Transumanismo: rio, ponte ou overdrive

O CONTEXTO:      

            Segundo Rosa (2006), graças à capacidade de previsão e de intervenção do paradigma determinista newtoniano, este permaneceu sendo o paradigma que a ciência passa à sociedade e ainda é um componente essencial da visão de mundo dominante. Entretanto, com as profundas mudanças tecnológicas, nas últimas décadas esta visão de mundo sofreu um abalo. Rosa (2006) elenca três fatores principais de tal mudança:

  1. A matemática computacional, que potencializou o estudo de regimes caóticos em sistemas dinâmicos;
  2. Os avanços da biologia molecular, com a descoberta da estrutura do DNA e sua repercussão tecnológica com a engenharia genética;
  3. A inteligência artificial, que recoloca o problema da ciência na mente, reabrindo assim a questão da dualidade cartesiana que separa a mente do corpo e relacionando-se aos problemas da lógica e da linguagem.

            Tendo em vista tal cenário, o início do século XXI passa por um processo ainda não definido de mudança de visão de mundo e da modernidade como a entendemos, ou seja, fundamentada no determinismo científico e na previsibilidade do paradigma newtoniano. Os fatores citados anteriormente apontam para uma excessiva especialização no campo da ciência, um certo pragmatismo científico onde busca-se no limite a aplicação da ciência. Popper atribui essa prática ao que chama de cientista aplicado e considera ser esse um perigo da excessiva especialização atual na ciência.

            No campo prático, a partir da Revolução Tecnológica do século XX, a ciência deixa de ter um papel apenas na superestrutura, no sentido marxista, neste caso, compreendendo a estrutura jurídica e ideológica, e passa a contribuir diretamente na produção, como apontou Habermas (Habermas Apud Rosa 2006). A ação estratégica passa a ser o elemento norteador da prática da ciência, ou seja, o indivíduo, ou organização, persegue seus interesses individuais, regido pela lógica instrumental (adequação de meios a fins).

            Weber nomeia de racionalização o processo de submissão das esferas sociais a critérios técnicos e racionais, baseados na ciência e na técnica. Alguns sociólogos consideram tal processo um dos elementos centrais da modernidade e sua manifestação pode ser encontrada na sociedade como um todo, seja nos aspectos mercadológicos, estatais e no campo da ciência e tecnologia.

            Ao término da segunda guerra mundial, Norbert Wiener, matemático americano conhecido como o pai da cibernética, fez a proposição de um investimento moral e intelectual do ocidente em uma nova ciência ou forma de pensamento tecnológico, o cibernético, segundo o qual nossos principais problemas sociais e conflitos políticos poderiam ser resolvidos tecnicamente, mediante a sublimação funcional do ser humano em automatismos maquinísticos.Wiener não contemplou em sua proposta os aspectos relacionados àresolução de problemas biológicos por tais automatismos, evidenciando apenas as características centradas na linguagem.

            Com a revolução tecnológica da informática, a indústria do conhecimento já se implantou além da computação; ela se expande para a engenharia genética. Uma tendência atual é o aumento da eficiência e do rendimento do corpo humano através do uso da tecnologia. Utilização de fármacos para estimular a criatividade e aumentar a atenção nas tarefas, exoesqueletos robóticos que aumentam a força física e nanoimplantes responsáveis pelo gerenciamento das taxas metabólicas são alguns dos exemplos da tentativa da superação dos limites biológicos do ser humano. A melhoria da condição humana através da utilização da tecnologia perante as intempéries biológicas seria uma passagem para um transumanismo?

 

O PROBLEMA:      

            Kurzweil (2005) apud Silva (2013) decompõe os períodos recentes da história da humanidade em seis partes:

  • 1ª parte: é representada pelos avanços nos campos das ciências físicas e químicas;
  • 2ª parte: o aprofundamento do processo de mapeamento e entendimento dos aspectos inerentes à genética humana e da estrutura do DNA;
  • 3ª parte: há uma maior delimitação do processo de entendimento do modo como funcionam as estruturas do cérebro e da mente;
  • 4ª parte: abrange o incremento e a ascensão tecnológica;
  • 5ª parte: contempla a miscigenação do intelecto humano aos elementos de origem tecnológica;
  • 6ª parte: nesta parte, segundo o autor, há o despertamento, episódio nomeado como a nova singularidade.

            Analisando os três fatores da mudança de visão de mundo nas últimas décadas segundo Rosa (2006) e a decomposição dos períodos segundo Kurzweil (2005), percebemos que existe certo alinhamento entre os autores. Ambos visualizam que a sinergia entre os avanços da tecnologia, o aprofundamento do conhecimento nas ciências biológicas, associado às questões de entendimento cérebro-mente serãoa tríade responsável pelo reprocessamento da visão de mundo vigente neste momento.

            Segundo os modelos que Ray Kurzweil criou, o índice de progresso técnico dobra a cada década e a capacidade de tecnologias específicas de informação dobra a cada ano; logo, a aplicação dos conhecimentos já adquiridos consegue retardar os processos patológicos e de envelhecimento. Kurzweil e Grossman (2007).

            Santaella (2003)apud Silva (2013) descreve que “[…] o corpo humano se tornou problemático […]”, o que suscita  questões a respeito de “[…] uma possível nova antropomorfia[…]”. A mesma autora propõe o termo cibernético para descrever o corpo que nasce da mescla entre sistemas e dispositivos tecnológicos e organismo. Moravec (2000) pressagia que o ser humano poderá transferir sua mente às maquínicas , originando o “robô sapiens”. Neste contexto, como definir um ser humano? Sua capacidade de autorreflexão? A mente? Com o avanço simbiótico da relação dos humanos com aparelhos e instrumentos tecnológicos, o que parece óbvio vai ficar cada vez menos (Gleiser, 2005).“Neste novo contexto, a essência do ser se torna a informação, e seu sentido é cada vez menos humano, vinculando-se em última instância à máquina.” Rüdiger (2011).

            Com o aumento das potencialidades técnicas em relação às novas tecnologias, seja no campo da biomedicina, na geração de energia ou no universo computacional, o homem se depara com dilemas morais em relação à aplicação delas. Segundo a perspectiva pós-moderna, estamos diante desta constatação; estamos fadados ao fracasso e sua utilização é uma ameaça que pode culminar no fim dos recursos naturais, quiçá, na extinção da humanidade. No entanto, podemos estar diante de um estado de superação de algumas restrições históricas nos campos citados e pode ser que haja a convergência para um estado de existência feliz, mais humano e intenso que o atual.

            As evoluções no campo das tecnologias emergentes crescem de forma exponencial, onde o espaço entre as descobertas de uma técnica, procedimento ou processo tem caído drasticamente, e os avanços com potencial benéfico ao bem-estar humano emergem quase de maneira automática. Entretanto, esse mesmo avanço que gera avanços, também é responsável pela criação de riscos constantes de autodestruição. Como, por exemplo, a bomba atômica e o processamento de energia nuclear. Ulrich Beck atribui esta última característica àsociedade de risco, ou seja, os riscos sociais, ambientais, políticos e econômicos gerados no desenvolvimento da sociedade moderna tomam proporções cada vez maiores, escapando da responsabilidade das instituições de controle e proteção da sociedade. Segundo Santos (2012), a possibilidade de imortalidade mediante uma simbiose cibernética é o fato definitivo da submissão do processo evolutivo em relação à tecnologia.

            Diante dos dilemas e questionamentos gerados com o avanço das tecnociências, ou seja, pela superposição da ciência e da tecnologia; e o desejo e a vontade de transcender os limites da capacidade humana atravésdo uso da ciência e da tecnologia com o objetivo de proporcionar ao homem o aumento da inteligência, longevidade e bem-estar, assim como de eliminar as fontes do sofrimento,são os preceitos do movimento transumanista.

 

O TRANSUMANISMO

            O biólogo Julian Huxley, criador do termo transumanismo, o definiu comoa doutrina do ”homem continuando homem, mas transcendendo, ao perceber novas possibilidades, de e para sua natureza humana”. FM-2030 (antes F.M Esfandiary) foi um futurista americanoda New SchoolUniversity e identificou como transumano “pessoas que adaptavam tecnologias, estilos de vida e visões de mundo transicionais auma pós-humanidade (Chamberlain, 2010). O ápice do movimento transumanista se dá em 1998, os filósofos Nick Bostrom e David Pearce fundaram a Associação Mundial Transumanista.

            O transumanismo é um movimento que se desenvolveu ao longo das últimas décadas com uma abordagem interdisciplinar com o objetivo de compreender e avaliar oportunidades que promovam a melhoria da condição humana através do uso da tecnologia. A busca por tais melhorias se dá através da erradicação de doenças, da eliminação do sofrimento desnecessário e do aumento do intelectual humano, do físico e de suas capacidades emocionais. A visão de futuro dos transumanistas é que, através do uso responsável das tecnociências, o ser humano conseguirá se tornar um transumano, ou seja, obter capacidades superiores àsexistentes atualmente. Sua abordagem do ponto de vista político é mais proativa e prega o envolvimento dos cidadãos no debate e disseminação de informaçõesa respeito das práticas transumanistas. A seguir será explicado, segundo o manifesto transumanista escrito por Nick Bostrom, alguns dos preceitos de tal movimento.

            O movimento considera algumas limitações básicas do ser humano que impõem restrições àsua visão de mundo e que, uma vez superadas tais limitações, é possível que existam formas de relacionamentos que levam em consideração sentimento e pensamento. Abaixo segue a lista das limitações apontadas:

  • Vida útil: a partir de diversos pontos de vista, a vida humana é relativamente curta. Estamos perdendo algo importante pela nossa tendência a morrermos cedo.
  • Desenvolvimento do caráter humano: outra característica que é limitada pelo envelhecimento e pela morte. É possível que exista algo precioso e sério para além das limitações temporais e que o caráter possa ser desenvolvido com o maior tempo de vida.
  • Capacidade intelectual: algumas atividades, como, por exemplo, a compreensão de todos os livros de uma biblioteca como a do congresso americano, sãolimitadas por nossa capacidade cerebral.
  • Capacidade de descobrir verdades filosóficas e científicas: possuímos uma limitação cognitiva que traz em si mesma um confinamento.
  • Funcionalidade corporal: atualmente melhoramos nosso sistema imunológico através de vacinação. Podemos imaginar melhorias para o nosso corpo que possam moldá-lo de acordo com nossos desejos, melhorando assim nossa qualidade de vida. Um tipo mais radical seria a realização de um upload da mente humana para um computador, tendo como vantagem a capacidade de fazer cópias de segurança de si mesmo.
  • Modalidades sensoriais, faculdades especiais e sensibilidade: nossas modalidades sensoriais atuais não são altamente desenvolvidas como poderiam ser.
  • Humor, energia e autocontrole: nossos níveis de bem-estar subjetivo parecem ser em grande parte determinados geneticamente. Neste sentido, podemos utilizar produtos que aumentassem tais características.

 

            Parte das limitações citadas já está sendo, no limite, amenizada com produtos gerados peloatual avanço das tecnociênciascomo, por exemplo, a utilização de drogas que estimulam a criatividade e aumentam o vigor físico, a utilização de fármacos na prevenção e manutenção da saúde e a utilização de psicotrópicos para o humor e autocontrole.

            Para que o projeto transumanista seja factível e realizável,são imprescindíveis algumas condições básicas. Da perspectiva política, é necessário que os meios tecnológicos sejam disponibilizados para aqueles que desejam se aventurar no espaço pós-humano e que tal exploração deva ser realizada sem causar danos ao tecido social e sem impor riscos existenciais inaceitáveis. A seguir serão apontadas algumas condições:

  • Risco existencial: a segurança global é o requisito mais fundamental e inegociável do projeto transumanista.
  • O progresso tecnológico: está intimamente ligado ao desenvolvimento econômico ou, mais precisamente, ao crescimento da produtividade.
  • A história do desenvolvimento econômico e tecnológico: inclui todos os objetos e sistemas que foram criados, abrange práticas e instituições, sistemas jurídicos e ciências aplicadas.
  • Amplo acesso: idealmente todos devem ter acesso àoportunidade de se tornar pós-humanos. Seria uma subutilização caso a oportunidade de se tornar pós-humanos ficasserestrita a uma pequena elite.

 

A exigência de amplo acesso fundamenta a urgência moral da visão transumanista. A partir dos requisitos supracitados, uma série de valores transumanossão desmembrados, entre os quais:

  • A escolha individual no uso de tecnologias de aprimoramento
  • Paz, cooperação internacional, antiproliferação de armas de destruição maciça
  • Vontade de reexaminar os pressupostos filosóficos àmedida que se avança
  • O pragmatismo, a engenharia e o espírito empreendedor
  • Diversidade (espécies, raças, credos religiosos, orientações sexuais, estilos de vida, etc.)
  • A preocupação com o bem-estar
  • Salvar vidas (extensão da vida, pesquisas referentes ao anti envelhecimento e a criogenia).

 

TRANSUMANISMO: RIO, PONTE OU OVERDRIVE?

 

Segundo Rosa (2006), o debate atual confronta a racionalidade científica com os valores humanos e o desenvolvimento da ciência é encorajado por objetivos coletivos de busca da verdade sobre a natureza ou de solução de problemas. Segundo o mesmo autor, a epistemologia e suas relações com a tecnologia tornam-se cada vez mais manifestas e são frequentemente colocados estudos sobre ciência, tecnologia e sociedade relacionados à responsabilidade social e ética do cientista, sendo que a tecnologia ficou sem um campo de reflexão na filosofia proporcional à sua importância. Neste sentido “há um extenso campo interdisciplinar que se abre à epistemologia, além das ciências bem estabelecidas e delimitadas tematicamente”.

Segundo Mayr (1998) apud Rosa (2006), ofísico C.P. Snow deslumbrava a união entre biólogos, físicos e filósofos na construção de uma ciência unificada de ampla base que incorpora se tanto o mundos vivo como o não vivo; somente desse modo poderíamos ter uma base melhor para construir pontes (da ciência) para as humanidades, gerando assim alguma esperança na redução da separação na nossa cultura.

Seria o transumanismo uma ponte entre as ciências e as humanidades, um rio do ponto de vista epistemológico ou um Overdrive do pragmatismo científico?

 

Referências bibliográficas:

Chamberlain, Fred (Winter 2000). “A Tribute to FM-2030”.Alcor Life Extension Foundation.Retrieved 2009-08-25.(http://www.alcor.org/cryonics/cryonics2000-4.pdf). Acesso em 27/09/2014.

RÜDIGER, Francisco. As teorias da cibercultura: perspectivas, questões e autores. Porto Alegre: Sulina, 2011

Silva, Anderson Luis. Pós-Humanismo e Eugenia – o corpo tecnológico em relação à insuficiência orgânica. Artigo apresentado no Eixo 8 – Imaginário Tecnológico e Subjetividades do VII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura realizado de 20 a 22 de novembro de 2013.

Silva, Glidinélio Santos, Transumanismo: um conceito antropológico? Revista Pandora Brasil – Número 40, março de 2012 – ISSN 2175-3318 Transumanismo: um conceito antropológico? ___p. 146-159.

Gleiser, Marcelo (2005). Folha de São Paulo http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/169922-bem-vindo-ao-trans-humanismo.shtml. Acesso em 27/09/2014.

ROSA, Luiz Pinguelli. Tecnociências e humanidades: novos paradigmas, velhas questões, v.2: a ruptura do determinismo, incerteza e pós-modernismo. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

Ray Kurzweil, Terry Grossman. A Medicina da Imortalidade, 2ª Ed.Editora Aleph, 2007.

Autor

  • Músico, Engenheiro, Mestrando em Engenharia da Sustentabilidade e Pesquisador do SAGE (Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção) – COPPE/UFRJ