ARTIGO /

José Martins Salim* //

No artigo a seguir, procuro expressar o que ocorreu em mim após a leitura dos livros Cosmos e Contexto e O que é a Cosmologia?, ambos de autoria de Mario Novello.

Para desenvolver e expressar as ideias e os movimentos infinitos que a leitura desses títulos suscitou, fui levado a fazer uma bricolagem dos textos de Bérgson e Deleuze que estão citados nas referências. Como resultado, apresento um texto rigorosamente elaborado com conceitos, sem ser difícil, porém leva em conta que o pensamento só ocorre quando se é forçado a pensar, caso contrário, a mente apenas escorre entre as conexões e signos já estabelecidos. Fato que as sociedades de controle já compreenderam e por isso o pensamento se torna cada vez mais difícil e raro.

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Estamos sempre imersos no caos que se define não como desordem, mas, sim, pela velocidade infinita com a qual se dissipa toda forma que nele se esboça. “É um vazio que não é um nada, mas um virtual, contendo todas as partículas possíveis e suscitando todas as formas possíveis que surgem para desaparecer logo em seguida, sem consistência nem referência, sem consequência” (Deleuze e Guattari, 1991). A vida introduz a duração e produz um plano de referência nesse caos, que implica uma desaceleração, onde emergem corpos e estados de corpos que constituem a superfície multidimensional onde eles se percebem e relacionam. Os humanos emergem entre os vivos e a inteligência os instrumenta de modo a estender esse plano de referência para alem do sensível, em outras palavras, produzindo agenciamentos que estendem a sensibilidade, necessários aos functivos que a ciência utiliza na construção das funções que se apresentam como proposições nos sistemas discursivos e são necessárias na elaboração de seus modelos e enunciados. É assim que se constitui a física, essa invenção da inteligência humana.

No real estamos imersos na duração, aquilo que difere de si (Deleuze, 1966), e nele está presente um misto de tendências que se atualizam produzindo repetições e diferenças. Iremos mais adiante precisar com rigor o conceito de repetição. No momento basta tomá-la como o que fica explícito no exemplo do eco em oposição ao exemplo de gêmeos idênticos (generalidade).

A física se desenvolveu como ciência fixando a atenção naquilo que se repete no mundo e nas condições que favorecem e mesmo condicionam essas repetições. A inteligência fixa-se no que se repete e nas repetições separa o que aparece constante. Assim é que na física chega à ideia de um sistema isolado como termo assintótico na série das repetições. Devemos, no entanto, perguntar em que condições a experimentação assegura uma repetição. Os fenômenos da natureza produzem-se ao ar livre, sendo possível todo tipo de interferência em vastos ciclos de semelhança. A experimentação constitui meios relativamente fechados onde o fenômeno é definido em função de um pequeno número de fatores selecionados. Nessas condições, a Física é imediatamente Matemática, sendo que os fatores retidos ou os meios fechados constituem sistemas de coordenadas geométricas. O fenômeno aparece necessariamente como igual a certa correlação qualitativa entre fatores selecionados. Na experimentação trata-se então de substituir uma ordem de generalidade por outra ou uma ordem de igualdade por uma ordem de semelhança (Deleuze, 1968). A repetição é tomada em seu aspecto externo como semelhança. O conteúdo do sistema isolado quando inteiramente objetivado, de tal modo que por divisões do sistema não se encontra nada novo, atualiza as condições necessárias para enunciar o conceito de matéria: o máximo de distensão da duração. Essa tendência seguida pela inteligência levou a construção de representações e modelos em termos de funções, que expressam o fato de que uma vez estabelecidas as condições iniciais representadas pelos valores atribuídos as variáveis do modelo, o estado final do mesmo é representado por uma função dessas variáveis determinada pelo modelo. A demarcação do sistema isolado, o estabelecimento das variáveis independentes e das funções não se faz sem antes estabelecer o sistema de referência que, para o físico, funciona como o enquadramento da cena que o diretor estabelece para iniciar a filmagem (Deleuze, 1983). Desde que nasce, quando da fecundação do óvulo, a criança tem de fazer escolhas e colocar limites para enfrentar o caos e nele se afirmar. É no desdobramento dessa ação que o olho é formado e que a memória e o cérebro concentram, selecionam, estabelecem limites para os dados sensíveis e constituem a imagem-percepção que ilumina a ação. Não de modo diferente a ciência, em particular a física, enfrenta o caos estabelecendo limites ou bordas mediante a instauração do plano de referência. “São estas bordas que dão ao plano suas referências; quanto aos sistemas de coordenadas, eles povoam ou mobíliam o próprio plano de referência” (Deleuze e Guattari, 1991). É esse limite instituído que permite ver uma coisa limitada. O plano de referência instaura zonas de coerência onde as coordenadas e as funções são determinadas. É assim que se faz o enquadramento de uma estrela no espaço de Minkowski assintótico produzindo a solução de Schwarzschild. Mas isso não se faz sem produzir cortes e rupturas. O plano de referência implica uma renúncia ao infinito (Cantor, 1969) e só se pode montar cadeias de functivos que se quebram necessariamente em certo momento. É assim que uma estrela no interior de uma galáxia não pode receber o mesmo enquadramento que a anterior e é necessário instaurar um novo plano de referência.

Para construir a representação é necessário estabelecer conceitos abstratos que tem por base a ideia de sistema isolado e matéria, descritos em um plano de referência. É assim que se constroem modelos para representar o objeto ideal denominado partícula teste, para representar as fontes das interações fundamentais e mesmo para representar os sistemas complexos, por exemplo, os tratados pela mecânica estatística e termodinâmica. Por abstração queremos aqui apenas indicar a operação que retira o ente do contexto em que ele é dado atualmente e, representado por um signo, é reinscrito num espaço ideal isolado ou em relação com outros signos que receberam o mesmo tratamento. Nos modelos utilizados nas diferentes disciplinas da física, as funções são obtidas como soluções de equações diferenciais que expressam as características determinantes do modelo, esse associa condições iniciais representadas por valores numéricos das variáveis do modelo aos fenômenos observados no experimento. Esses são representados pelas soluções das equações diferenciais, avaliadas para os valores das condições iniciais. Em todo esse desenvolvimento a ideia de experimento é fundamental: de um lado é necessário construir o sistema idealmente isolado, que tenha claramente definidas as suas partes e as articulações entre elas que serão representadas pelas variáveis do modelo e suas diferenciais, e de outro, a construção de um aparato que irá detectar o fenômeno expresso pela função dessas variáveis definidas no modelo. A eficácia do modelo poderá então ser testada pela realização de diferentes experimentos mudando as condições iniciais do experimento e verificando se o novo fenômeno produzido coincide com o que prevê a função determinada pelo modelo (Russell, 1954).

O conceito de matéria utilizado na física decorre de identificar no real aquilo que se repete, identificar e isolar o sistema que pressupomos associado a essas repetições, identificar nesse sistema as variáveis e suas articulações necessárias de tal forma que, uma vez estabelecidas essas, a repetição do evento em questão está garantida. A inteligência abstratamente sobrepõe ao sistema isolado a ideia de espaço, associado por Kant às faculdades inatas da sensibilidade e tomado como um a priori(Kant, 1983).

O conceito de matéria aparece então associado a um estado ideal obtido como o termo final, limite do processo de isolar o sistema e esperar que todas as tensões internas se desfaçam e que seu conteúdo apareça inteiramente objetivado nesse estado. É quando essas condições são idealmente satisfeitas, que podemos então dividir a matéria em partes, de tal modo que as partes não apresentem nada novo com relação à soma dessas mesmas partes, propriedade fundamental na definição de espaço (Bergson, 1889). O conceito de matéria e força podem então ser formulados para representar e descrever um experimento. Tal é possível apenas em termos aproximados, em uma operação de limite em uma série que converge para o termo ideal que se busca atingir. É assim que se construiu o conceito de movimento retilíneo uniforme e o de força como o que produz o efeito de aceleração. É para essas condições ideais, atingidas apenas como limite assintótico, que as leis da física são estritamente válidas. A partir do estabelecimento dessas condições ideais e dos conceitos de elementos simples que entram na representação das mesmas, que busca-se uma composição entre eles na tentativa de descrever sistemas complexos e menos idealizados. Um exemplo para o que se busca expressar aqui é a descrição de processos dissipativos próximos do equilíbrio onde aparece o conceito de equilíbrio local e o princípio do equilíbrio local, que determina a produção de entropia nesses processos dissipativos. Nesses modelos a produção de entropia e as variáveis dissipativas são determinadas como funções das variáveis de equilíbrio (Prigogine e Nicolis, 1977).

No real nos defrontamos sempre com mistos, em especial um misto de variáveis extensivas e variáveis intensivas. A matéria aparece como o que pode ser espacializado no devir, ainda que de um modo abstrato como o limite assintótico de uma série de estados sucessivos. Um passo gigante na física é então realizado tendo por base a análise da eletrodinâmica dos corpos em movimento. A partir dessa análise foi possível identificar a invariância ou conservação do que foi chamado de blocos de espaço-tempo, obtidos como consequência da existência do grupo de simetria de Lorentz. Desse modo, o conceito de espaço pode ser estendido, acrescentando ao espaço uma dimensão imaginária w = ict, que representa o parâmetro que determina a mudança de posição no espaço e a variação do campo eletromagnético descritos pelas equações da eletrodinâmica dos corpos em movimento. Desse modo se consegue eliminar o tempo desses processos especiais da matéria sob ação de campos eletromagnéticos contidos nesses blocos de espaço-tempo (Blokhintsev, 1973). A espacialização do tempo nesses processos elementares leva à busca de até onde é possível estender essa representação analítica obtida a partir da analise dos sistemas isolados de matéria carregada descritos pela eletrodinâmica dos corpos em movimento. Essa extensão foi conseguida em mais um passo gigante obtido pela relatividade geral de Einstein que consegue igualar o conteúdo de energia e momento do bloco espaço-tempo em consideração às propriedades geométricas do espaço quadridimensional que ele ocupa e determina. A partir desse novo enquadramento, as propriedades a priori da geometria analíticainiciada por Descartes são abandonadas e o plano de referência é agora instaurado pelas linhas e figuras de luz. Os próprios instrumentos de medida de intervalo de distância e tempo são construídos com raios luminosos, explorando a propriedade da constância da velocidade da luz no vácuo (Blokhintsev, 1973).

Na representação que assim se obtém, o movimento da matéria se reduz a mudança de posição. É desse modo que, no devir, seguindo a tendência da matéria, a inteligência consegue instaurar blocos de espaço-tempo cuja união estabelece para a física o plano de referência e para a filosofia (sem os espelhos ou métrica) o plano de imanência, consistentemente instaurado no primeiro capítulo de Matéria e Memória, de Bérgson(Deleuze e Guattari, 1991). No que se refere estritamente a luz se propagando no vazio, nos blocos espaço-tempo, assim constituídos, consegue-se a eliminação dos intervalos de tempo e distância. Esse fato foi tomado como base por F. Hoyle e J. Narlikar (1995) para refundar de modo inteiramente consistente a eletrodinâmica e a gravitação da matéria em movimento, resultando em uma teoria que conceitualmente vai além das anteriores e impondo a necessidade de explicitar o contexto onde elas se desenrolam. Na teoria assim constituída define-se o conceito de tensor energia-momento que resulta da contração que a inteligência realiza na matéria reunindo o que há de comum em suas partes e que determina seu movimento no espaço. Esse tensor é igualado às propriedades geométricas do espaço-tempo representadas pelo tensor de Einstein construído com os traços do tensor de curvatura do espaço-tempo. Nessa representação onde se descreve a dinâmica da matéria, o tempo foi espacializado, mais precisamente o tempo foi eliminado em proveito de uma dimensão espacial imaginária.

Sempre podemos seguir a tendência da matéria no devir: buscar aquilo que se repete, buscar nesses processos que se repetem o que se mantém constante, isolar o sistema, decompô-lo em suas partes simples e determinar suas variáveis independentes constituindo um sistema fechado. Resumidamente esse é o método analítico adotado pela física moderna da relatividade geral. Nesse procedimento é essencial a ideia de observador ou sujeito do conhecimento que constrói essa representação. O observador é considerado em si e para si e sua ação em nada altera o sistema isolado observado. Junto ao conceito de observador, emerge o conceito de fenômeno: aquilo que do sistema físico em consideração é produzido e aparece para o observador. O fenômeno está irredutivelmente associado à particular perspectiva do observador que restringe o seu conhecimento possível do sistema observado. Aparece aqui a ideia de invariante: aquilo que pode ser associado unicamente ao sistema e não depende da particular perspectiva do observador envolvido no experimento. É o correspondente ao noumenon kantiano, que para alem da particular determinação do que aparece ao observador, determina o ser em si do sistema isolado. O noumenon dos fenômenos observados pode ser induzido a partir do que é invariante no experimento e próprio ao ser em si do sistema isolado em observação. A representação que obtemos desse modo para o mundo físico é útil e constitui um passo gigante da inteligência, mas limitada a descrever os processos de sistemas isolados que envolvem a eletrodinâmica dos corpos materiais em movimento, onde por movimento dos corpos se entende mudança de posição no espaço-tempo. Essa representação generaliza e unifica a mecânica e a eletrodinâmica clássicas e pode descrever sistemas materiais isolados quando são determinadas convenientemente as condições de contorno e condições iniciais para esses sistemas. O fenomenismo relativista, inaugurado por Kant e mantido no que estamos buscando explicitar neste texto pela física relativística moderna, parte de que o ser (objeto) é fundamentalmente substância (ou átomo), no sentido de ser em si e para si. De outro lado, a maneira que supomos conhecer o sujeito é no isolamento da consciência de si. Ademais, o sujeito em si é determinado pelas suas faculdades inatas que determinam as condições a priori da experiência. A relação entre o sujeito e o objeto dá acesso aos fenômenos, que é o que está disponível ao conhecimento empírico. A análise do fenômeno leva ao relativismo e as condições da experiência sensorial proíbem um conhecimento só por intuição da realidade física, proibição decorrente da existência das formas a priori da sensibilidade, que se traduzem, por exemplo, no a priori espaço-tempo local de Minkowski. O conceito de fenômeno permite pensar os objetos na medida em que são entes dos nossos sentidos. Naturalmente, ele possui o seu correlato, o noumenon, que se refere aos objetos enquanto independentes da relação com a nossa sensibilidade. Os dois conceitos estão relacionados e o estabelecimento de um pressupõe necessariamente a admissão do outro, mas o noumenon está a priori inacessível. O noumenon Kantiano não existe sem relação com o conceito de substância (ou o que quer que se coloque em seu lugar para caracterizar um objeto em si como uma partícula elementar). Daí o relativismo inevitável do fenomenismo. Daí também o porquê mudar as condições da experiência na busca dos invariantes que explicariam o conteúdo do conhecimento para além da particular perspectiva do observador. Tudo isso decorre de que o ser do objeto é fundamentalmente substância (átomos) e o que aparece são os fenômenos.

Ao discutir o conceito de multiplicidade contínua de Bergson, Deleuze aponta para a questão da natureza do objeto que é determinada como o que pode ser dividido em uma infinidade de maneiras. Ainda que essas divisões não sejam de fato efetuadas, elas são apreendidas pelo pensamento como possíveis, sem que nada mude no aspecto total do objeto. Mesmo que não realizadas essas divisões são possíveis e atualmente percebidas como tal. Essa percepção atual de subdivisões no indiviso é precisamente o que chamamos de objetividade, é um conceito básico na elaboração do espaço homogêneo e está presente também na construção do conceito de matéria.

Na relatividade geral, o conceito de objetivo aparece associado ao que é invariante ou o que não depende da contingente configuração do campo de observadores que descreve o sistema. Segundo essa teoria as leis da física e o que elas descrevem deve ser independente da perspectiva adotada na observação, invariante para os diferentes observadores de tal forma que, uma vez conhecidas as leis da física, é possível prever o que um particular observador irá medir.

Um comentário de Deleuze se faz necessário neste ponto:

Nenhuma criação existe sem experiência. Quaisquer que sejam as diferenças entre a linguagem cientifica e suas relações com as línguas ditas naturais, os functívos, (em especial para nós, os eixos de coordenadas) não preexistem inteiramente prontos. Ver, ver o que se passa, teve sempre uma importância essencial, maior que as demonstrações. Que a ciência seja discursiva não significa, de maneira alguma, que ela seja dedutiva. Ao contrário, em suas bifurcações ela passa por muitas catástrofes, rupturas e re-encadeamentos, marcados por nomes próprios, que na ciência marcam uma justaposição de referenciais. É assim que na ciência Einstein faz aparecer observadores parciais com relação às funções nos sistemas de referências, inspirado em Laplace.

Deleuze também aponta que:

O nome demônio permanece excelente na ciência para indicar um gênero comum desses intercessores necessários como sujeitos de enunciação respectivos: são demônios o observador de Einstein ou de Heisenberg, não menos que o de Maxwell. A questão não é de saber o que eles podem fazer ou não, mas a maneira pela qual são perfeitamente positivos, do ponto de vista da função, mesmo no que não sabem ou não podem.

A equação fundamental da relatividade geral é dada por:

Gμν = – Tμν,

onde Gμν envolve a curvatura do bloco espaço-tempo e Tμν representa o conteúdo de matéria e energia desse bloco espaço-tempo. Essa representação não inclui o observador, que é totalmente independente do sistema que ele observa.

Nessa teoria, as observações são determinadas e expressas por um campo vetorial do tipo tempo que representa o sistema de referência utilizado na determinação dos functivos e das funções que associam os fenômenos ao observador. Esse campo vetorial permite separar a métrica do bloco espaço-tempo em espaço + tempo, lembrando que tempo aqui se refere à dimensão imaginária da variedade e que decorre da espacialização do tempo. O campo vetorial e a métrica espacial que ele determina permitem separar qualquer tensor da variedade pseudo-riemanniana que for utilizado na representação do bloco espaço-tempo em componentes espaciais e temporais.

O conteúdo do bloco espaço-tempo é inteiramente independente do campo vetorial utilizado para descrevê-lo em termos das observações possíveis realizadas por um campo de observadores a ele associado. Diferentes campos vetoriais irão determinar diferentes fenômenos nesse particular bloco espaço-tempo.

Exibimos de forma concisa o modo como a relatividade geral constrói a representação de sistemas físicos isolados, determinados por condições de contorno e condições iniciais, focada no que se repete, no que é invariante e em como isso pode ser utilizado para dominar a matéria.

Gostaríamos de tornar a frisar que no devir os elementos não tem existência real e separada. São vistas múltiplas acerca de um processo indivisível. A incomensurabilidade entre o que precede e o que se segue, contrariamente ao que ocorre nos modelos mecânicos da física, é o que caracteriza a duração, até aqui excluída da representação. “A inteligência tem por função essencial iluminar nossa conduta, preparar nossa ação sobre as coisas, prever, com relação a uma situação dada, os acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis que podem seguir. Instintivamente, portanto, isola em uma dada situação aquilo que se assemelha ao já conhecido; procura o mesmo, a fim de aplicar o seu princípio segundo o qual o mesmo produz o mesmo”.

Nisso consiste a previsão do porvir pelo senso comum. A ciência leva essa separação ao mais alto grau possível de exatidão e precisão, mas não altera seu caráter essencial. Como o conhecimento usual, a ciência retém das coisas apenas o aspecto repetição. Se o todo é original, arranja-se um modo de analisá-lo em elementos ou aspectos que sejam aproximadamente a reprodução do passado. O conhecimento científico só pode operar sobre aquilo que presumidamente se repete, o que, aliás, está implicado na representação dos fenômenos por funções. Para além dessa abstração útil, o real é uma continuidade indivisível, os sistemas que a física nele recorta são vistas parciais tomadas do todo e paralisadas pela linguagem. Com essas vistas parciais, porém, não se pode recompor o conjunto, mesmo que multiplicando suas fotografias sob mil aspectos distintos. (Tema presente em toda obra de Bergson.)

A física trata de sistemas isolados e fechados: sistemas determinados por variáveis que assumem valores em um conjunto e são associadas por uma função a um conjunto imagem que representa os eventos ou fatos produzidos pelo sistema. O sistema é fechado no sentido de que se determinarmos as variáveis do sistema, o evento por ele produzido está determinado. O estado inicial do sistema pode ser sucessivamente preparado em diferentes experimentos que servem para corroborar a validade e eficácia do modelo que representa, matematicamente por funções, o sistema considerado.

Quando se trata de descrever objetos celestes, esse modo de modelar e descrever a matéria não pode ser transposto para esse outro domínio e um novo enquadramento onde os operadores conceituais dos modelos e suas representações funcionam de maneira distinta e, a rigor, os objetos aí tratados são de outra natureza, não se tratando mais de experimentos com sistemas isolados e fechados, mas de observação pura de um passado remoto. Esta distinção de natureza do domínio e território da astrofísica decorre do fato de que com os objetos celestes não podemos realizar experimentos, muito menos isolá-los do resto do universo e separá-los do passado para atribuir novas condições iniciais. Ademais, os referenciais são acelerados, o que introduz um efeito de memória na dinâmica (Mashhoon,2011). Apenas um princípio sustenta e permite a ousadia de descrever esses objetos utilizando, por analogia, as mesmas regras utilizadas nos experimentos de laboratório e que denominamos de leis da física. Ainda assim, a cosmologia se mantém, de direito, mas muito mais próxima da literatura policial do que da física. Pena que essa positividade da disciplina a serviço do pensamento envergonha a maioria dos cosmólogos, que forjaram a máscara denominada cosmologia física.

Na verdade, sabemos com rigor desde Poincaré que não se pode nem mesmo determinar a órbita da terra, para tomar um exemplo do sistema solar. A órbita kepleriana é apenas uma aproximação, suficiente para dar uma ideia da trajetória durante alguns anos. O cálculo das perturbações devidas aos grandes planetas leva este limite de validade a alguns milênios, mas isso não é nada na escala astronômica. O passado e o futuro do sistema solar escapam-nos totalmente(Ekeland, 1987).

O enquadramento que a ciência produz no real, isolando o que ela irá modelar por um sistema e representar matematicamente por operadores e funções, não pode ser avaliado a não ser em função dos problemas aos quais eles respondem e ao referencial sobre o qual eles ocorrem. É tendo isso em conta que podemos tentar uma avaliação da nova disciplina inaugurada por Einstein ao formular um modelo fechado e estático para o universo que foi posteriormente aprimorado por seus seguidores, resultando no que hoje é reconhecido como o modelo padrão do universo. É esclarecedor para esta avaliação levar em conta que Einstein se manifestou publicamente afirmando que “um governo mundial tem de ser criado, que seja capaz de resolver os conflitos entre as nações por meio de decisões judiciárias. Este governo deve basear-se numa constituição sem ambiguidades, que seja aprovada pelos governos e pelas nações e que lhe confira, com exclusividade, dispor das armas ofensivas” (Einstein, 1956). Parece que a influência da obra de Gödel e a convivência com ele em Princeton não amenizou em Einstein a vontade de dominação da cultura europeia.

Deleuze nos chama a atenção que o desejo oscila sempre entre dois polos, e é assim que entendo o que levou Einstein a ousar esse novo passo ao tentar tratar consistentemente os sistemas isolados representados pela relatividade geral, de modo a com eles construir uma totalidade fechada, no sentido que definimos anteriormente, para representar tudo o que existe. A relatividade geral é constituída por uma variedade ilimitada, sem necessidade de condições de contorno e sem quantidades infinitas. Ao buscar forjar o conceito de uma tal totalidade que reunisse de modo consistente os sistemas isolados abstraídos pelo pensamento analítico da física moderna, Einstein precisou introduzir no plano de imanência mais um transcendente e para isso lançou mão de um procedimento de abstração já utilizado por Boltzmann e inspirado na teoria sociológica do homem médio (Boltzmann, 1986). Por meio de uma média estatística, ele reteve da complexa estrutura do tecido sideral formado por galáxias, aglomerados, vazios, nebulosas etc., envolvendo imensos gradientes de temperatura, de pressão, de densidade de matéria. Enfim, gradientes de variáveis intensivas, apenas uma densidade de matéria homogênea e isotrópica eliminando desse modo todos os diferenciais das variáveis intensivas. Esse tratamento simplificativo e abstrato que seleciona e retém do conteúdo do universo apenas o que é compatível com o modelo de um sistema em equilíbrio, onde a ação virtual de todas as variáveis intensivas é sumariamente suprimida por um procedimento de média, foi mantido até hoje em todos os modelos cosmológicos que pretendem, a partir dos modelos de sistemas físicos, construir uma representação do conteúdo material do universo.

Em sua tentativa, Einstein forjou, modificando suas equações originais, uma totalidade estática cujo conteúdo é constituído por uma distribuição de matéria homogênea e isotrópica, representada por sua densidade e com pressão nula. Essa totalidade constituída de uma esfera tridimensional totalmente preenchida pelo fluido material sem pressão, descrito acima, buscava modelar a configuração da totalidade da matéria que se conseguiria abstrair e atribuir ao conteúdo do Aberto de tudo o que existe. Esse tipo de modelo foi denominado modelo cosmológico e pretendia representar aquilo que se pode abstrair do real, seguindo a tendência da matéria e constituir o que se denomina mundo físico: uma abstração grosseiramente simplista para representar o conteúdo material do mundo. Esse modelo se mostrou inconsistente por ser instável e, desde então, a ciência tem buscado uma outra representação consistente para essa totalidade abstrata que representaria o mundo material ou mundo físico, sem porém se afastar das qualidades básicas propostas por Einstein onde o tempo e as diferenciais das variáveis intensivas são eliminados.

Caso a cosmologia física, limitada por esse predicado que a acompanha, se ocupasse apenas dos astros e dos estados de corpos que eles envolvem, bem como dos fenômenos que permitem o acesso a eles por meio de funções, a ilusão objetiva dos possíveis da física não teria sido levada tão longe e o Todo não estaria sumariamente fechado. É preciso distinguir a teoria da relatividade, forjada para descrever experimentos em laboratório e mesmo de sistemas isolados de objetos celestes, e o outro território instaurado pela cosmologia em um domínio de natureza distinta e que responde a outros problemas. Resta porém indagar porque o território da cosmologia tem atraído, a partir da década de 1980, tantos físicos, especialmente os de altas energias, que a partir de A. Guth retiveram dos problemas do Cosmos apenas um espaço homogêneo e temperaturas (também homogêneas) de valor ilimitado, para se dedicar a uma produção de subjetividade própria a ser veiculada na mídia e atrair a opinião do senso comum, ocupando um território do céu antes destinado a religião e totalmente alheio ao pensamento imanente. Não houve a desejada refundação da física pretendida por M. Novello (2006), nem mesmo apenas a modificação mais simples do caráter universal das leis da física, sugerida pelo físico Ginzburg como a função primordial da astrofísica, tornando-as o que são rigorosamente em termos astrofísicos: leis locais (Ginzburg, 1976). O que houve, ao contrário, foi a territorialização do Todo Aberto no interior de um volume homogêneo e isotrópico, dotado de uma temperatura inversamente proporcional ao fator de escala associado a esse volume, possibilitando que a temperatura possa crescer ilimitadamente, permitindo aos sistemas de laboratório, agora representados no interior desse volume variável, ter idealmente acesso no passado remoto a energias indisponíveis nos laboratórios terrestres. O campo gravitacional inomogêneo e as variáveis intensivas foram substituídos por fantasmas imaginários denominados ínflaton, matéria escura e energia escura. Simultaneamente, estimulada pelos físicos, desenvolveu-se uma crescente produção de uma subjetividade fantástica, própria a saciar o apetite ilimitado da mídia, agora incumbida de povoar o imaginário antes administrado pela igreja. Essa provação sofrida pela cosmologia é muito próxima a ocorrida com a filosofia e denunciada por Deleuze:

“o fundo da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação, apoderaram-se da palavra conceito (…), o marketing reteve a ideia de uma certa relação entre conceito e acontecimento; mas eis que o conceito se tornou o conjunto de apresentações de um produto científico e o acontecimento, a exposição que põe em cena apresentações diversas e a troca de idéias à qual supostamente dá lugar. Os únicos acontecimentos são as reuniões, e os únicos conceitos, produtos que se pode vender. O movimento geral que substitui a Crítica pela promoção comercial não deixou de afetar a filosofia e a ciência. O simulacro, a simulação de um pacote de macarrão ou de uma distribuição de energia escura, tornou-se o verdadeiro conceito, e o apresentador-expositor do produto, mercadoria ou resultado científico, tornou-se o filosofo ou cientista. Certamente é doloroso descobrir que ‘Conceito’ designa uma sociedade de serviços e de engenharia informática” (Deleuze e Guattari, 1991).

Bérgson quando instala o seu plano de luz, em total acordo com a relatividade de Einstein, nos fala das séries causais de imagens cujo encadeamento tem um futuro determinado, mas fala também de outras imagens que aparecem como centros e não refletem mecanicamente a ação que recebem. Ao contrário: a absorvem, produzindo um intervalo e tornam a ação possível ou reação, inteiramente indeterminada. O que ocorre nesses casos é uma pura ilusão que deve ser excluída da representação ou, ao contrário, é essencial por que abre a fenda por onde emerge à superfície o regime de quase-causa dos corpos (Deleuze, 1969), agora com potencia de encarnar novos acontecimentos, liberar o sentido para outras transações da matéria e tornar o Todo Aberto?

Que problema a cosmologia moderna está pretendendo formular e apontar as soluções possíveis, quando busca representar tudo o que existe por um modelo que representa um volume homogêneo e isotrópico com apenas um grau de liberdade dinâmico, que ora representa o fator de escala associado a esse volume, ora a sua temperatura (a mesma em todos os pontos)?

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*José Salim, físico do Instituto de Cosmologia Relatividade e Astrofísica (ICRA/CBPF). Contato: jsalim@cbpf.br

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Referências bibliográficas:

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Mashhoon, B.Nonlocal Gravity, arXiv: gr-qc/1101.3752 (2011).

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