Por que escolhemos a escravidão? – Parte 1

Resumo

Um dos paradoxos da filosofia política é a servidão voluntária. À primeira visto isso parece uma aberração, porque tanto o bom senso quanto a razão rejeitariam de plano a ideia de associar servidão e vontade, posto que a tradição política clássica sempre associou liberdade e vontade. Segundo esta tradição, escolher algo voluntariamente seria exatamente escolher algo de modo livre, sem qualquer constrangimento; e, por outro lado, a servidão implicaria, ela mesma, coação e força, violência, dominação.

O fato é que vemos por todo o lado não só um grande número de pessoas assujeitadas a um pequeno número ou mesmo a um, mas além disso, dando a esse dominador os meios para que o seu domínio sempre se mantenha e mesmo se fortaleça. Diz Chauí que “o paradoxo intolerável da servidão voluntária está em que nada – nem Deus, nem a natureza, nem a razão, nem a sociedade – pode explicar o seu surgimento. Nem a violência e a força dos tiranos, nem a covardia e a fraqueza dos tiranizados são causa da vontade de servir. Pelo contrário, são suas consequências” (2014, p. 12-13).

Ou seja, o presente artigo tem por objetivo compreender o fenômeno da servidão voluntária que não está restrito a uma forma de governo ou a um momento histórico, mas se afirma ao longo da existência humana e, a partir daí, pensar o que é a liberdade ou quais as condições de possibilidade de sua realização.

Em verdade, pode-se estender a ideia de servidão para todas as relações que nos atravessam, não se limitando apenas à esfera política. Estamos, a todo momento em nossa vida, submetidos a relações de servidão: no trabalho, no amor, nas amizades, mas sobretudo nos fantasmas que nos atravessam, nos paralisam, nos aprisionam em uma existência submetida a senhores que nos curvamos muitas vezes de modo invisível.

Introdução

Etienne La Boétie, ainda jovem, escreveu um manuscrito[1] em que faz um exercício a favor da liberdade e contra a tirania. O manuscrito original que La Boétie confiou a Montaigne em razão de afetuosa atenção, segundo as palavras deste último (1987, p. 242), parece estar hoje perdido. A obra de La Boétie ocuparia o centro do livro I de Montaigne, mas é apropriado por protestantes franceses que o converteram em um panfleto tiranicida, depois reaparece no século XVIII e um panfleto político pedagógico de Marat, é retomado nas lutas proletárias do século XIX como panfleto democrático, tendo por fim reaparecido com anarquistas e ganhado um teor de panfleto libertário.

A questão posta no manuscrito de La Boétie não se circunscreve à França do século XVI quando foi produzido ou à França do século XIX onde foi encontrado. Seu problema está para além da história, sendo pertinente à própria natureza humana e suas escolhas, independente do regime político, cultura ou nação que estejamos falando. Sua questão é: como pode o povo se sujeitar a um? Como se enraizou na humanidade essa obstinada vontade de servir? Como pode o povo obedecer e servir, mas mais do que isso, que queira, voluntariamente, servir e obedecer?

O encantamento

 A submissão pela força é facilmente compreensível e mesmo algo a se lamentar, mas a submissão voluntária parece compreender algum tipo de feitiço e é digna de espanto. La Boétie cita o caso de Atenas, que vencida pelos 30 tiranos, teve que a eles se submeter. O povo ateniense aceitou sua condição de vencido não sem lamentar o que a história lhe reservou e não sem esperar por um novo futuro, em que se lutou e se recuperou a democracia, até a dominação fatal para os macedônios.

A submissão de que trata La Boétie não se dá pela força bruta, mas como que por encantamento. O autor se espanta com o fato de ser comum haver milhões de pessoas servindo miseravelmente a um, obedecendo a um, sem que estejam vencidos por uma força superior, por um exército de homens ou por um modelo bárbaro de dominação a quem precisariam sacrificar seu sangue e sua vida.

Os milhões de homens enfeitiçados não se defendem, não ousam atacar esse tirano, ainda que este seja tão apenas um, ainda que este seja desumano e feroz com o  povo, ainda que lhe tire todas as posses e ainda que não haja limite em sua saciedade: quanto mais lhes tira, mais se quer tirar; quanto mais ruína e destruição provocam, mas desejam provocar. O mal que provocam nunca é suficiente, uma vez que se alimentam exatamente desse mal para construir e preservar em sua posição tirânica.

Não haveria, por parte dos homens, necessidade alguma de temê-lo ou de amá-lo, mas apesar disso, a população se encontra sempre submetida e pronta para servi-lo. Esse encantamento perverso leva os homens a facilmente cair em todos os enganos, a ponto de se poder dizer que quando mais o tirano zomba do povo, mais consegue a sua sujeição.

Esta população subjugada busca ainda, como último refúgio para tranquilizar-se, a religião – há uma comunhão desta com a prática de submissão, fazendo dela o alimento que sacia a crença que sustenta esse processo. As artimanhas religiosas são caminhos de reafirmação das ilusões de alienação. Como ensina Spinoza, a teologia faz uma aliança com a teologia, tornando-se em verdade política teológica, em que a instituição e o exercício do poder a partir de uma fonte transcendente delega a uns o direito de governar e dominar outros e por isso a única verdade que a teologia ensina é a obediência.

A teologia é fundada na obediência desejada e consentida, sem o constrangimento da força bruta. Não é por outra razão se não por essa que a libertada é vista como insubordinação e revolta, pecado e heresia.

Spinoza ensina ainda que a dominação não precisa ser nos moldes de uma prisão ou de despojamento de armas, tornando alguém incapaz de reação, mantendo-o cativo. É igualmente possível dominar alguém pelo que ele chama de paixões tristes. As paixões tristes são necessárias ao exercício do poder porque envolvem a diminuição da potência de agir. Nesse sentido, não se percebe a extrema violência política contida no discurso religioso.

A teologia é centrada em uma imagem de uma vontade onipotente e transcendente que cria e governa o mundo e propõe explicações que mantém o medo e a esperança, pois deixam os homens submetidos a um poder altíssimo, estabelecendo códigos de conduta em que a vontade humana se submete à vontade divina pela mediação de quem saber interpretá-la: os sacerdotes[2].

Um novo conceito para a submissão

Ao buscar um nome para conceituar esta circunstância, La Boétie não o encontra, e se interroga se convém chamar de covardia este vício em que um número infinito de pessoas estabelece com outra não uma relação de obediência, mas de servidão; não uma relação de governo, mas de tirania; em que elas se encontram plenamente despossuídas, não apenas de bens materiais, mas de suas próprias vidas. O povo suportaria roubos, deboches e crueldades de um só homem que muitas vezes nada mais é do que um “pequeno homem”, um homem covarde e acanhado.  Pergunta La Boétie: “que monstro de vício é esse que ainda não merece o título de covardia, que não encontra um nome feio o bastante, que a natureza nega-se ter feito, e a língua se recusa a nomear?” (1982, p. 13) Ou seja, trata-se de uma ideia tão incomum que ainda não se encontrou um nome para nomeá-la.

É porque La Boétie não está tratando da obediência aos fortes e aos ricos ou aos governantes, porque claramente a dominação a estes é irrecusável, não como ato da vontade, mas irrecusável diante da complexidade de forças que levam o dominado à submissão. O que La Boétie está tratando é da submissão dos homens mesmo quando nada os obriga a isso, quando poderiam apenas não ocupar esse lugar de servos (CHAUÍ, 2014, p. 13).

 A liberdade é natural?

O natural, de acordo com La Boétie, seria que toda e qualquer gente honrada considerasse a vida escravizada uma vida tão desprezível que estaria disposta ao maior dos sacrifícios para retomar a liberdade, como é o caso dos exemplos gregos que ele traz no texto. La Boétie evoca as famosas batalhas gregas do século IV a.C., em que os gregos, mesmo contando com poucos soldados frente ao enorme contingente persa, lutaram não apenas contra um povo, mas sobretudo por sua liberdade. Em Termóplias, por exemplo, Leônidas sabia que sua derrota era eminente, em razão de contar com 300 espartanos e poucos milhares de aliados que se juntaram a seu exército, na luta contra estimados 300 mil persas; durante a segunda invasão persa, Temístocles, o general ateniense, usou o estratagema de transferir todos os habitantes de Atenas para 200 navios, abandonando a cidade aos inimigos, dizendo ele: “abandonamos nossas casas e nossos muros para não sacrificar a liberdade” (In PLUTARCO, 1991, p. 245).

Estes exemplos demonstram como os gregos, mesmo diante da adversidade, da inferioridade bélica, não se curvaram aos pretensos dominadores, pois não se tratava apenas de batalhas, mas sobre morrer lutando pela liberdade.  O que estava em questão era a vitória da liberdade sobre a dominação, a manutenção desse bem tão fundamental que, uma vez perdido, faz brotar uma enxurrada de outros males.

Entretanto, o que se constata é que os homens abandonam a sua condição natural de homens livres para não só afirmarem a condição de servidão, mas também para acreditarem na naturalidade desta condição. Assiste-se a um povo insensato, obstinado no seu próprio mal e completamente cego ao seu próprio bem. Dele, tudo é tirado: os direitos, os bens, a renda, lhe restando o estado de orgulhosa miséria e orgulhosa ignorância, mas esta submissão deixa de ser sentida como obediência ou como desgraça e passa a ser sentida como conquista.

De tão enraizada na sociedade esta servidão se encontra, e com tanta facilidade encontra nos homens o voluntarismo para a ela se submeter, homens esses que creem se tratar de uma eleição livre, que pareceria ao leitor apressado que esta vontade obstinada de servir estaria no campo da naturalidade e, inversamente, o amor à liberdade seria algo não natural.

Mas não. Para La Boétie, se o homem vivesse tal como a natureza lhe ensina, ele não seria servo de ninguém. A natureza teria feito todos os homens iguais de modo que esses pudessem se reconhecer como irmãos, havendo sim, naturais diferenças entre eles, mas não a distinção natural de fortes a dominarem e fracos a serem dominados. Logo, o homem nasceria não só de posse de sua liberdade como também com a afeição para defendê-la.

Aliás, a indignidade da servidão voluntária, afirma La Boétie, não poderia ser suportada nem pelos próprios animais, que morrem ou lutam quando estão pra ser capturados e só às custas de muita resistência se tornam vencidos, não deixando, todavia, de lamentar a má fortuna e condição de cativeiro.  Nesse sentido, os próprios animais poderiam dar uma lição aos homens, posto que os primeiros, se servem, são por imposição e não por votade e, uma vez cativos, “continuam vivendo mais para lamentar sua liberdade perdida do que para se comprazer na servidão” (1982, p. 18).

A imagem ficcional do tirano

La Boétie diz que aquele que domina tem somente dois olhos, dois braços e dois pés, mas é imaginado como tendo milhares de olhos para tudo ver, inúmeras mãos para golpear e incontáveis pés para pisotear [3]. Ou seja, é o próprio servo que projeta, que cria uma imagem ficcional do tirano, que gera esta natureza monstruosa do soberano que tanto lhe amedronta e que, no limite, pode lhe aniquilar.

Esta imagem ficcional do tirano encontra no imaginário do homem dominado a cumplicidade cognitiva para manter seu lugar e sua força. Diz Lefort: “no corpo visível do tirano, que é apenas um entre outros, fixa-se a imagem de um corpo sem igual, sem réplica, a um tempo inteiramente separado daqueles que o vêem, … e que, vendo tudo, agindo em tudo, não deixaria subsistir nada fora de si” (1982, p. 141).

Ocorre que essa imagem ficcional ganha o status de realidade, numa ilusão tão gravosa em que o povo se torna traidor de si mesmo, procurando a sua fraqueza para que o seu opressor esteja cada vez mais forte. Eis as palavras de La Boétie: “semeais vossos frutos para que deles faça o estrago; mobiliais e encheis vossas casas para alimentar suas pilhagens; criais vossas filhas para que ele tenha com que embebedar sua luxúria; criais vossos filhos para que ele faça com eles o melhor que puder, leve-os em suas guerras, conduza-os à carnificina, torne-os ministros de suas cobiças e executores de suas vinganças; na dor arrebentais vossas pessoas para que ele possa mimar-se em suas delícias e chafurdar nos prazeres sujos e vis; ficais mais fracos para torná-lo mais forte e rígido mantendo mais curta a rédea” (1982, p. 16).

Como diz Deleuze, o homem que faz essa união sagrada entre o tirano e o escravo é o homem do ódio à vida, o homem da autodestruição que multiplica os cultos à morte, que estão sempre dispostos a mutilar a vida de forma lenta ou mesmo bruscamente, a sufocando de todo modo: com leis, com deveres, com propriedades, com impérios (2002, p. 18).

Tudo o que envolve a tristeza serve à tirania e à opressão. Por isso, tudo o que envolve a tristeza merece ser chamado como mau, pois nos separa da nossa própria potência. O remorso, a culpa, o pensamento da morte, a esperança, tudo isso significa impotência. Ou, para dizer como Nietzsche, é um triunfo de forças reativas, os instrumentos do niilismo (DELEUZE, s/d, p. 83). Estas são sempre as forças da negação e só se expandem reprimindo, aniquilando ou mutilando outras forças. É preciso esclarecer que não há como eliminar as forças reativas, pois isso seria uma outra forma de reatividade, mas é preciso não deixar que elas comandem a vida. Uma vida frustrada, medíocre, enfraquecida deve ceder lugar à vida corajosa, grandiosa, intensa, rica em diversidade. Ou seja, ao invés de ser dominado pelos dilaceramentos internos que diminuem o sujeito, é preciso escolher uma vida potente, afirmativa, a mais viva possível. Sem má consciência ou ressentimento,

O mau encontro

 Daí advém a pergunta fundamental da obra de La Boétie: “que mau encontro foi esse que pode desnaturar tanto o homem, o único nascido de verdade para viver francamente, e fazê-lo perder a lembrança de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?” (1982, p. 19). Ou seja, o que ocorreu aos homens de modo a fazer com que o seu desejo natural de liberdade fosse substituído por um amor pela servidão? Que mau encontro foi esse em que o homem ao perder a sua liberdade, perde sua humanidade? Como diz Clastres: “Mau encontro, realmente – que pode levar o homem a renunciar a seu ser e a lhe fazer desejar a perpetuação dessa renúncia!” (1982, p. 111).

Como explicar que o homem tendo sido feito para viver de forma livre venha a ser justamente aquele que se sujeita, coisa que nem mesmo os animais fazem sem, contudo, demonstrar resistência?

Chauí chama a atenção ao fato de que a intenção de La Boétie não é discorrer sobre a causa da tirania, mas sim sobre a origem do poder separado da sociedade, que graças a essa separação, a domina como uma força estranha e transcendente (2014, 125). Como foi pois possível aos homens livres escolherem um senhor? Em realidade, aqui aparecem duas questões: como homens livres se dispuseram livremente a servir e como a servidão pode ser voluntária? Que mau encontro seria esse que desnatura o homem a ponto dele não se lembrar de afirmar sua natureza genuinamente livre e igualitária?

Para La Boétie isso não foi obra da natureza, posto que essa é boa governante de todas as coisas e se recusou a fazer os homens servos – por natureza os homens são igualmente livre e companheiros.

7 A tirania

Haveria, segundo o autor, três tipos de tiranos: 1) os que obtêm o poder pela força de armas; 2) os que obtêm o poder pela sucessão de sua raça; 3) os que obtêm o poder pela por eleição do povo. Ou seja, a tirania aqui não se limita a uma única forma de governo ou à degeneração de uma legítima forma de governo. O tirano aqui não é o usurpador, não é aquele que exerce um poder ilegítimo, mas aquele que exerce o poder a partir da escolha dos homens e os homens escolhem e livremente aceitam um poder que se situa acima dele e ao qual ele deve se submeter[4].

Mesmo em uma democracia, isto é, em um regime de eleição livre, pode-se ficar sob a dominação de um tirano e, nesse caso, trata-se do pior dos tiranos, superando os demais em todo tipo de vício e crueldade, posto que só podem garantir seu lugar de tirano impondo aos homens a pior das servidões e anulando qualquer possibilidade de liberdade, incluindo aí sua mais remota lembrança.

Nesse sentido, Umberto Eco (2019), em uma conferência proferida em 25/04/1995, apresenta o seu conceito de Ur-fascismo ou fascismo eterno, cujas características não estão reunidas ou são próprios de um único modelo político, mas que estão pulverizadas pelos diversos modelos existentes ao longo da história. Desse modo, onde quer que uma dessas características apareçam, forma-se aquilo que o autor chama de “nebulosa fascista”.

Tais características são: o culto à tradição em consequência à ideia de que toda verdade já foi enunciada, não havendo nada a se produzir no campo do saber; a recusa à modernidade, enquanto recusa da mensagem iluminista do pensamento como força transformadora que tiraria o homem do obscurantismo e da tolice; a ação pela ação, sem qualquer reflexão, instituindo uma cultura castrada que torna toda e qualquer atitude crítica suspeita; a recusa a toda forma de desacordo ou divergência, que passam a ser vistos como traição; um natural medo da diferença, o que torna o fascismo, ao mesmo tempo, uma mentalidade racista, por definição, já que o diferente é um intruso, um sujeito que não é bem-vindo; a frustração social ou individual próprias das classes médias que percebem-se desvalorizadas frente às crises econômicas e sentem-se assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos; o nacionalismo ligado a uma teoria da conspiração possivelmente internacional que leva os seus seguidores a se sentirem sitiados e a justificar o apelo à xenofobia; o paradoxo do inimigo como forte e fraco ao mesmo tempo, dado que há o sentimento de humilhação pela força do assim considerado inimigo, ao mesmo tempo que a crença na capacidade de derrotá-lo; a vida em estado belicoso, o não pacifismo, porque o inimigo está sempre à espreita; o elitismo como ideologia, a ideia de que as massas são fracas e têm necessidade de um dominador; a crença de cada membro do fascismo nas suas qualidades excepcionais, que o distingue dos demais e o alça à condição de herói; o populismo qualitativo que faz com que se pregue a ideia de que os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, devendo o seu líder se apresentar como o intérprete único das suas vontades. Inclusive, é nesse sentido que os cidadãos se tornam tão passivos, seres que não agem ou reagem, porque são chamados apenas para assumir o lugar de povo, se tornando o que Eco chama de ‘ficção teatral’. Essa transformação do povo em uma ficção de povo contará, inclusive, com uma nova língua: um léxico pobre e uma sintaxe elementar, além da ausência do raciocínio complexo e crítico.

A todo momento podemos estar ameaçados por esse fascismo, daí Umberto Eco adjetiva-lo de eterno. Em razão disso, diz ele: “devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis… o Ur-fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada um de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo” (1995, p. 60-61).

 

8 Por que os homens se deixam sujeitar?

8.1 O costume

La Boétie afirma que a sujeição dos homens ou se dá pela força ou pela ilusão.  Na coação, a força do dominador faz o homem, contra a sua vontade, a servir o mais forte. Na ilusão, os homens são convencidos, o mais das vezes por si mesmos e não por outro, que a submissão é a sua liberdade. Tal ilusão é tão poderosa que “é incrível como o povo, quando se sujeita, de repente cai no esquecimento da franquia tanto e tão profundamente que não lhe é possível acordar para recobrá-la, servindo tão francamente e de tão bom grado que ao considerá-lo dar-se-ia que não perdeu sua liberdade e sim ganhou sua servidão” (1982, p. 20).

A primeira razão seria o hábito. Quem já nasce, é criado e educado sob o jugo, contenta-se em viver do modo que sempre conheceu e em realidade, nem consideram haver outra forma de viver, identificando seu modo de vida à própria natureza. “O costume… ensina-nos a servir – e como se diz de Mitridates[5] que se habituou a tomar  veneno – para que aprendamos a engolir e não achar amarga a peçonha da servidão” (1982, p. 20).

O hábito ou o costume funcionará como uma segunda natureza: “os humanos, inicialmente forçados ou iludidos, se acostumam a servir e criar seus filhos alimentando-os no leite da servidão, por isso que os que nascem sob a tirania não a percebem como servidão e servem voluntariamente, pois ignoram a liberdade. O costume, portanto, é o que nos ensina a servir” (CHAUÍ, 2014, 128).

Isso significa dizer que se gerações e gerações se habituarem a viver sob o regime da opressão, eles não mais identificarão suas vidas como vidas oprimidas. Será de tal modo naturalizado o confisco de suas liberdades que elas nem saberão que há que se lutar por ela e ainda se regozijarão dos afagos que eventualmente recebem, nem desconfiando que não precisariam suportar o mal.

 

 A alma pacificada

 

Em consequência dos homens nascerem e serem criados como escravos, decorre uma outra razão para a servidão voluntária: sob os tiranos, os homens facilmente se tornam fracos e covardes, perdendo, pois, junto com a liberdade, a própria valentia. Ou seja, a alma escravizada é por demais domesticada, sem conseguir exibir os atributos necessários ao combate. Como diz Deleuze, “o tirano necessita de almas despedaçadas como as almas despedaçadas necessitam de um tirano” (2002, p. 19). A alma passiva, disciplinada, docilizada, acostumada a obedecer, perde a vivacidade, a potência. Sabendo disso, será intenção do tirano manter todas essas almas prostradas, esmaecidas, de modo a não produzirem uma centelha sequer de ânimo de luta pela liberdade. Em uma palavra, produzindo um sequestro não do seu corpo, mas de sua alma, tirando-lhe a liberdade não do corpo, mas do espírito.

Um dos estratagemas utilizados pelos senhores para bestializar seus súditos é a utilização de subterfúgios lúdicos, que produzem distração e entretenimento, como fez Ciro com os Lídios. Ao dominar a Lídia, Ciro criou bordéis, tavernas e jogos públicos que cumpriram exatamente o seu papel de disciplinização dos habitantes de suas cidades, de modo a não necessitar nunca mais puxar a espada contra eles. La Boétie diz ainda que a palavra latina ludi que se refere a todo tipo de passatempo, tem origem aí, nos Lidi, que gastavam o seu tempo a inventar novos jogos e distrações.

Diz o autor que este tipo de artimanha juntamente com a sedução dos prazeres da boca experimentadas em reuniões públicas onde o povo se empanturrava, tem um efeito impressionante nos povos, funcionando como iscas de servidão, como ferramentas de tirania. Seduzidos por teatros, jogos, espetáculos, festas públicas e outras atividades desta natureza, os homens teriam suas almas adormecidas, domesticadas, continuando a servir ao tirano com gosto, completamente alienados do verdadeiro sentido de tudo isso, insensíveis ao erro e à dor vividos.

Assim, mesmo Nero, o imperador incendiário, homem por demais vil, recebeu a homenagem do povo romano que relembrava seus jogos e festins; Júlio César, outro imperador que revogou leis e a liberdade, embora cruel e selvagem tirano, também recebeu a homenagem em forma de uma coluna onde se lia “pai do povo”, certamente sendo lembrado por seus banquetes que inebriaram seus súditos.

Um outro estratagema utilizado pelos tiranos é o de parecer distinto dos homens comuns, apresentando-se como uma aura divina e mistificadora. Conta La Boétie que os reis da Assíria e os de Medéia se apresentavam ao público o mais tarde que podiam, deixando a população na dúvida se eram ou não homens; os reis egípcios mascaravam-se de mágicos, suscitando em seus súditos reverência e admiração; os epirotas acreditavam que o dedão do seu rei fazia milagres e curava os doentes e a história ainda foi mais enriquecida depois que tendo sido seu corpo queimado depois de morto, disseram que o dedão permanecia intacto entre as cinzas; de Vespasiano se dizia curar os coxos e trazia a visão aos cegos. Os tiranos assim, não são vistos como homens comuns com sede de poder e dominação, mas como homens que possuem mesmo uma  natureza distinta, incomum, mítica.

 

O escravo tirano – os tiranetes

 

Ainda que as razões acima elencadas tenham eficácia no processo de dominação,  registra-se na história homens que lutaram para recobrar a sua liberdade mesmo após longo período de dominação. Assim, para La Boétie, a verdadeira força da dominação, o  segredo maior da tirania reside ali onde não se imagina – não seriam os guardas, o exército, a fortaleza ou as armas que protegeriam os tiranos, mas na vontade de dominar que cada escravo guarda em si, ou seja, no desejo de cada dominado em se afirmar dominador, de cada obediente de ser obedecido, de cada tiranizado se tornar tirano. Dito em outras palavras, o poder do tirano viria da ampliação colossal que lhe dá o próprio corpo político.

“A pergunta que nos cabe fazer é: quem dá esse corpo político gigantesco, ubíquo, sedutor, malévolo? … Somos nós, ‘povos insensatos e miseráveis’, que lhe damos nossas mãos, pés, ouvidos e bocas, nossos bens e nossos filhos, nossas almas, nossa honra, nosso sangue e nossas vidas para alimentá-lo, para aumentar-lhe o poder com que nos destrói” (CHAUÍ, 2014, p. 128-129).

O homem consente em voluntariamente servir porque não deseja a liberdade ( LA BOÉTIE, 1982, p. 15) e porque espera também ser servido, servido pelo debaixo: cada um dá os bens e a vida pelo poder tirânico porque deseja apossar-se dos bens e das vidas dos que lhe estão abaixo. “A servidão é voluntária porque há desejo de servir, há desejo de servir porque há  desejo de poder e há desejo de poder porque a tirania habita cada um de nós e institui uma sociedade tirânica” (CHAUÍ, 2014, p. 129).

Eis aqui o mau encontro, o infortúnio, a desnaturalização do homem: não querer a liberdade – “um bem tão grande e tão aprazível que, uma vez perdido, todos os males seguem de enfiada. … Pobres e miseráveis povos insensatos, nações obstinadas em vosso mal e cegas ao vosso bem” (LA BOÉTIE, 1982, p. 15).

Portanto, não são as armas ou guardas que mantêm o tirano de pé: seriam quatro, cinco ou seis pessoas que a partir de uma cadeia sem fim manteriam o país inteiro em regime de escravidão (LA BOÉTIE, 1982, p. 32). Estes seis seriam os mais próximos do tirano, os cúmplices de suas crueldades, sócios de suas pilhagens que buscam o seu favor para adquirir bens. Cada um desses se tornam assim tiranetes de seiscentos que se encontram abaixo deles, numa reprodução da relação que estes têm com o tirano. Os seiscentos de baixo, por sua vez, teriam a baixo de si outros seis mil, e assim sucessivamente, de modo a chegar não apenas a sessenta ou seiscentos mil, mas aos milhões que compõem todo o povo dominado. Toda essa estrutura especular funciona como sustentáculo da tirania, havendo para cada tirano um sem número de tiranetes que subjuga os súditos das camadas inferiores, suportando o mal para poderem reproduzi-lo.

Diz Lefort: “a força da dominação consiste no desejo – em cada um, seja qual for o escalão que ocupe na hierarquia – de identificar-se com o tirano tornando-se o senhor do outro. A corrente da identificação é tal que o último dos escravos ainda se pretende um deus. Impossível, portanto, subestimar esse julgamento: a tirania atravessa a sociedade de ponta a ponta. Se é verdade que só há um senhor sob o qual todos os homens são escravos, essa verdade encobre uma outra: a servidão de todos está ligada ao desejo de cada um de portar o nome de Um perante o outro.” (1982, p. 166).

Estes tiranetes não apenas obedecem, mas buscam agradar ao tirano, de quem é a imitação, sentido prazer com o seu prazer, esvaziando-se de seu ser para se realizar no ser do tirano: “que deixem seu gosto pelo dele, que forcem sua compleição, que despem o seu natural, é preciso que estejam atentos às palavras dele, à voz dele, aos sinais dele, e aos olhos dele; que não tenham olho, pé, mão, que tudo esteja alerta para espiar as vontades dele e descobrir seus pensamentos” (LA BOÉTIE, 1982, p. 33).

 

 A experiência da Alemanha Nazista

 

A ideia do escravo tirano, descrita por La Boétie materializa-se com especial e cruel evidência na abominável experiência dos campos de concentração da Alemanha Nazista. Ao relatar seus dias como prisioneiro de Auschwitz, Primo Levi diz que existe duas categorias de homens: a dos que se salvam e a dos que afundam. Para encaixar-se na primeira categoria, um dos caminhos no Campo era tornar-se um “prominent”, um funcionário do Campo que gozava do benefício de desempenhar uma função especial.

Os proeminentes judeus também eram indivíduos em estado de escravidão, mas a quem é oferecido uma situação privilegiada, um certo conforto e uma boa probabilidade de sobrevivência em troca de se tornar, frente aos seus iguais, um opressor ainda mais cruel e odiado. O traço de “natural solidariedade” esperado por homens que compartilhavam a mesma miséria, destinados unicamente a obedecer e a sofrer (a dor indizível da fome, das doenças, do frio, da consciência mais viva da morte, das agressões, da destituição da existência, da humilhação), privados de tudo o que possuíam, desde os seus bens materiais até o seu nome, passando pelo silenciar na alma de muitos hábitos e instintos sociais, reduzidos a um vazio, esquecidos em dignidade, dá lugar a uma monstruosidade que aumenta à medida que o seu poder sobre os escravos também é aumentada. Diz Lévi: “quando lhe for confiado o comando de um grupo de infelizes, com direito de vida e morte sobre eles, será cruel e tirânico… Acontecerá, ainda, que a sua capacidade de odiar, frustrada frente aos opressores, se volta, insensatamente, contra os oprimidos; ele ficará satisfeito ao descarregar sobre seus subordinados a ofensa que recebeu de seus chefes” (1988, 133-134).

Primo Levi pergunta: É isto um homem?, da mesma forma que La Boétie pergunta: é isto viver? (1982, p. 35) Quanta indignação, quanta destituição de si, quanto desfalecimento da existência assiste-se nesse espelhamento perverso.

Em realidade, não são necessárias experiências limites para que se possa identificar o funcionamento de multiplicação de pequenos tiranos. Em cada lugar que o homem se encontra, mesmo no mais são e livre, há oportunidade para esse homem exercer, a seu modo, uma parcela de tirania. Em cada lugar há meios de se estabelecer uma relação especular em que cada um, por mais infeliz ou miserável que seja, pode submeter o outro  e é assim que a vontade de servir engendra uma sociedade tirânica de ponta a ponta que realiza a proteção do tirano. Ou seja, o tirano se sustenta no fato de que cada homem também deseja tiranizar.

 

O homem desnaturalizado

 

Se a liberdade é conforme a natureza humana e se os homens voluntariamente buscam a sua escravidão, em algum momento de suas vidas eles se deixam capturar por um processo de desnaturalização que de tão imperceptível a eles passa a ser percebido como a sua legítima natureza.

Chauí diz que não se trata propriamente de desnaturalização, mas de conformação a uma outra natureza: “posta como acidente e mau encontro – infortúnio – , a sociedade servil não é antinatureza, porém mudança da forma natural, não como perda de um estado anterior, mas como feição que a natureza humana toma quando deseja servir e nisso se acostuma” (2014, p. 73).

Freud, em sua obra Psicologia das massas e análise do eu, a partir das considerações sobre a obra de Le Bon intitulada Psicologia das multidões descreve como ao constituir-se como grupo, o sujeito recebe uma influência tão decisiva sobre a sua vida mental que chega a desnaturalizar-se enquanto sujeito, prontamente sacrificando seu interesse pessoal ao interesse coletivo (1976, p. 98). Trata-se de um estado de fascínio semelhante ao estado hipnótico (1976, p. 99) em que o homem se torna extremamente crédulo e aberto à influência, afastando-se de sua faculdade crítica (1976, p. 101).

Um grupo, diz Le Bon, “é tão intolerante quanto obediente à autoridade… quer ser dirigido, oprimido e temer seus senhores” (Apud FREUD, 1976, p. 102). Ou seja, ao se constituir como uma massa, o sujeito deseja a servidão, sem que qualquer argumentação ou racionalidade seja suficientemente capaz para combater esse estado de fascínio. Aqui exige-se a ilusão e já não se pode passar sem ela (1976, p. 104).

Afirma Freud: “um grupo é um rebanho obediente que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe” (1976, p. 105). Além disso, a multidão atribui aos líderes um poder misterioso e irresistível, que enche o sujeito de admiração e respeito, como se esse líder fosse engrandecido em sua composição tal como a imagem ficcional do tirano descrita por La Boétie.

Nietzsche, na mesma linha, diz que todos os doentes buscam se organizar em um rebanho, na ânsia de livrar-se do desprazer e da fraqueza – onde há rebanho há um instinto de fraqueza. O sacerdote, aquele aquele que vive da fraqueza dos homens, incentiva e organiza a formação do rebanho, fazendo da fraqueza uma associação (1998, III, 18). A organização gregária é um meio de manter a fraqueza dos homens e a tirania triunfante sobre eles.

 

 

 

Referências

 

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[1] Montaigne, por razões políticas, teve que adiar a publicação do manuscrito de La Boétie, escrito entre 1552 e 1553, inclusive alterando a data de sua composição. Assim, o texto teria sido publicizado por quatro diferentes caminhos: 1) duas cópias, praticamente idênticas, legadas aos amigos de Montaigne, chamados manuscritos De Mesmes e Dupuy que só foram descobertas no século XIX, tendo sido publicado a primeira vez em 1853; 2) uma edição parcial em latim surgida em 1574 em uma coletânea anônima; 3) uma edição completa de 1577 que apresenta incoerências com a edição de De Mesmes, acreditando-se assim que tenha sido adulterada; e 4) uma segunda edição completa de 1578 que acredita-se ter sido ainda mais adulterada, mas que serviu de base a todas as edições sucessivas do texto até a descoberta do manuscrito De Mesmes.

[2] Quando os sacerdotes abertamente se tornam políticos, quando formam uma “bancada evangélica”, essa associação está mais do que explícita. No Brasil, hoje, há uma Frente Parlamentar Evangélica composta por 203 dos 519 deputados do congresso. Nesta Frente, o predomínio é da denominação Assembléia de Deus, que conta com 92 parlamentares.

[3] Essa imagem remonta a Aristóteles que afirma que os reis dão a si mesmos muitos olhos, ouvidos, mãos e pés ao associar ao governo aqueles que são amigos do seu poder e de sua pessoa (Política, III, 1288a).

[4] Lembremos que a palavra grega Tyrannós não designa aquele que exerce o poder em nome da força, mas o que se mostra mais excelente que os demais em valentia, sabedoria, clarividência, habilidade. Isto é, alguém que é elevado acima dos demais, estabelecendo aí uma hierarquia na ordem do poder.

[5] Mitridates VI, rei de Ponto (atual Turquia), viveu no século I a.C. Ironicamente, tentou o suicídio com ingestão de veneno e fracassou. Seu nome dá origem à palavra mitridatismo que consiste na prática de tomar pequenas doses de veneno que não seja fatal a fim de fortalecer o corpo, produzindo assim um efeito de imunidade.