Os sonhos atribulados de Maria Luisa – parte 1

Cosmos e Contexto passa a publicar a partir de hoje capítulos dos Sonhos atribulados de Maria Luisa. 

 

Introdução

O pai de Maria Luísa, o doutor Luís, era físico. Mais especificamente, um cosmólogo.  Isso quer dizer que ele entendia de estrelas, de conjuntos grandes de estrelas – as galáxias –, até mesmo do Universo inteiro. Maria Luísa adorava seu pai e gostava muito das histórias que ele contava sobre seu trabalho. Cada uma mais maravilhosa que a outra! Ele falava, por exemplo, das máquinas do tempo que podiam levar ao passado; do mundo encantado do microcosmos, onde até mesmo as minúsculas partículas que constituem um átomo estão divididas em partes menores ainda. Também contava coisas muito estranhas que aconteciam na vizinhança do terrível Buraco Negro! Mas o que fazia Maria Luísa ficar mais excitada – e que a deixava divagando um longo, longo tempo – era quando ele falava do trabalho de que mais gostava: o estudo da criação do Universo! Do Big-Bang! Do que havia antes mesmo do Big-Bang, de onde teria saído todo esse nosso mundo!

O doutor Luís tinha uma grande dificuldade para falar sobre esses assuntos com a filha. Isso porque, segundo ele, Maria Luísa tinha muito bom senso – o que implicava ser muito difícil, para ela, entender os conceitos modernos da física. Especialmente os conceitos relativos àquelas regiões que estão fora do alcance de nossa percepção, isto é, no microcosmos, lá no interior mais íntimo da matéria, dentro dos átomos – bem como no outro extremo, o macrocosmos, para lá das estrelas mais longínquas, nas profundezas do Universo. “Aí, nessas regiões,” dizia ele “uma nova lógica se impõe, diferente do modo usual de descrever, de representar o cotidiano, os acontecimentos que percebemos em nosso dia-a-dia. É preciso criar um modo novo de pensar: não-newtoniano, com uma lógica mais próxima das fantasias com que convivemos, por exemplo, em nossos sonhos!” Mas qual era essa nova lógica, isso ele ainda não podia explicar para ela.

Depois dessas conversas, quando o pai saía, Maria Luísa ficava horas e horas no escritório dele, olhando e às vezes mexendo naqueles papéis que pareciam muito especiais, cheios de palavras e símbolos matemáticos dos quais ela não entendia nada.

Maria Luísa era uma menina muito esperta e inteligente. Muitas vezes ela tinha reações como se já fosse uma adolescente. Isso não era nada extraordinário. O que deveria ser considerado especial nela eram seus sonhos. Alguns deles eu relato a seguir, conforme ela mesma me contou.

Capítulo 1: Um sonho que não acabava mais

Maria Luísa tinha acabado de almoçar quando se lembrou que aquele era um dia especial. O doutor Luís raramente convidava seus amigos para trabalhar em casa, mas naquele dia tudo estava preparado para que os físicos – como a mãe os chamava – viessem discutir uma questão muito grave.

O primeiro a chegar, tocando a campainha várias vezes, foi o doutor Rosen. Ele ficara famoso porque tinha inventado uma ponte que levava para… o mesmo lugar, só que no dia anterior! Isso certamente a tornava muito especial. Era uma ponte não no espaço, mas no tempo! Fantástica mesmo! Imagina só. Deu vontade de fazer uma visitinha a você mesmo no dia de ontem? Nada mais fácil! É só atravessar a ponte e pronto, chega-se lá. Na mesma casa, na mesma sala, mas no dia de ontem.

Maria Luísa nunca tinha entendido essa história, mas como não queria demonstrar ignorância repetia, como todo o mundo, que “a ponte do professor Rosen é uma verdadeira máquina do tempo, uma das maravilhas da ciência moderna!”

Por pura distração, ela começou a imaginar que conversa teria com ela mesma, embora não atinasse com o que poderia se perguntar. “Eu, hein! Como posso perguntar alguma coisa que já sei? E, pior, para mim mesma! Já chega eu ter de cuidar de tanta gente. Uma a mais ia criar uma confusão grande por aqui”, pensou olhando em volta. Ela estava sempre dizendo que naquela casa só ela tinha tino e por isso tinha que mandar em tudo e em todos. “Estou sempre muito ocupada!”, dizia.

Mas, como naquele dia estava de excelente humor, dignou-se a pensar no diálogo entre ela-hoje e ela-ontem:

– Bom dia, Maria Luísa.

– Bom dia, Maria Luísa.

– Como passou seu dia?

– Bem, você vai ver já, já.

– Você acha que eu vou estar mais ajuizada ontem?

O verbo estava no tempo errado, mas como se tratava de uma situação em que o próprio tempo estava errado, ninguém poderia esperar que a concordância dos verbos fosse realmente necessária.

Nesse momento, antes que o diálogo fosse além, alguém tocou a campainha. Ela correu a atender. Era o doutor Gödel. Ela levou-o à sala onde já estavam seu pai e o doutor Rosen. Muito delicadamente, fazendo as honras da casa, perguntou se eles queriam comer ou beber alguma coisa. Sua mãe, dona Heloísa, tinha saído. Isso era inevitável: cada vez que os amigos do pai apareciam ela saía para dançar. Ela afirmava que não gostava muito de dançar, mas dizia sempre que fazia um grande bem para o coração, no que todos pareciam acreditar. O doutor Gödel era, como o doutor Rosen, famoso por uma construção. Ela não sabia bem qual, mas podia garantir que não se tratava de uma ponte. Ele era famoso por outras coisas. Parece que tinha inventado um jeito bastante prático de “dizer tudo”. De uma só vez.

Maria Luísa não entendia como alguém podia ficar famoso só por dizer tudo.

– Como não, amiguinha? Nós da Academia de Ciências sempre quisemos fazer isso. Você não sabe, mas temos tantos compromissos que quase nunca podemos dizer sequer o que queremos…, ouviu ela. Quem falava, melosamente e com um timbre de voz particularmente desagradável, era o doutor Panathos, um romeno naturalizado brasileiro, diretor do instituto onde o pai de Maria Luísa trabalhava. Tinha vindo acompanhar o doutor Gödel e, embora não tivesse sido convidado, ficara por ali para ver se poderia participar da reunião.

Por volta das 13 horas, doutor Luís tinha conseguido – sabe-se lá como – despachar o chato do doutor Panathos, e na sala já estavam Rosen, Gödel e o filósofo fluminense Ulpiano. Este foi o último a chegar.

No começo, ele não queria aceitar o convite. “Eu não sou físico” dizia. “Não entendo nada disso.” Mas o doutor Luís, que gostava muito dele, insistiu com uma meia-verdade: “Olha, Ulpiano, não fui eu quem sugeriu teu nome para formar parte dessa equipe, mas sim os outros dois.” Isso não mudou em nada a decisão dele. Até que o pai de Maria Luísa encontrou um argumento definitivo:

– Ulpiano, disse o doutor Luís, nós não estamos querendo ensinar nada. Só aprender.

Isso deixou Maria Luísa muito, mas muito, espantada.

– E eu que pensava que professores só ensinassem!, exclamou.

Em verdade, eles iam discutir o pânico que a possibilidade real de volta ao passado havia criado. Um jornal de grande circulação no país tinha até mesmo entrevistado o doutor Luís a respeito de uma declaração bombástica de um cientista americano, que aparecera na imprensa dos Estados Unidos afirmando que seria possível, em breve, produzir uma máquina capaz de permitir viagens ao passado. Na cidade inteira só se falava nisso.

Quando a reunião ia começar no andar de baixo, Maria Luísa pediu licença e foi se deitar um pouquinho.

Ela já parecia estar dormindo há um longo tempo quando se deu conta de que tinha voltado a ser hora do almoço! A princípio achou muito engraçado voltar de novo para o meio-dia, mas a comida de tia Querida – como ela carinhosamente chamava a irmã de sua mãe – era tão gostosa que almoçar de novo era certamente um prazer.

Depois disso, fazer as mesmas coisas de novo, ver acontecer tudo igualzinho como à tarde, poderia até ser engraçado. Mas à medida que o dia passava ela foi achando muito estranha aquela história de repetir tudo que já tinha acontecido. Como ela não sabia bem por que aquilo estava acontecendo, começou a sentir uma pontinha de medo. Que foi crescendo, crescendo…, mas um pouco antes de ela começar a gritar apareceram os amigos de seu pai. Eles procuraram acalmá-la, mostrando como era quase uma brincadeira agradável viver assim, voltando sempre ao mesmo dia, vendo a repetição dos mesmos acontecimentos um sem-número de vezes!

É verdade que havia vantagens bem óbvias. Essa história de voltar para trás no tempo levava, por exemplo, a não ter que se preocupar com a prova de matemática do dia seguinte. Essa era uma das grandes dificuldades dela: conviver com a ansiedade que uma prova escrita – principalmente de matemática, que ela sabia tanto – lhe causava. Em véspera de prova, era inevitável Maria Luísa acordar com a cama toda molhada. E com isso lá vinha a reclamação aflita da mãe: “Mas essa menina não cresce! Nessa idade, fazer xixi na cama!” E repetia, em um tom preocupado: “Isso tem que acabar. Isso tem que acabar.”

No entanto, aos poucos, aquilo de voltar ao mesmo lugar e no mesmo tempo começava a parecer extremamente aborrecido.

– Eu, hein!, disse Maria Luísa refletindo melhor. Imagina só se a única coisa a fazer no mundo for ter que recomeçar milhares de vezes a brigar com o Pedro Paulo – eternamente, pelo resto da vida!, falava, lembrando das inúmeras vezes por dia que brigava com seu irmão.

Aos poucos ela foi começando a achar que essa história de resto-da-vida devia ser muito tempo mesmo. Porém, por mais que tentasse descobrir um meio, não sabia como mudar tal situação. “Tenho que procurar sair desse dia”, pensou. Mas logo se lembrou de que já tinha pensado isso muitas e muitas vezes naquele mesmo dia…

– Ai!, disse ela. Se essa história continuar a se repetir assim vou ficar sabendo muitas coisas de hoje, vou virar uma especialista de hoje, mas não vou saber nada de amanhã. E como eu gostaria de já estar lá!

Ela se lembrava do que seu pai lhe dizia sobre estar no dia de amanhã – sem estar lá. “Estou ficando confusa”, pensou Maria Luísa.

Parecia que os cientistas tinham demonstrado que não se pode sair de um dia para entrar noutro antes de o dia anterior acabar.

– Mas até o seu Ricardo da padaria sabe disso, e ele não é cientista, falou em voz alta. Ela lembrou então que seu pai dizia que “todos nós, cientistas ou não, sabemos a ciência do bom senso, da dimensão do homem, daquilo que chamamos mundo newtoniano”, e que, em geral, só aparecem novidades curiosas, bem diferentes mesmo, em casos muito especiais, que não estão presentes em nosso dia-a-dia. “Um exemplo dessas situações estranhas, que não fazem parte de nossa experiência pessoal, ocorre quando alguém se movimenta em velocidades muito grandes, próximas da velocidade da luz, que é de aproximadamente trezentos mil quilômetros por segundo!”

Era um número bem grande mesmo. Ela tinha ouvido falar que até mesmo os relógios das pessoas que se movimentam nessas velocidades funcionam de um jeito maluco, muito diferente dos nossos! Mas o que é que isso tinha a ver com ela, Maria Luísa não sabia dizer. Colou o ouvido na porta e escutou. A voz parecia ser do doutor Gödel, mas ela não podia garantir. Não entendia nada de alemão. Felizmente seu pai volta e meia fazia comentários em português: “As- sim, os caminhos para trás no tempo, isto é, o que se costuma chamar de volta ao passado, são tão reais como é real, por exemplo, um átomo.”

Tudo isso ela já sabia. Uma noite, antes do jantar, doutor Luís lera à mesa um trecho do livro de seu amigo Novikov, físico como ele, que falava dessas coisas de voltar ao passado usando um caminho especial, que eles chamavam de caminho do passado. Dona Heloísa rira muito ao saber que o velho Novikov se dedicava agora a esse tipo de livro, que ela chamava de “ficção erudita”. Mas o doutor Luís não tinha gostado nada da brincadeira e afirmara que aquele livro era muito interessante, que se tratava de verdadeiro conhecimento científico.

– Eu penso em algum dia escrever alguma coisa tão séria quanto este livro, dissera, terminando a discussão.

Ele então explicara a Maria Luísa aquela história de voltar ao passado, dizendo que não era possível aqui na Terra, mas que lá longe, numa dessas estrelas muito grandes – ou muito pequenas, isso ela não se lembrava mais – podemos encontrar um caminho que leva ao passado! Explicara também que a tal ponte que o doutor Rosen tinha construído era, sem dúvida, motivo de orgulho; que se fazia romaria só para passar por ela, que as pessoas vinham de longe para admirá-la. E contara ainda que, na verdade, não tinha sido o doutor Rosen quem havia mandado construir a ponte – ele tinha feito só o projeto inicial. “Mas, você sabe,” dissera ele “quando se pensa uma coisa dessas, por mais estranha que pareça, logo surge alguém para pôr em prática!”

Enquanto ele falava, Maria Luísa pensava contente: “Eu vou andar por um desses caminhos e voltar ao passado só pra atrapalhar a prova do Guilherme. Eu vou ver qual a questão da prova e dizer a ele que não é preciso estudar esse assunto.”

Guilherme era uma das dificuldades – das maiores – no mundo de Maria Luísa. Moravam em casas geminadas, iam à escola no mesmo micro-ônibus, tinham nascido quase no mesmo dia e, a pior das coisas para ela, estudavam na mesma classe. Embora filho de pais psicólogos, Gui, como ela o chamava (e isso estava longe de ser um diminutivo carinhoso) se mostrava o mais das vezes bem pouco sociável, agindo quase sempre como um verdadeiro pequeno ditador, querendo impor a sua vontade e não raras vezes terminando qualquer brincadeira com um safanão. O que, devido à sua estatura privilegiada, constituía um risco para quem estivesse por perto.

Entretanto, Maria Luísa logo reconheceu que seria absurdo utilizar um resultado tão maravilhoso da ciência para objetivo tão mesquinho (mesmo que moralmente aceitável!). “Puxa, quase me comportei como um político!” disse para si mesma, imitando o pai, que costumava usar esse tipo de sarcasmo. Mas quando pensou na sua própria prova, Maria Luísa nem hesitou: “Vou atravessar agora essa ponte e consertar tudinho na prova de ontem. Se não for para mudar as coisas erradas, então para que serve essa tal de volta ao passado?” (Mal sabia ela que, se tentasse, logo descobriria que a caneta não a obedeceria e acabaria por escrever o mesmo que tinha escrito antes – o que, ademais, estava cem por cento correto.)

Assim, botou o pé na rua e lá se foi na direção da ponte. O movimento era grande. Parecia que todo o mundo estava ali. Para não andar sozinha, ela se atrasou e esperou pelo doutor Rosen. Caminharam um pouco juntos. Ela puxou conversa, querendo saber como tinha terminado a reunião com seu pai. Mas o doutor Rosen não fez nenhum comentário. Ele só apontava a ponte.

Quando estavam chegando perto, Maria Luísa perguntou:

– Vamos atravessar?

Ele fez um longo gesto com os dois braços, como se fosse preciso primeiro atravessar a ponte para depois falar.

Maria Luísa reparou que, do lado direito, preso na amurada, havia um grande cartaz com os dizeres:

Atenção!

Você está entrando na ponte.

Verifique bem o seu passado!

Do lado esquerdo havia um outro cartaz, de costas para ela, de modo que ela não conseguia ler. “Aposto que neste outro cartaz está escrito o oposto”, pensou. Mas quando passou por ele e conseguiu ler, ela se espantou de verdade:

Atenção!

Você está entrando na ponte.

Verifique bem o seu passado!

– Ué!, disse em voz bem alta. Afinal, nós estamos saindo ou entrando na ponte?

O doutor Rosen não fez nenhum gesto, nem comentário. De um lado e do outro da ponte haviam colocado pequenos vasos de flores. Maria Luísa reparou que elas cresciam em direções opostas.

– Assim elas vão acabar se encontrando, disse apontando para as flores. Mas o doutor Rosen continuava mudo.

Quando chegaram no meio da travessia Maria Luísa percebeu que ele se afastava mais e mais. Ela se esforçou para andar um pouco mais rápido, mas não conseguiu acompanhar-lhe os passos. Parecia que ele voava, tão rápido estava!

“Que será que deu nele?”, falou para si mesma. “Parece que está fugindo de alguém. E além disso, esse vento…” Realmente, um vento forte tinha acabado de começar.

Mal ela disse isso, viu que uma boa dúzia de velhinhos – que ela reconheceu, de uma antiga fotografia que ficava no alto da estante de seu pai, como sendo filósofos bem famosos – corriam, logo atrás dela, de mãos dadas com o professor Ulpiano. Todos falavam ao mesmo tempo, parecendo que cada um queria impor alguma verdade ao outro. As palavras eram pronunciadas muito rapidamente, como se estivessem sendo sopradas com força, quase cuspidas. O resultado final dessa confusão era precisamente este: eles estavam produzindo uma ventania!

– Caramba!, disse espantada. O professor Ulpiano trouxe todos os seus colegas!

Embora não ficasse claro se eles estavam correndo atrás ou à frente do doutor Rosen, uma coisa era certa: eles estavam sem dúvida se evitando! “Puxa! Parece que houve alguma coisa no passado entre eles…”, pensou. Com a ventania que os filósofos tinham provocado, a ponte estava completamente em desordem. As coisas estavam literalmente fora de ordem.

– Não faz mal. Vou acabar consertando tudo. Vou até voltar lá no passado e fazer eles serem amigos de novo, disse, como se fosse tão simples reatar amizades.

O professor Ulpiano parou a corrida, arfando.

– Um café, por favor, minha filha, pediu.

Mas, curiosamente, não esperou pelo café e seguiu de mãos dadas com seus amigos na direção da ponte. Eles continuavam falando todos ao mesmo tempo. Maria Luísa reconheceu a voz de um deles – mas não se lembrou de quem era – que repetia várias vezes:

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado…

Nesta ponte, quem caminha veloz para o futuro

se aproxima rapidamente de seu passado…

Embora não entendesse o que ele queria dizer com isso, ela ficou contente. “Ainda bem que eles estão se divertindo com outra coisa. Pelo menos não estão mais correndo atrás do doutor Rosen!”

O doutor Rosen estava tão confuso depois da cena com os filósofos que tremia a um canto, envolto numa imensa camiseta que lhe cobria totalmente o rosto.

– Desse jeito o senhor vai acabar batendo com a cabeça em algum lugar, alertou Maria Luísa. Mas parecia que ele não a escutava.

– É sempre assim quando estamos por perto, disse um dos filósofos. Ele não fala, fica mudo. Parece que não acredita em nada do que a gente diz, ou então tem medo, sabe-se lá do quê!

Maria Luísa achou que era uma atitude muito pouco amistosa. “Afinal, por que um cientista teria medo de falar com um filósofo? Preciso fazer alguma coisa para mudar isso”, pensou.

Mas isso poderia esperar por um momento melhor. Estavam todos ficando cansados da correria e o final da ponte parecia próximo. Quando enfim chegaram do outro lado, ela percebeu que tinham voltado ao começo! E mesmo sem que ela se desse conta do que estava fazendo, virou-se para o doutor Rosen e disse:

– Vamos atravessar?

Isso era curioso e desagradável, pois fazia a situação voltar ao estado inicial! “Se vamos repetir tudo de novo, preciso pensar em mudar pelo menos alguma coisa. Dessa vez vou prestar mais atenção ao que acontece.”

Então ela lembrou que, quase no finalzinho da ponte, alguém lhe oferecera uns versinhos. Muitos deles tinham se perdido, carregados pela ventania, mas ela salvara dois ou três. Pegou um ao acaso e leu:

Ontem eu vou molhar as flores

que colhi amanhã de manhã.

Quando eu chegar lá no passado,

vou escutar o que eu falei lá no futuro.

– Que versinho mais esquisito, o senhor não acha?, perguntou voltando-se para o doutor Gödel, que se aproximava.

Ele respondeu como se estivesse dando uma aula – e como se a pergunta fosse totalmente diferente:

– Claro, claro. Como você pode ver, há quatro tipos diferentes de comportamento:

  • Tipo A: aqueles que giram sobre si mesmos dizendo: “Eu não quero avançar no tempo. Vou ficar sempre aqui e agora”;

Como se fosse possível parar o tempo!, acrescentou em voz baixa.

  • Tipo B: os que querem sair logo da ponte e vivem reclamando: “Estamos perdendo tempo… estamos perdendo tempo…”;

Como se fosse possível perder o tempo!

  • Tipo C: …

Antes que ele pudesse falar do tipo C, os filósofos começaram a entoar uma canção, tão alto que encobria qualquer voz. Maria Luísa não conhecia aquela música, mas ficou fascinada. “Não sei por quê, mas essa musiquinha me agrada tanto…”

dlim dlom

dlim dlom

dlim dlom

Maria Luísa caiu abruptamente da cama. E num piscar de olhos se deu conta de que estava dormindo e tendo um sonho curioso…

Ela se levantou e desceu para a sala. Alguém tocava insistentemente a campainha! Olhou pela fresta e viu o doutor Rosen chegando na porta da frente. Por um instante se desesperou.

– Meu Deus! Voltei ao passado de verdade! Vai começar tudo de novo!

Mas o doutor Rosen tinha voltado somente porque esquecera seu cachimbo.

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Uma máquina do tempo constitui uma estrutura capaz de permitir a passagem de um corpo material (ou qualquer forma de energia) duas vezes por um mesmo ponto do espaço-tempo. Em linguagem simples, isso significa uma volta ao passado. Para entendermos o significado preciso disso, é necessário examinar a estrutura da geometria do espaço-tempo. Essa estrutura é determinada pelas forças gravitacionais, cuja descrição é feita pela teoria da Relatividade Geral. Uma tal descrição permite relacionar certas configurações de campos gravitacionais extremamente intensos à existência de caminhos que conduzem ao passado. Do mesmo modo, ela esclarece as razões pelas quais se torna impossível, na Terra e em sua vizinhança, a presença de tais caminhos para o passado: devido à fraca intensidade do campo gravitacional ali existente.

Os cientistas Nathan Rosen e Kurt Gödel foram os primeiros a produzir modelos teóricos dessas configurações gravitacionais nas quais caminhos para o passado poderiam existir. Essas estruturas são conhecidas como ponte de Einstein-Rosen e Universo de Gödel. Uma das propriedades mais notáveis desses caminhos, e em total contradição com o senso comum, consiste no fato de que, ao percorrermos uma dessas trajetórias, estando a cada instante nos dirigindo para o futuro, estamos igualmente nos aproximando de nosso passado. Uma tal asserção pode ser compreendida se pensarmos que o tempo não deve ser representado por uma linha reta infinita, como o senso comum o faz, mas sim por uma estrutura cíclica.

  • Velocidade da luz: a luz se propaga com velocidade máxima. Isso significa que nenhum corpo material ou energia pode se propagar com velocidade superior. O comportamento de relógios que funcionam a velocidades próximas à da luz possui uma série de propriedades novas que não aparecem em nosso cotidiano, uma vez que as velocidades com que convivemos são bastante inferiores àquela.
  • Fótons: são grãos de energia que se propagam como partículas sem massa andando à velocidade da luz. Sua energia é proporcional à sua frequência.

Autor

  • Professor Emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas (2012), publicou diversos livros de divulgação científica e mais de 150 artigos científicos em prestigiosos periódicos internacionais, e orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado no CBPF.