A filosofia disfarçada e a ciência crédula

A ideia de verdade aparece junto com o nascimento da filosofia no século V a.C.  Faz parte do otimismo epistemológico das grandes escolas filosóficas a pretensão de produção do conhecimento e, por conseguinte, da enunciação de suas proposições científicas, isto é, verdades  que, com segurança, podem os homens se apoiar para a condução da sua existência. No período antigo, as discussões epistemológicas estavam ligadas ao modo como Aristóteles tratava do problema da ciência em seus Segundos Analíticos. Para o filósofo estagirita, conhecia-se um fato quando era possível deduzi-lo de princípios anteriores, melhor conhecidos, que constituíam suas causas (2005, II, p. 20). Tratava-se de ligar um fato a outro por meio de um sistema de deduções. Nesse sistema, premissas e conclusões são indiscutíveis: são necessárias e evidentes.

No período medieval, os preceitos aristotélicos se aliam à autoridade da igreja. Seus pronunciamentos, porque divinos, eram absolutamente certos e eternamente inalteráveis. O princípio é que a verdade pertence a Deus e o homem a conhece por revelação. O homem possui uma razão dita natural, isto é, uma razão que está em estreita relação com a razão divina, que assegura a participação do homem na essência divina e a ele revela a essência absoluta das coisas.

Esse mundo de plena adequação entre a razão e as coisas vai ser completamente transformado a partir dos acontecimentos que marcarão o início da Modernidade. Ocorre, entre os séculos XV e XVIII, uma série de positividades que marcarão o início do mundo moderno: a descoberta do heliocentrismo, o advento do protestantismo, o mercantilismo, as grandes navegações e a descoberta das Américas, a invenção da imprensa, as grandes revoluções e a contestação do poder pela burguesia, o desenvolvimento da população urbana, etc. Tais positividades vão se traduzir numa nova mentalidade cultural e provocarão, como consequência, uma mudança na forma de pensar.

Diante dessas novas descobertas e acontecimentos, a filosofia nascente colocará em questão os sólidos edifícios do conhecimento, dado que os conceitos clássicos se mostrarão insuficientes para dar conta das novas realidades. Por conseguinte, a epistemologia clássica vai dar lugar a novas especulações, novos problemas e novos conceitos. O século XVII vai marcar “o desaparecimento das velhas crenças supersticiosas ou mágicas e a entrada da natureza na ordem científica” (FOUCAULT, 1990 p. 69-70).

O que acontece, portanto, nesse período, nesse nascer da Modernidade, é que o homem se encontra novamente só, privado do socorro do cosmos (já que o cosmos não é mais a ordem harmoniosa e bela dos gregos) e de Deus (uma vez que essas novas positividades demandam novas soluções, que estão além da autoridade religiosa). Assiste-se a uma suspensão na crença religiosa da verdade revelada e, por isso, passa-se a buscar novos fundamentos para a construção da verdade.

Com o desmoronamento do cosmos dos antigos e o início da crise das autoridades religiosas o homem é levado à dúvida, à suspensão de todos os juízos que ele acreditava certos e indubitáveis, como enunciou Descartes em suas Meditações (1979, I, 2). E qual será o novo odos, o novo caminho para a ciência? O próprio sujeito. Os homens terão que estar preparados para encontrar por si mesmos e em si mesmos as novas referências para o conhecimento. O conhecimento agora não estará mais nas coisas, não serão as coisas que dirão o que são, mas sim o próprio pensamento, donde se conclui que o campo de batalha entre a certeza e a incerteza será o próprio eu. Ou seja, o debate filosófico moderno começa com o sujeito colocado no centro da produção do conhecimento. O sujeito será aquele que, ao mesmo tempo, duvida das grandes ideias metafísicas e se apresenta como o construtor das novas certezas, capaz de realizar a pretensão de uma ciência universal.

O êxito da ciência moderna é devido ao chamado método experimental que, aliás, Roger Bacon, já no século XIII, tinha antecipado, mas que será plenamente desenvolvido na Modernidade. O método experimental não é uma simples observação, como o era a indução aristotélica, mas sim o caminho para a verificação e a falsificação (KOYRÉ, 1991, p. 64). Com isso, ao invés de se partir de uma teoria que contém a verdade em sua integridade, descobre-se que uma teoria pode não ser definitiva, não ser única, nem mesmo estar certa. A Modernidade ensina que, quando as respostas às investigações científicas saem das práticas experimentais e não de modelos, elas podem ser múltiplas e mesmo contraditórias.

A experimentação não supõe unicamente a observação fiel dos fatos, nem a busca das conexões empíricas entre fenômenos. Primeiro, há uma hipótese teórica e, depois, a investigação na natureza para obrigá-la a dizer sem ambiguidade se obedece ou não a uma teoria. A experimentação, como ensina Francis Bacon (s/d), deve seguir alguns passos, que ele chama de tábuas de investigação que têm como ponto de partida a experiência escriturada, isto é, a observação atenta, feita em função de determinado motivo e que se opõe à simples observação da experiência vaga. O conhecimento científico parte da experimentação para construir suas hipóteses até chegar à formulação de generalizações e leis que devem ser comprovadas mediante sua aplicação em novas circunstâncias, qual seja, a repetição e testagem de hipóteses.

Uma característica importante da ciência moderna é que ela une racionalidade e trabalho, técnica e teoria, teoria e práxis. Não há apenas uma observação passiva do mundo, mas uma prática: a nova tarefa da ciência moderna não residirá mais na contemplação passiva de uma beleza dada, já inscrita no mundo, mas no trabalho, na elaboração ativa, ou na construção de leis que permitam dar a um universo desencantado um sentido que, a princípio, ele não tem mais[1] (FERRY, 2007, p. 122).

É por conta dessa elaboração ativa que serão construídos instrumentos e máquinas que auxiliarão a produção do conhecimento. Galileu Galilei inventa uma série de instrumentos científicos: o relógio de pêndulo (a primeira forma precisa de se medir o tempo), o compasso geométrico militar (notável na observação e cálculo, usado para transferir dimensões de uma escala a outra), o fio de prumo, o esquadro (usados para calcular elevações), o relógio d’água (também utilizado para a medição do tempo), o termoscópio (que permitia com precisão a medição da temperatura), sem contar o mais notável de todos: o telescópio, que lhe exigiu o aprendizado da arte de polir vidros e que recebeu de sua parte o nome de cannocchiale e, por sugestão de Frederico Cesi, recebeu o nome que o consagrou (MONDOLFO, 1967, p. 106).

Foram significativas as conquistas de Galileu: descoberta das montanhas na superfície lunar, os satélites de Júpiter, o número impressionante de estrelas em constelações jamais vistas (mais de dez vezes o número até então conhecido), os movimentos de Vênus e Mercúrio, a compreensão da via-láctea como uma nebulosa constituída de inumeráveis estrelas reunidas. Estas descobertas tinham permanecido invisíveis até o seu tempo, e traziam não apenas novos fatos astronômicos, mas abriam “um novo universo de proporções incomensuráveis, na imensidade do espaço povoado de um sem-número de sistemas astronômicos, em cuja infinidade se desvanecia como fantasma toda a hierarquia de esferas e corpos celestes” (MONDOLFO, 1967, p. 107). Entretanto, a importância de Galileu na história das ciências não se limita apenas às suas “experiências manifestas”, mas na vinculação destas com as “demonstrações necessárias” de acordo com suas próprias e repetidas palavras (2009, p. 20; p. 55). Ou seja, são dois traços que caracterizam a novidade do pensamento de Galileu: ele torna visível à ciência do seu tempo elementos astronômicos que antes não eram vistos e apresenta suas observações a partir de uma descrição matemática rigorosa.

Para Galileu, a demonstração de sua doutrina a torna mais digna de respeito do que as doutrinas apenas fundamentadas no argumento de autoridade, sejam estas provenientes das Sagradas Escrituras, sejam provenientes dos autores clássicos. Diz ele: que é preciso “considerar com toda diligência a diferença que há entre as doutrinas opináveis e as demonstrativas” (2009, p. 56; p. 73; p. 78; p. 80; p. 94; p. 120). Aquele que se serve das demonstrações legítimas não fica ao sabor das trocas de opiniões, pois a conclusão deduzida goza do rigor da necessidade. Aliás, o filósofo italiano cita em Carta à Senhora Cristina de Lorena outros matemáticos que, a partir das demonstrações necessárias, concordaram que era preciso “mudar a já concebida organização do mundo, não podendo esta de maneira nenhuma subsistir mais” (idem, p. 75).

A dimensão que a física moderna toma a partir de Galileu implica numa elaboração teórica que ultrapassa a simples observação, substituindo a experiência quotidiana por um mundo geométrico[2]. A partir dele a compreensão da natureza implicará a união entre “experiências sensatas” e “demonstrações necessárias”[3] ou ainda entre “experiências sensíveis e acuratíssimas observações” (GALILEI, 2009, p. 56; p. 59). Assim, a produção do conhecimento científico, a compreensão dos fenômenos da natureza terá como princípio o cálculo matemático[4]. Nas suas palavras, o livro da natureza é escrito em caracteres geométricos, em língua matemática (GALILEI, 1979, p. 119).

Como diz Crombie (apud KOYRÈ, 1991, p. 74), Galileu está se libertando da tendência de um excessivo empirismo que constituía a tradição aristotélica. “A maneira pela qual Galileu concebe um método científico correto implica uma predominância da razão sobre a simples experiência, a substituição de uma realidade empiricamente conhecida por modelos ideais” (KOYRÈ, 1991, p. 74).

Campanella, em sua Apologia de Galileu, se serve do caráter matemático do trabalho deste como um elementos diferenciador e, portanto, como um relevante argumento a ser usado em sua defesa. Ele afirma que a doutrina sobre o movimento da terra[5] encontrou ao longo da história e, em particular em Aristóteles, contraditação “com razões inconsistentes, sem demonstração matemática” (2007, p. 45-46). As refutações dessas ideias seriam “produto da falta de matemática e cosmografia” (Idem, p. 51). Por outro lado, a astronomia de Galileu deveria ser reconhecida, uma vez que os fenômenos celestes são comprovados “pelo sentido e por instrumentos exatíssimos” (Idem, p. 62). Na Resposta ao segundo argumento Campanella chega a indagar: “não entendo por quê hoje os nossos teólogos, sem prévias demonstrações matemáticas ou experimentos e sem revelações, sustentam saber com certeza que a Terra está no centro e que é imóvel…” (2007, p. 97) (grifo nosso).

Em resumo, a ciência nascente trabalhará com instrumentos e sua manipulacão, com a observação e a técnica, o que mostra o valor dado à experimentação, deslocando a ciência de uma perspectiva especulativa, descritiva, para uma perspectiva ativa, interpretativa. Desde então a ciência tomará esse caminho e acreditará que somente por meio dele é capaz de produzir a “verdade científica”.

O homem de ciência manipula a realidade, tenta conferir à realidade uma proximidade máxima em relação a uma descrição teórica. Prepara-se o fenômeno estudado, purifica-o, isola-o até parecer uma situação ideal, inteligível por excelência, que encarne a hipótese teórica que guia a manipulação. Assiste-se a uma dupla inovação: a ciência experimental será aquela que tem a prerrogativa de confirmar ou invalidar as conclusões do raciocínio dedutivo e, além disso, ser a fonte de verdades novas e importantes que não podem ser descobertas por outros meios.

Para a ciência moderna, que renova e mesmo alarga o otimismo da filosofia antiga, o universo é cognoscível, regulado por um pequeno número de leis simples e imutáveis, leis essas acessíveis aos homens por meio da mecânica racional. A ciência newtoniana, por exemplo, descobriu uma lei universal à qual obedecem os corpos celestes e o mundo sublunar. É a mesma lei que faz as pedras caírem e os planetas girarem em torno do sol. Ou seja, o universo físico torna-se homogêneo por toda parte, quantitativamente invariável, e em todos os pontos do espaço dominado pelas mesmas leis,  acessível ao cálculo e à medição, à observação e à experiência.

É aqui que a ciência acredita encontrar o seu caminho e a sua autonomia. A partir do momento em que o pensamento inventa a ciência experimental e essa se torna o autêntico modo de produção do conhecimento, amparado por técnicas, instrumentos e matematicamente comprovado, a ciência emancipa-se da Filosofia. Mais do que isso, a ciência apressa-se em distinguir-se da filosofia. Na visão científica, uma vez que se descobriu o legítimo modo de se conhecer a verdade, livre das superstições e limitações dos antigos, do berço filosófico, era mais do que urgente abraçar esse novo método, impô-lo como condição da ciência e, por conseguinte, desprezando tudo o que se constituisse nesses parâmetros.

É daí que advém, com clareza, a distinção entre o mundo da ciência e o mundo da filosofia. Entre os séculos XVI e XVII, emergem as ciências naturais com a crença de que o discurso científico puro seria possível e mais do que isso, apenas ele favorável à verdade e ao progresso humano. Mais do que desconfiança, a filosofia passa a ser objeto de autêntica repulsa. Com esse completo e preciso afastamento, se elabora um ‘ceticismo anti-metafísico’, teorias científicas nas quais, como parece claro, a filosofia e com mais razão, a metafísica, não teria lugar. Ou seja, o discurso comum do alvorecer da ciência moderna definirá a idade positiva da ciência, em contraposição à sua pré-história ou idade metafísica.

Construída pela razão e apoiada por uma técnica, a ciência nascente, positiva, teria como referência as relações empiricamente observáveis e se erigirá como o saber confiável, o único genuíno para enunciar as verdades, posto que apartado das abstrações filosóficas. O cientificismo tomará a filosofia como sua adversária e considerará que este campo do saber nada tem a lhe oferecer, mas antes, estaria cercado de problemas que lhe atrapalhariam e mesmo impediriam a busca e obtenção do legítimo conhecimento.

Diferentemente do que pensa o senso comum, não se trata de um progresso, de uma evolução humana, mas sim de uma experiência do pensamento. Antes de tudo, portanto, é preciso retificar essa crença. A filosofia, em determinado momento histórico, enamorou-se por uma nova forma de pensar e construiu novos critérios de verdade, o que significa dizer que a filosofia, no século XVI, faz uma nova experimentação de pensamento e essa experimentação altera por completo o caminho do conhecimento.  A questão é que essa nova experiência vai ser por demais festejada pelos homens, como se fora uma conquista definitiva, como se fora de uma suficiência tão absoluta que nenhuma outra experiência do pensamento importa. Assim, de experiência do pensamento ela passa a ser proclamada como verdade, como critério inquestionável.

Observe-se que não se está falando aqui dos resultados obtidos pela ciência experimental, isto é, não está em questão as verdades que ela produziu ao longo dos últimos cinco séculos, mas o próprio método experimental como critério. Ou seja, a questão não é que as verdades da ciência sejam provisórias ou históricas. O pressuposto e o método científico também o são.

Ou seja, a filosofia, em determinado momento histórico, passa a reagir contra a sua própria natureza, apaixona-se pela crença de que pode produzir verdades definitivas por meio da razão transcendental e da técnica experimental e se traveste de outra natureza. A ciência não enxerga esse travestismo, porque a ciência é sempre crédula.

 

Referências:

ARISTÓTELES. “Analíticos posteriores”. In Organon. Bauru: Edipro, 2005.

 

BACON, Francis. Novum Organon. Porto: Res, s/d.

 

CAMPANELLA, Tommasio. Apologia de Galileu. São Paulo: Hedra. 2007.

 

DILTHEY, Wilhelm. Leibniz e a sua época. Coimbra: Armênio Amado Editor, 1947.

 

DESCARTES, René. Meditações In ______. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

 

FERRY, Luc. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

 

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

 

GALILEI, Galileu. Ciência e fé. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2009.

 

KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento cientifico. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.

 

MERLEAU-PONTY, Maurice. A natureza. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

MONDOLFO, Rodolfo. Figuras e ideias da Filosofia da Renascença. São Paulo: Mestre Jou, 1967.

[1] É preciso lembrar que Francis Bacon morreu de pneumonia quando investigava, na neve, no frio, a influência que a temperatura exercia sobre a putrefação dos corpos de galinhas.

[2] De acordo com Alexandre Koyrè, Niccolo Tartaglia teria sido o primeiro a dar um tratamento geométrico à ciência da balística, opondo-se ao tratamento puramente empírico que caracterizava essa arte. Cf. A dinâmica de Niccolo Tartaglia In Koyré, Alexandre. Estudos de História do pensamento científico, p. 107.

[3] Tais expressões são as que Galileu utiliza em Carta à Grã-Duquesa Mãe, Madama Cristina de Lorena in Galilei, Galileu. Le Opere. V. p. 309-348 apud Mondolfo, Rodolfo. Figuras e ideias da filosofia da renascença, p. 107.

[4] Há que se registrar que Galileu Galileu foi filho do eminente músico Vicente Galileu que lhe ensinou, desde cedo que a música e a harmonia são regidas por leis matemáticas.

[5] De acordo com Campanella tal doutrina não é exclusiva de Galileu, mas também comum a Pitágoras e mesmo a Moisés, tendo sido ensinada por inúmeros outros matemáticos e teólogos.

Autor

  • Flavia Bruno é graduada, mestre e doutora em Filosofia pela UFRJ. É professora adjunta da FSB/RJ e da UCAM-Centro.