir “o mais longe possível”. Buscar o movimento criador-renovador, modificador da perspectiva, pois esta, paradoxalmente, é a melhor maneira de “voltar à casa do pai”, isto é, estabelecer um contato crescente com o centro orientador, o “núcleo radioativo”, o self.

Jung responde na carta seguinte:

“A representação do inconsciente coletivo consiste do assim chamado quaternium – o termo medieval –, significando a emanação ou radiação quaternária que foi designada por um filósofo medieval como o exterior do núcleo. Uma analogia biológica seria a estrutura funcional de uma colônia de cupins, que possui apenas operadores que atuam inconscientemente, ao passo que o centro, ao qual se relacionam todas as funções das partes atuantes, é invisível e não empiricamente demonstrável.

“O núcleo radioativo é um excelente símbolo para a fonte de energia do inconsciente coletivo, o extrato externo limítrofe do que aparece como consciência individual. Como símbolo, indica que a consciência não cresce a partir de nenhuma atividade a ela inerente; mas está constantemente sendo produzida por uma energia que vem das profundezas do inconsciente e que, por isso, tem sido representada na forma de raios, desde tempos imemoriais. O centro foi assim representado pelos gnósticos gregos como Spinther (a centelha) ou como Phos archetypon (a luz arquetípica)” (carta de 14/10/1935; em Maier, 2001:12-13).

“Borboletas”; desenho, 1948; de M. C. Escher.
“Borboletas”; desenho, 1948; de M. C. Escher.

 

Referências bibliográficas

Jung, C. G. (1981). Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

Maier, C. A.(ed.). Atom and Archetype-The Pauli/Jung Letters 1932-1959. Princeton : Princeton University Press, 2001.

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*Emanuel Tadeu Borges é psicólogo clínico.

 

Autor

  • Professor Emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas (2012), publicou diversos livros de divulgação científica e mais de 150 artigos científicos em prestigiosos periódicos internacionais, e orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado no CBPF.