A natureza da Natureza

É curioso o fruto obtido da fusão de impulsos que julgados por seus aparentes antagonismos parecem imiscíveis: o desejo criativo da Arte e o desejo racional da Ciência são consequências universais da própria Natureza! A muito tempo os físicos descobriram na essência de sua deusa um belo princípio: a tendência irrefreável em desequilíbrio tronar-se equilíbrio. Toda existência parece reverenciar obedientemente a este princípio no inexorável fluxo do tempo. Eis aqui um dos pilares triunfantes da razão!

Mas o que teria isto de especial? Onde estaria a beleza desta inquebrantável contingência? Aí está o princípio de tudo! E também na Arte encontramos a expressão máxima desta natureza.

Contudo, não digo que o equilíbrio é o estado sublime a ser atingido. Nem, tampouco, sugiro a blasfema ideia imaginada por aqueles que veem apenas tédio e monotonia no destino das coisas; aqueles que não sabem onde devem fixar sua atenção e sua mente. Falar do equilíbrio, ou seja, do estado final de qualquer coisa é falar de sua morte. Me refiro aqui às transformações ocorridas entre o início e o fim de qualquer coisa extinta, existente ou que existirá, seja ela viva ou inerte.

Eis aqui o motor da Ciência, da Arte e da Vida! Movimentos em curso apenas pela ausência momentânea do equilíbrio. Trata-se da fonte da novidade, da transformação, da criação!

Encontramos um belo exemplo na mais sublime das artes: a Música… Um pianista encara o piano antes de arrancar os primeiros sons de sua nobre estrutura. Antes do rompimento do silêncio, o piano encerra a qualidade que melhor define um estado de equilíbrio. Está preso num silêncio eterno. E tal calmaria oculta sua complexa essência na obscuridade das rasas aparências. Assim também está o músico: seus nervos estão fervendo; suas emoções a flor da pele. Mas sua elegância e sua serena polidez também escondem suas entranhas.

Haveria melhor definição de equilíbrio? Ledo engano! Como tudo no mundo das aparências somos ludibriados por esta fugaz imagem apresentada por nossos sentidos… Encontram-se entorpecidos pela monotonia da vida demasiadamente artificial.

Repentinamente o pianista fere as teclas com veemência! O piano lhe imprime resistência: está com seu equilíbrio, tão puro, ameaçado. Mas, em uma fração do segundo, a imponente estrutura de aço e madeira rende-se aos desejos do pianista: ele torna-se o agente a nos revelar as entranhas do instrumento numa explosão de sons harmônicos. Os ouvidos passam a testemunhar a exuberância de um mundo repleto de mudanças. E majestosamente encontramos na música a natureza da Natureza!

Mas que natureza é essa? A fluidez! A dinâmica! A impermanência! A nudez absoluta da realidade!

Indissociáveis, humano e instrumento passam a revelar mil segredos. Passam a ser apenas a exultação pura do que está adormecido em nossos sentidos. O atento ouvinte na plateia é absorvido pelo universo do piano. Agora é capaz de sentir todo seu poder, toda sua sutileza e toda sua doçura. E tudo é sentido apenas quando o músico perturba a fria inércia do instrumento que, caso contrário, esconderia toda sua riqueza na obscuridade do equilíbrio.

Da mesma forma, e inseparavelmente, as entranhas do músico são exibidas pelo piano. E como elas são ricas em caos e desequilíbrio! Percebemos que trata-se de uma momentânea batalha: o piano é essencialmente relutante em manter sua esplendorosa sonoridade; quer guardar seu sono profundo a salvo dos tormentos humanos. Mas o pianista polido por virtudes cultivou a sagacidade: consegue vencer esta batalha por alguns instantes. Faz isso fundindo seu corpo e sua mente ao teclado como se o instrumento fosse parte de si.

Esta fusão monumental da à obra sua máxima expressão. Nestes breves instantes somos confrontados com o que o Cosmo realmente é: a constante batalha com forças completamente alheias aos nossos desejos. Realidade fria criando músicos e pianos. Os músicos desejam instrumentos para expressar seus tormentos, alegrias, ideias e amores. E tudo isso é uma interminável guerra contra o equilíbrio.

Vemos então a pura manifestação criativa e fascinante que nos lembra a efemeridade intrínseca da existência. Sendo assim, subitamente nos é dada a noção de que também somos agentes da desordem criadora e destrutiva.

E não seria assim a Física? O que o físico desejaria saber de uma natureza estática, imutável e, portanto, monótona? O coração motor da Arte é, também, o coração motor da Física.

No entanto em nós se fez a faculdade de encontrar e admirar o que permanece no tempo: aquilo que permanece imutável durante e depois da transformação de um todo. É quando, no auge da peça musical, a fina sensibilidade do atento espectador percebe no indivisível ser músico-piano as constâncias nele preservadas. Tudo ali respeita os limites da finitude imposta pela unicidade do evento. Mesmo em sua infinita liberdade criativa e interpretativa o músico segue regras. O piano soa conforme suas propriedades intrínsecas, suas peculiaridades e caprichos criados pelas habilidosas mãos dos artesãos. A todo momento, vemos emergir do aparente caos o que permanece invariável na ligeira passagem do tempo.

O encerramento da peça torna músico e piano duas unidades novamente. Tudo cessa tão rápido e sem sentido quanto o começo. Mas a plateia desaba em aplausos! Agora tudo se foi: ficaram apenas lembranças nos entes humanos. O piano continua existindo friamente: é indiferente aos eufóricos elogios, alegrias e tristezas que criou. Mas o pianista e os ouvintes não são mais os mesmos. Algo permaneceu nestes seres! Este algo será preservado em todos os que desejam enfrentar a implacável guerra entre o início e o fim de dois estados finitos.

O que seria de nós se não tivéssemos a imposição de tais impulsos de desordem e caos? Certamente nada seríamos!