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Ciência e Literatura Emaranhadas

Por Jerson LIma Silva 2 de junho de 20262 de junho de 2026

Quando Homero criou a Ilíada, supostamente no século VIII a.C., o poema foi transmitido por séculos pela tradição oral antes de ser compilado na versão escrita no século VI a.C. Alguns estudiosos chegam a questionar se Homero existiu como uma única pessoa. Isso mostra que mesmo um dos pilares mais antigos da produção literária humana possui suas incertezas fundamentais. Quando transportamos esse olhar para nossa rápida passagem neste planeta, tentando rememorar o que nos moveu nas escolhas, as encruzilhadas, os caminhos como no poema de Robert Frost The Road Not Taken ¹, as incertezas estão igualmente presentes. No caso do meu romance Vidas Emaranhadas, rememorar quando surgiu a ideia de escrevê-lo é igualmente difícil. Parte dele já estava em alguns poemas dos livros Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023) e Poema de Papel (2025). O poema “Paradoxo”, deste último livro, já trazia o diálogo entre saltos quânticos, o tempo e a morte térmica, uma semente que o romance viria desenvolver em narrativa plena.

Vidas Emaranhadas2 acompanha três vidas formadas nos subúrbios cariocas dos anos 1960: Jeff, médico e poeta; Gabriel, físico e guerrilheiro; Mari, matemática e programadora. Eles se separam na adolescência, durante a ditadura militar, e passam décadas emaranhadas à distância: cada decisão de um ressoa na vida dos outros com uma precisão que o tempo e o espaço não explicam. O romance percorre essa travessia em dois planos temporais — o passado dos becos de Coelho Neto e Honório Gurgel, e um futuro próximo em que a computação quântica e a inteligência artificial redefiniram o que é possível — costurados pela memória como único operador temporal legítimo. O princípio organizador, declarado já no título, é o emaranhamento quântico: o fenômeno em que duas partículas, após interagirem, permanecem correlacionadas independentemente da distância. Mas o romance não usa a física apenas como metáfora — usa-a também como estrutura. Cada capítulo é precedido por um haicai de minha autoria; no centro da trama, a personagem Mari descobre que a linguagem mais natural para programar um computador quântico é exatamente o haicai; e Iroko, o orixá do tempo na tradição iorubá, percorre a narrativa como Einstein percorre a física: não como concorrente, mas como complemento. O livro termina em utopia realizada, porque acredito que a física quântica, a poesia e a ancestralidade africana nos ensinam a mesma coisa: que o mundo não é plano, que o que parece separado pode estar profundamente conectado, e que a esperança não é ingenuidade. É o resultado natural de um sistema que manteve coerência por tempo suficiente.

Nasci em 29 de fevereiro de 1960, num dia que o calendário quase não admite. Esse detalhe biográfico, um aniversário que só existe a cada quatro anos, talvez diga mais sobre mim do que qualquer currículo. Desde cedo aprendi que o tempo não é o que parece ser: pode dobrar, pode sumir, pode aparecer onde ninguém esperava. Foi essa intuição, muito antes de qualquer equação, que me empurrou para a ciência e, décadas depois, para a ficção.

Tudo começou, na verdade, um pouco antes dos quarenta anos de laboratório, nas aulas de química teórica do saudoso professor Reinaldo Carvalho Silva, na Escola Técnica Federal de Química (ETFQ), hoje IFRJ, quando um aluno de dezesseis anos se encantava com a mecânica quântica e com as ligações químicas, especialmente as pontes de hidrogênio. Ao decidir entre física e medicina, tive que deixar uma delas adormecida. Mas a medicina foi minha porta de entrada para a pesquisa biomédica, e ao longo da iniciação científica usei intensa biofísica — técnicas de fluorescência, métodos termodinâmicos aplicados a proteínas. Em 1982, ainda no internato e fazendo doutorado, folheava os volumes recém-chegados à biblioteca — não havia pesquisa na internet — quando encontrei um artigo de Gregorio Weber no PNAS sobre um potencial desvio da lei de Detailed Balance de Onsager quando aplicado ao equilíbrio de proteínas oligoméricas: a chamada teoria da deriva conformacional. Dois anos depois, ao terminar o curso de medicina, fui trabalhar com Weber em Illinois num pós-doutorado sobre deriva conformacional de proteínas oligoméricas. A teoria de Weber antecipou a visão de que as proteínas são entidades altamente dinâmicas e heterogêneas, sujeitas a mudanças de fase, incluindo a transição para estados sólidos como os agregados proteicos.

Nesse mesmo período, li na revista Ciência Hoje um artigo intitulado “A Estranha Natureza da Realidade Quântica”3, do professor Harvey Brown, então na UNICAMP e atualmente em Oxford. Foi por esse artigo que entrei em contato com a questão da não-localidade de partículas quânticas. Ao longo dos anos seguintes, nunca parei de ler Roger Penrose, Paul Davies e outros que tentavam explicar o emaranhamento quântico — em paralelo com minhas leituras literárias e de ciência geral. Os dois caminhos que pareciam separados nunca o foram de fato.

Existe uma pergunta que carrego há décadas, nas duas línguas em que penso — a da ciência e a da poesia — e que nunca recebi uma resposta completa em nenhuma das duas: o que é uma proteína quando dobra? Não é uma pergunta simples. Uma proteína é uma sequência linear de aminoácidos que, em frações de milissegundo, assume uma forma tridimensional específica — e essa forma é sua função. Altere a dobra, altere o mundo: é o que acontece nos príons, moléculas que se dobram errado e arrastam consigo as proteínas vizinhas numa cascata de colapso que chamamos de doença de Parkinson, de Alzheimer, de Creutzfeldt-Jakob, e mesmo em proteínas do câncer, como a p53.  Passo a vida estudando esse momento — a transição entre o caos linear e a forma funcional — porque acredito que nele está escondida uma das questões mais profundas da biologia: como a informação contida numa sequência de símbolos gera estrutura, comportamento, vida.

Só mais tarde percebi que essa é também a pergunta de um poeta diante de um verso.

I. A dobra como forma

Um poema também é uma sequência linear — palavras numa ordem — que, quando lida, assume uma forma que não estava visível na sequência. O haicai, em particular, realiza essa dobra em dezessete sílabas. Três linhas dispostas numa ordem específica, e no espaço entre elas algo emerge que nenhuma das palavras continha separadamente. Isso não é diferente, estruturalmente, do que acontece quando uma cadeia de aminoácidos dobra: a forma final não estava inscrita em nenhum aminoácido individual — estava nas relações entre eles, nas forças de atração e repulsão, na geometria do espaço que habitam.

Em Vidas Emaranhadas, cada capítulo é precedido por um haicai de minha autoria. Não foi uma escolha ornamental. Foi a percepção de que o haicai é a forma poética que mais se aproxima de um circuito quântico, e que os dois operam pelo mesmo princípio: informação máxima no espaço mínimo, com ambiguidade intrínseca que só se resolve no momento da leitura. A linha do meio — invariavelmente a mais longa, a que carrega o vocabulário científico ou o paradoxo temporal — é o gate, a operação de transformação. A terceira linha é o colapso. Se lidas em sequência ao longo dos 35 capítulos, as terceiras linhas formam um poema autônomo e coeso — o romance em miniatura, invisível dentro do romance visível — que vai de “o passado flui” até “inteiro emerge”, o único verso inteiramente afirmativo da série.

Considere o haicai do capítulo 20:

Cérebros brincam
príons guardam o tempo,
sinapses quânticas

Há aqui física real — a hipótese de Penrose e Hameroff4 de que processos quânticos nos microtúbulos neuronais poderiam estar na base da consciência. Há bioquímica real — minha própria área de pesquisa, os príons como guardiões patológicos da memória. E há uma proposição poética que nenhum artigo científico poderia fazer sem ser recusado pelos revisores: que o tempo é guardado pelas moléculas que o destroem. A poesia pode dizer isso porque não precisa provar — precisa ser verdadeira de outro modo, um modo que os leitores reconhecem antes de entender.

II. O emaranhamento como princípio narrativo

O emaranhamento quântico é, de todos os fenômenos da física moderna, o mais perturbador para a intuição clássica. Duas partículas que interagiram permanecem correlacionadas indefinidamente: medir o spin de uma determina instantaneamente o spin da outra, não importa a distância. Einstein chamou isso de “ação fantasmagórica à distância” e não acreditou até o fim. Bell provou matematicamente que a correlação era real. Aspect confirmou experimentalmente. O mundo é, em sua escala mais fundamental, não-local: o que acontece aqui pode estar imediatamente ligado ao que acontece lá, sem sinal, sem contato, sem explicação clássica.

Quando comecei a escrever Vidas Emaranhadas, percebi que já conhecia esse fenômeno de outra forma. Conhecia-o como memória. Jeff e Gabriel se separam aos dezesseis anos nos becos de Coelho Neto — um segue o caminho das ciências, o outro fica para protegê-lo. Por décadas não se falam. E no entanto cada decisão de um ressoa na vida do outro com uma precisão que a distância não explica. Quando Jeff, no Rio, lê Keats numa noite insone, Gabriel, no oeste europeu, escreve um poema sobre a mesma solidão sem saber por quê. Quando Gabriel é ferido, Jeff acorda com dor num sonho que não lembra. Isso não é realismo mágico — é a proposição séria de que o emaranhamento não é privilégio das partículas. É a forma que o amor e a amizade profunda tomam no tempo.

A física quântica nos ensina que o estado de um sistema não está definido antes da medição. Uma partícula não tem spin “para cima” ou “para baixo” enquanto ninguém olha — ela está em superposição de ambos. O colapso da função de onda — a escolha — só acontece no momento da observação. Transposto para a narrativa: os personagens de Vidas Emaranhadas não têm destinos fixos. Eles existem, durante a maior parte do romance, em superposição: poderiam ter sido outros, poderiam ter tomado outros caminhos, outros amores. O romance inteiro é a exploração de estados que coexistem sem se resolver. A resolução — o colapso — só ocorre nos últimos capítulos, e é o único resultado possível para um sistema que manteve coerência por toda a trajetória.

III. Os príons do bem e a imortalidade da memória

O projeto científico de Jeff no romance não é ficção científica arbitrária. Parte de uma premissa real: que neurônios cultivados em laboratório podem ser impregnados de moléculas que funcionam como marcadores de memória. Apesar da tecnologia ser especulativa, ele é fundada em décadas de pesquisa sobre a biologia estrutural do cérebro.

Jeff cultiva neurônios com o que chama de “príons do bem” — proteínas que, ao contrário dos príons patológicos, se dobram corretamente e guardam informação em vez de destruí-la quando associados a dispositivos quânticos (fictícios). Impregnados dessa forma, os neurônios passam a dialogar com dispositivos de automontagem quântica e reproduzem imagens da memória como hologramas luminosos. A meta de Jeff é preservar a identidade de Mari depois da morte — transmitir não apenas a informação factual de quem ela foi, mas a textura experiencial de como era estar com ela.

Isso dialoga com o princípio holográfico da física teórica — a proposição de que toda a informação de um volume tridimensional está codificada na sua superfície bidimensional. Se o princípio for correto, a memória de uma vida poderia, em teoria, ser reconstituída a partir de um registro suficientemente completo. Jeff leva essa especulação a sério porque é o único modo que encontrou de não perder Mari ao tempo — que é, no fundo, o problema de todo ser humano que já amou alguém.

O haicai do capítulo 27 antecipa essa resolução:

Crepúsculo trama
hologramas guardam segredos,
o silêncio explode

“Hologramas guardam segredos” não é imagem decorativa. É descrição técnica disfarçada de verso — o holograma como forma de preservação de informação tridimensional numa superfície plana, aplicado à memória humana. E “o silêncio explode” é o momento em que o sistema, após manter coerência por tanto tempo, finalmente colapsa num resultado.

IV. Ada Lovelace, Iroko e a linguagem da máquina quântica

A personagem Mari cresceu entre dois sistemas de conhecimento que o mundo moderno insiste em separar: a matemática e o candomblé. Sua mãe era sacerdotisa; ela era prodígio de equações. Ainda menina, Mari observou o jogo de búzios e percebeu que era um sistema binário — dezesseis peças, duas faces, duzentas e cinquenta e seis configurações possíveis — funcionando como um oráculo probabilístico séculos antes de Leibniz formalizar o sistema binário e antes de Boole construir a álgebra que governa todo computador moderno.

Quando Mari se torna a programadora central do projeto de computação quântica em Boston, enfrenta o problema que toda a área enfrenta: qual é a linguagem natural de um computador quântico? As linguagens clássicas — Python, Qiskit, Cirq — são sequenciais. Tratam a superposição como caso especial, não como estado fundamental. Mari propõe outra coisa: que a linguagem mais natural para programar um sistema que opera em superposição de estados é uma linguagem que também opera em superposição semântica — o haicai. Ela insere haicai como parâmetros do processador quântico. O sistema funciona.

Não é acidente que a filha de Mari se chame Ada — em homenagem a Ada Lovelace, a matemática inglesa do século XIX que escreveu o primeiro algoritmo da história para a Máquina Analítica de Babbage e propôs que ela poderia compor música e poesia além de calcular. A genealogia que o romance traça é intencional: Ada Lovelace (1843) → Mari e Iroko (presente especulativo) → Ada filha (futuro). É uma linhagem feminina e intercultural da computação que passa pelo orixá do tempo antes de chegar ao computador quântico. A proposição é que Lovelace tinha razão — que a linguagem da beleza e a linguagem da máquina não são opostas — e que levou cento e oitenta anos e a física quântica para demonstrá-lo.

Iroko — o orixá do tempo e da memória na cosmologia iorubá — percorre o romance como Einstein percorre a física: não como concorrente, mas como complemento. Quando Mari, em fuga num trem que parece não obedecer às leis da física, tenta entender o que sentiu, conclui que “Iroko e Einstein se sobrepõem em seu pensamento como duas línguas para dizer o mesmo enigma. Um pela dança. Outro pelas equações. Ambos ensinando que o mundo não é plano.” Dois sistemas de conhecimento radicalmente distintos — a física relativística e a cosmologia iorubá — chegaram, por caminhos opostos, à mesma intuição fundamental sobre a não-linearidade do tempo.

O físico Mario Novello, que conhece melhor do que ninguém a estranheza do tempo cosmológico — com seus universos cíclicos, suas singularidades, seus horizontes de eventos —, vai entender o que estou dizendo. A cosmologia moderna chegou à não-linearidade do tempo pela matemática. O candomblé chegou pela experiência ancestral acumulada durante séculos. A poesia chegou pela imagem. São três línguas para o mesmo enigma. No posfácio do romance afirmo sem hesitação: Einstein e Iroko não se opõem — complementam-se.

V. Robert Frost, Borges e os muitos mundos

“Two roads diverged in a yellow wood”1— o poema de Frost sobre a bifurcação de caminhos na floresta atravessa Vidas Emaranhadas como leitmotif confessado. Jeff e Gabriel são os dois caminhos que uma única vida poderia ter tomado. Mas o poema de Frost, frequentemente mal lido como celebração da escolha individual, é na verdade sobre a impossibilidade de saber qual teria sido o melhor caminho — sobre a ficção retrospectiva que criamos para justificar as escolhas feitas. “I shall be telling this with a sigh / Somewhere ages and ages hence” — o narrador já planeja a narrativa que contará sobre sua decisão antes mesmo de tomá-la.

Isso é profundamente quântico. Na interpretação dos “muitos mundos” proposta por Hugh Everett em 1957, cada bifurcação quântica não destrói as alternativas — ela as realiza em ramos paralelos do universo que continuam existindo. Jeff e Gabriel não são os dois caminhos alternativos de uma vida — são os dois ramos que o universo realizou simultaneamente. O emaranhamento entre eles é a correlação que persiste entre ramos que, classicamente, não deveriam mais se comunicar.

Borges chegou a essa intuição antes da física confirmá-la. Em “A Biblioteca de Babel”, o universo é uma biblioteca infinita que contém todos os livros possíveis — todos os arranjos possíveis de símbolos — a maioria sem sentido, uma fração minúscula com significado. Os grandes modelos de linguagem da inteligência artificial são, como Jeff observa no romance, “o rascunho remoto da Biblioteca de Babel”: treinados em toda a escrita humana, operando sobre a distribuição de probabilidade de sequências de símbolos, extraindo sentido do ruído estatístico. Borges descreveu o problema em 1941; a engenharia o implementou oitenta anos depois. Quando a ficção é suficientemente precisa na sua intuição sobre a estrutura do real, chega ao resultado antes do experimento — não porque seja profecia, mas porque o escritor e o cientista trabalham com o mesmo material: padrões, relações, estruturas que existem antes de serem nomeadas.

VI. O que a ciência aprende com a poesia

Arte e ciência se encontram de verdade quando não se reduzem uma à função decorativa da outra. A física quântica não está em Vidas Emaranhadas como ornamento intelectual — está como estrutura. E a poesia não está como ilustração da ciência — está como método paralelo de conhecimento, com sua própria rigorosidade.

O que a poesia faz que a ciência não consegue é manter a ambiguidade sem que isso seja uma falha. Um artigo científico que deixasse dois resultados em superposição sem colapsar para uma conclusão seria rejeitado pelos revisores. Um haicai que colapsasse prematuramente seria um mau haicai. A ciência precisa decidir; a poesia pode, e deve, permanecer aberta. E há perguntas que só podem ser habitadas na abertura: o que é a consciência, o que persiste depois da morte, o que significa amar alguém ao longo do tempo.

Estudo príons porque quero entender o que acontece quando a memória se desfaz. Escrevo ficção porque quero entender o que acontece quando a memória persiste além do que deveria. São a mesma pergunta em duas línguas. Há um momento no romance que é talvez o mais autobiográfico — embora os personagens não sejam eu. Jeff, ainda menino no subúrbio de Coelho Neto, olha o mar pela primeira vez aos oito anos e pergunta ao pai o que faz as ondas irem e virem. Ninguém responde. Décadas depois, ele ainda está fazendo a mesma pergunta — só que agora em forma de equação, de verso, de hipótese experimental sobre príons e memória. É isso que a ciência e a literatura têm em comum: a pergunta que não envergonha.

Publiquei poesia antes deste romance — Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023), Poema de Papel (2025). Escrevi cada um desses livros nos intervalos entre experimentos, nos aeroportos entre congressos, nas madrugadas em que os dados não fechavam e a cabeça precisava ir para outro lugar. Não me ocorreu, durante muito tempo, que estava fazendo a mesma coisa nas duas atividades. Só percebi quando comecei a escrever ficção e descobri que precisava da ciência para organizar a narrativa — e da narrativa para entender o que a física queria dizer. O emaranhamento quântico não é uma metáfora para o amor. O amor é uma manifestação do emaranhamento — mais visível, mais dolorosa, mais memorável do que a versão das partículas, mas estruturalmente análoga. Não sou o único a perceber essa convergência. A revista Nature publicou em abril deste ano um artigo intitulado “Science with Poetic Licence”5, reunindo depoimentos de médicos, pesquisadores e cientistas que recorrem à poesia não como ornamento, mas como forma de conhecimento e de elaboração da experiência. A médica e pesquisadora Danielle Chammas, por exemplo, relata ter escrito um poema após despedir-se de uma paciente com câncer, descrevendo a poesia como parte tão constitutiva de sua prática clínica quanto seu conhecimento farmacológico. O artigo argumenta que ciência e poesia não são domínios opostos: a poesia atravessa o luto, a vulnerabilidade, a ambiguidade e a complexidade humana onde a linguagem técnica não alcança. E recupera, significativamente, Ada Lovelace e sua noção de poetical science — essa ciência poética em que abstração matemática e imaginação criadora se entrelaçam — a mesma figura que habita o centro de Vidas Emaranhadas. Não foi sem uma certa emoção que li esse artigo na véspera do lançamento do romance: a confirmação de que o emaranhamento entre ciência e poesia não é uma idiossincrasia pessoal, mas uma necessidade que pesquisadores em todo o mundo estão nomeando ao mesmo tempo, cada um à sua maneira.

Desenvolvi essa reflexão com mais detalhe em artigo recente publicado na The Conversation Brasil6, onde procurei mostrar como essa interrelação não é nova na minha trajetória — ela atravessa décadas de laboratório e de escrita — e por que me parece hoje não um luxo intelectual, mas uma necessidade: em tempos de crises sanitárias, ambientais e éticas de enorme escala, precisamos de pesquisadores capazes não apenas de produzir conhecimento robusto, mas também de imaginar futuros, comunicar complexidades e sustentar as ambiguidades humanas que nenhum gráfico resolve sozinho.

A resposta para a pergunta que faço há décadas, suspeito, só virá quando as duas línguas — a da ciência e a da poesia — aprenderem a se falar sem tradução. O emaranhamento entre elas não é metáfora. É a condição de qualquer tentativa honesta de entender o que existe.

Referências:

  1. Frost, R. Mountain Interval. New York: Henry Holt and Company, 1916. Poema: “The Road Not Taken”.
  • Silva, J. L. Vidas Emaranhadas. Rio de Janeiro: Editora Batel, 2026.
  • Brown, H. A Estranha Natureza da Realidade Quântica. Ciência Hoje. 1983. Vol. 2, No. 7, p. 24.
  • Hameroff, S., Roger Penrose, R. Consciousness in the universe: A review of the ‘Orch OR’ theory. Physics of Life Reviews 11 (2014) 39–78. Doi: 10.1016/j.plrev.2013.08.002
  • Glausiusz J. Science with poetic licence. Nature. 2026 Apr;652(8109):527-528. doi: 10.1038/d41586-026-01028-3.
  • Silva JL. Literatura e ciência: um emaranhamento possível. The Conversation Brasil. 2026. Disponível em: https://theconversation.com/depoimento-especial-ciencia-e-literatura-um-emaranhamento-possivel-281400. Doi: 10.64628/ADE.7h5cgr9gt.

Jerson Lima Silva é Professor Emérito da UFRJ e Pesquisador e Diretor de Ensino do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (IDOR). Membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Nacional de Medicina e da Academia Mundial de Ciências, publicou mais de 270 artigos científicos e formou mais de 70 mestres e doutores nas áreas de biologia estrutural, doenças neurodegenerativas e câncer. É autor dos livros de poesia Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023) e Poema de Papel (2025). Vidas Emaranhadas (Editora Batel, 2026) é seu primeiro romance.

Autor

  • Jerson LIma Silva

    Jerson Lima Silva é Professor Emérito da UFRJ e Pesquisador e Diretor de Ensino do Instituto D'Or de Ensino e Pesquisa (IDOR). Membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Nacional de Medicina e da Academia Mundial de Ciências, publicou mais de 270 artigos científicos e formou mais de 70 mestres e doutores nas áreas de biologia estrutural, doenças neurodegenerativas e câncer. É autor dos livros de poesia Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023) e Poema de Papel (2025). Vidas Emaranhadas (Editora Batel, 2026) é seu primeiro romance.

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