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O IRÃ VENCEU

Por César Benjamin 30 de junho de 202630 de junho de 2026

NADA SERÁ COMO ANTES

versão preliminar

1. Escrevo no momento em que se anuncia um cessar-fogo – ainda não assinado – entre Irã e Estados Unidos, envolvendo indiretamente Israel. Isso que pode interromper a guerra em curso, pelo menos por algum tempo. A instabilidade permanece elevada, e os desdobramentos ainda são imprevisíveis.

Segundo o noticiário internacional, o Irã obteve tudo: consolidou seu controle sobre o estreito de Ormuz, em condomínio com o vizinho Omã; eliminou parte significativa da presença militar norte-americana no Golfo Pérsico; manteve seus programas de mísseis e de enriquecimento de urânio; interrompeu a ofensiva de Israel no Líbano; receberá de volta as reservas internacionais bloqueadas; retomará a vida econômica sem as sanções que sofreu nas últimas décadas; terá garantias firmes de que não haverá novo ataque.

Não foi um acordo entre iguais. Quem acompanhou os acontecimentos e as declarações dos últimos meses sabe que o lado vitorioso impôs suas condições ao lado perdedor. Uma nova potência regional controla o Golfo Pérsico.

A opinião pública ocidental ainda não compreendeu como isso se tornou possível e o que nos espera. Sem ter armas nucleares, de onde o Irã retirou tanta força? Quais os desdobramentos desse resultado tão estranho às expectativas iniciais?

As respostas estão na própria sociedade iraniana.

2. A teia de mitos que alimenta os noticiários sobre o Irã formou uma espécie de senso comum que ninguém pode desafiar: a República Islâmica adota uma ideologia religiosa obscurantista; é uma ditadura que se impõe pelo medo; intrinsecamente agressiva e irracional, não é propensa ao diálogo; pretende acumular força militar, inclusive nuclear, para destruir Israel; deve ser sancionada e isolada.

Essas ideias são transmitidas todos os dias, não só pelas notícias em si, mas pelo vocabulário escolhido. Por exemplo, não se reconhece um sistema político no Irã. Lá vigora uma teocracia, o “regime dos aiatolás”, com toda a carga negativa implícita nesta expressão.

Ao adotar esses pontos de vista há tantos anos, as potências ocidentais assimilaram e difundiram a ideia de que um grande confronto era questão de tempo. Os ataques dos Estados Unidos (Operação Fúria Épica) e de Israel (Operação Rugido do Leão) em 28 de fevereiro de 2026 realizaram uma profecia autorrealizável.

O primeiro golpe matou o líder supremo e 40 altos dirigentes civis e militares. Além da destruição da infraestrutura militar do país, o desdobramento previa um colapso institucional, a quebra das cadeias de comando, uma luta pelo poder, revoltas populares e, no limite, uma guerra civil. Conflitos étnicos desempenhariam papel importante, sempre em nome da liberdade. Dos 92 milhões de iranianos, 61% são persas, 16% azerbaijanos, 10% curdos, 6% lures, 2% árabes, turcomanos e balúchis, além de outras etnias menores.

A exacerbação dessas diferenças em uma situação de crise aguda e paralisia decisória permitiria fatiar e fagocitar o último Estado autônomo e íntegro do Golfo Pérsico. O triunfo dos representantes da civilização ocidental estaria completo na região, com Israel passando a lidar apenas com governos falidos ou vassalos.

3. Deu errado. Tendo compreendido qual era a dinâmica do processo em curso, o Irã havia se preparado. Em vez de submergir em confusão e derrota, emergiu mais forte, apesar dos maciços bombardeios que sofreu. Todas as substituições de autoridades ocorreram como previstas na Constituição, com presteza, sem hesitações (descobrimos, então, que havia ali um Estado constitucional forte, não uma ditadura disforme). As forças armadas mostraram unidade, coragem e alto grau de preparo para o tipo de guerra adequado à geografia local e à assimetria de forças. O povo apoiou maciçamente a resistência.

Os iranianos venceram a coligação atacante, que reunia a maior potência militar e o melhor Exército do mundo. O segredo disso é quase óbvio: eles sempre souberam que a força de uma Nação não está principalmente nas armas ou na infraestrutura física, mas em dois elementos imateriais, por isso indestrutíveis: os sentimentos profundos e as capacidades culturais da população.

Para entender o que ocorreu, precisamos reconhecer a excepcionalidade da sociedade iraniana.

4. Berço de civilizações milenares, a configuração política do Oriente Médio é uma criação recentíssima. Resultou de decisões tomadas pelas nações vitoriosas na Primeira Guerra Mundial, especialmente Inglaterra e França, que repartiram o Império Otomano (1299-1922), a única potência muçulmana que desafiou a hegemonia europeia no mundo moderno.

Novos países foram fabricados na Europa a partir da década de 1920. A Inglaterra inventou o Iraque e a Jordânia, traçou as fronteiras entre a Arábia Saudita e o Kwait, transformou o Egito em protetorado e deu abrigo, na Palestina, a um Lar Nacional Judaico, precursor de Israel. A França decidiu a atual configuração da Síria e do Líbano. Os curdos foram deixados sem Estado próprio.

Parte significativa do Oriente Médio foi dividida, basicamente, entre duas famílias, que deveriam inaugurar dinastias. Tudo traçado em mapas, com réguas, em Londres e em Paris.  Consideradas despreparadas para o exercício da soberania, as sociedades locais foram submetidas a permanente pressão militar.

Mas a nova empreitada colonial da Europa mostrou-se pesada demais. Esgotado pela guerra, o continente estava enfraquecido diante de concorrentes novos, os Estados Unidos de Wilson e a União Soviética de Lênin. Não conseguiu controlar uma região tão extensa, onde há mais de mil anos as sociedades se organizam de modos específicos, seguindo uma Lei Sagrada que governa toda a vida.

As mudanças trazidas de fora para dentro não geraram uma configuração estável. Depois da partilha colonial, permaneceram pulsantes não apenas disputas de fronteiras ou rivalidades econômicas, mas questões muito mais fundamentais, como o próprio direito à existência das entidades políticas regionais. Ainda hoje, não há acordo sequer sobre as regras do jogo. Guerras de sobrevivência continuam na ordem do dia, com possibilidades renovadas de criação e extinção de países. Até mesmo a ideia de que Estados nacionais leigos são o fundamento da legitimidade política não tem raízes autóctones.

5. Houve duas exceções, construídas a partir de realidades históricas e de movimentos endógenos. A Turquia, orgulhosa metrópole otomana, conquistou com sangue o direito à existência. O Irã, herdeiro da antiga Pérsia, preservou sua civilização, embora tenha sido reduzido politicamente, por décadas, a um protetorado inglês. Sua história recente é um passo a passo em direção a uma independência real, em um ambiente sempre inamistoso.

O país tem sido historicamente acossado, seja por sua localização, seja por seus recursos. Mesmo antes da era do petróleo, foi o centro do chamado Grande Jogo, que opôs os imperialismos inglês e russo no século XIX, pois é um hub natural do continente eurasiano, com fronteiras terrestres, marítimas ou costeiras com 15 países. Tem litorais no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no Mar Cáspio. Em 1907, foi dividido em esferas de influência da Inglaterra e da Rússia.

Em 1926, já por causa do petróleo, os britânicos promoveram a ascensão do xá Reza Pahlavi ao trono e depois, em 1941, de seu filho Mohammad Reza. O país tem a terceira maior reserva mundial de petróleo e a segunda maior de gás natural. Os lucros da Anglo-Iranian Oil Company, monopolista, eram divididos em duas partes para a Inglaterra e uma para o Irã.

6. No segundo após-guerra, os Estados Unidos substituíram a Inglaterra e a França como potência dominante na região. Depois de conseguir concessões exclusivas de poços na Arábia Saudita, as empresas norte-americanas passaram a mirar o Irã. Obtiveram o butim em 1953, com um golpe de Estado que matou o primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh. Mantiveram a dinastia dos Pahlavi, que passou a usar repressão selvagem e incentivar a ocidentalização dos costumes, faces complementares do mesmo projeto.

Até hoje, a imprensa aponta essa ocidentalização como o fator positivo do governo do xá, mas era justamente isso que os iranianos detestavam. O projeto ocidentalizante exigia um governo autoritário.

Uma onda revolucionária surgiu em 1979, quando não havia nem crise econômica nem derrota em alguma guerra. As forças armadas e o poderoso aparelho repressivo estavam intactos. Mesmo assim, o nacionalismo e o islamismo levaram multidões às ruas.

O Islã não separa religião e política. É um sistema abrangente, em que indivíduos, sociedade e Estado são indivisíveis. Construir uma sociedade justa, em que todos sejam tratados como criações divinas, faz parte da busca de Deus.

7. Ficaremos menos chocados com isso se reconhecermos que o modelo ocidental é, antes de tudo, uma criação histórica. Na aurora da modernidade europeia, a Reforma Protestante se desdobrou em guerras religiosas muito sangrentas que duraram mais de cem anos. Católicos, luteranos, calvinistas, anabatistas e anglicanos lutaram na atual Alemanha, na França, nos Países Baixos, nas Ilhas Britânicas, na Escandinávia e na Suíça. Para terminar com a guerra de todos contra todos foi necessário instituir um poder que não tomasse partido em disputas religiosas e morais. Ele deveria se situar acima das partes em litígio, estabelecendo regras mínimas de convivência entre pessoas e grupos. Sua legitimidade viria tão somente de capacidade de garantir a paz.

Entre o Tratado de Westfalia (1648) e o Congresso de Viena (1815) nasceram, na Europa, o Estado moderno, laico, e o sistema interestatal. Separaram-se dois eixos que até então estavam misturados, com as crenças religiosas e morais sendo remetidas à esfera privada e a política ficando submetida à razão de Estado. Estabeleceu-se, então, a ideia de que a modernização produz necessariamente secularização da vida social e da cultura. Essa condição, somada à implantação de uma democracia baseada em partidos, definiria uma ordem política legítima. Tal processo histórico específico tornou-se uma receita universal.

O mundo muçulmano trilhou outros caminhos.

8. O islamismo vê Maomé como o último de uma longa linhagem de homens que receberam diretamente a palavra divina, aquele que confirma e conclui a missão dos profetas que o antecederam, inclusive Jesus. Nascido em torno de 570, ele recebeu a primeira revelação em 610 e começou a pregar publicamente três anos depois. Combateu o politeísmo que predominava na península Arábica. Meca era o ponto de encontro de tribos e clãs que ali cultuavam suas divindades, faziam comércio, resolviam disputas e estabeleciam acordos. Hostilizado ali, emigrou para Medina em 16 de julho de 622, data que viria a marcar o começo do ano 1 na cronologia islâmica. Organizou uma comunidade de fé que transcendia a lealdade familiar e tribal. A consciência vertical de um só Deus fundamentava uma solidariedade horizontal entre as pessoas.

A partir de Medina, Maomé unificou tribos e comandou a tomada de Meca, assumindo o controle do mais importante santuário das antigas religiões da Arábia. O antigo centro da Caaba converteu-se em lugar de adoração de um Deus único e de peregrinação.

No final da vida, o Profeta dedicou-se a consolidar e expandir a umma, a comunidade islâmica. A confissão de fé, a oração ritual, a caridade, o mês de jejum e a peregrinação tornaram-se os cinco fundamentos do Islã, que significa completa submissão e entrega a Deus. Nessa condição, aspira a ser uma atitude vital que tudo abarca, fundindo religião, costumes, cultura e política. É um monoteísmo radical. Não tem sacerdócio, sacramentos, altares, imagens, santos, músicas solenes, cantos, velas, procissões ou dramas sacros. Todos participam de maneira ativa na oração comunitária, com os lábios e o corpo, orando em uníssono com os mesmos gestos e as mesmas palavras. Um leigo respeitado pode dirigir a oração, e as pessoas escolhem aqueles a quem desejam seguir.

9. Depois da morte de Maomé, em 632, o Islã teve uma expansão fulminante, sem contar com uma autoridade central. Assim como o mundo cristão, também experimentou conflitos religiosos, mas eles não chegaram a tomar a forma de uma guerra civil generalizada que exigisse um fim institucional, por tratado. A principal divisão se estabeleceu logo depois da morte do Profeta, em torno da sua sucessão na liderança da umma. Ela opõe até hoje sunitas, que defendiam a escolha consensual e livre de um novo líder, e xiitas, que defendiam a primazia da família do Profeta. Em 680, Hussein, neto de Maomé, foi morto na batalha de Karbala, no atual Iraque, inaugurando a ideia de martírio no imaginário xiita.

Sede de uma civilização imponente, berço da cultura persa e de um mosaico de religiões antigas, o atual Irã foi rapidamente conquistado e lentamente islamizado pelos xiitas a partir do século VII, em uma das grandes transformações culturais da história. Ela resultou no xiismo iraniano, com suas especificidades, que deu ao mundo filósofos, cientistas, linguistas, poetas, arquitetos e artistas de grande qualidade.

A vertente wahabi do islamismo sunita, que predomina na Arábia Saudita e deu origem a Talebã no Afeganistão, rejeita quase completamente a Modernidade, mas a maioria das outras vertentes, tanto sunitas quanto xiitas, não reproduz esse padrão. Ao contrário, elas gostam de recordar que a supremacia econômica, científica e militar do Ocidente no mundo moderno se baseou na apropriação de conquistas antigas da civilização islâmica, a cujas tradições desejam retornar. Uma dessas tradições é a da tolerância. O antissemitismo, por exemplo, é um fenômeno típico do mundo cristão.

10. Retornemos ao Irã contemporâneo. O ano de 1979 foi vertiginoso. Em janeiro, o povo ocupou as ruas, movido pelo nacionalismo e o islamismo. Em 1 de fevereiro, Ruhollah Khomeini, principal referência do xiismo iraniano, retornou de um exílio de 15 anos, sendo recebido em Teerã por milhões de pessoas. Dez dias depois, o xá fugiu e a monarquia foi abolida. Em março, um referendo mostrou forte apoio popular à mudança. Em agosto, foram eleitos os delegados que redigiriam a nova Constituição. Em dezembro, ela recebeu 98% dos votos em um referendo popular. O primeiro artigo declara que “a forma de governo do Irã é a de uma República Islâmica”, expressão que é um oxímoro para o pensamento político ocidental. Trata-se de uma ordem política completamente nova.

A Revolução Iraniana não foi impulsionada pela burguesia, o campesinato ou o proletariado, os protagonistas clássicos das revoluções que estudamos; não foi conduzida por um partido político ou por intelectuais como os nossos; não reivindicou nenhuma teoria política consagrada no Ocidente. Sem saber como enquadrá-la, tivemos dificuldades em reconhecê-la, e a especificidade do regime político que nasceu ali continua ignorada. É um duplo erro.

Ela foi gestada nos centros tradicionais de vida comunitária e nas redes religiosas de comunicação. Teve um líder extraordinário, reconhecido assim em vida e descrito como um monstro no Ocidente. Foi Ruhollah Khomeini, que desde o início da década de 1960 era um “grande aiatolá”, a mais alta posição no xiismo. Provavelmente, foi a figura mais inovadora do pensamento islâmico contemporâneo, autor de enorme obra em teologia, filosofia, lei religiosa, política e poesia. Sua memória exerce até hoje grande influência.

11. Ao retornar a Teerã, Khomeini trouxe um anteprojeto de Constituição longamente amadurecido no exílio europeu e que serviu de base para o que veio depois. Surgiu algo novo, diferente das democracias e dos despotismos que conhecemos. A arquitetura política do país combina elementos clássicos de participação e divisão de poderes, de um lado, e a decisão de proteger o Islã como base da sociedade iraniana, de outro. Os poderes do Estado são tripartidos, como Montesquieu desejava. Diz a Constituição: “Os poderes do governo da República Islâmica consistem no Legislativo, no Judiciário e no Executivo, independentes uns dos outros. Os assuntos do país devem ser administrados com base na opinião pública expressa em eleições.”

Os integrantes do Legislativo e do Executivo são eleitos diretamente, e os candidatos não precisam ser clérigos. As eleições, disputadas em dois turnos, são muito competitivas. Em 2024, por exemplo, Masoud Pezeshkian, reformista, recebeu 53,7% dos votos no segundo turno, contra 46,3% para Saeed Jalili, ultraconservador. O presidente da República recebe um mandato de quatro anos, com direito a uma reeleição. Tem os poderes de um chefe de governo.

A Assembleia Nacional [Majles] tem 290 deputados, também eleitos para mandatos de quatro anos. Ela elabora o Orçamento, estabelece regras administrativas, ratifica tratados, aprova as nomeações de ministros e pode destituí-los, supervisiona todos os assuntos do país e pode abrir processos de impeachment contra o presidente. Legisla em todos os assuntos, tendo como limites a Constituição e as diretrizes fundamentais do Islã. Pouco mais da metade dos assentos provém de distritos definidos geograficamente conforme a população, cada um deles elegendo um deputado. Grandes cidades elegem mais de um deputado, e nelas os residentes podem votar em um conjunto deles (em Teerã, por exemplo, cuja região metropolitana concentra 18% da população total do país, os eleitores votam em até trinta vagas). Há assentos reservados às minorias étnicas reconhecidas, como as comunidades cristã, zooastriana e judaica.

Khomeini praticamente não usava a palavra democracia, que considerava ocidentalizante, mas usava seguidamente as expressões “governo consultivo” e “participação popular”. Considerava que identidade e segurança formam um binômio indissociável, o que aumentava a importância política do Islã para além de questões estritamente religiosas e doutrinárias. Considerava que a multiplicação de Estados artificiais no Oriente Médio tinha sido uma forma de dividir o mundo muçulmano, impossibilitando a umma. Sempre enfatizou que clérigos versados em jurisprudência religiosa deviam supervisionar as instituições: “O governo pode permanecer sob o controle de qualquer pessoa, mas deve ser administrado conforme a lei de Deus, pois o bem-estar do país e do povo assim o exige.”

12. A partir desse ponto de vista, a Constituição iraniana criou cargos e instituições estranhas à democracia ocidental. Os mais relevantes são o velayat-e faqih e o Conselho de Guardiães. O primeiro, que normalmente traduzimos como líder supremo, é um jurista reconhecido como “justo e piedoso”, marja-e taqlid [fonte de emulação], profundamente versado na lei islâmica e dotado de grande autoridade moral. É indicado e controlado pelos 88 membros da Assembleia de Especialistas, que, por sua vez, são eleitos pelo povo a cada oito anos. Recebe uma autoridade política e religiosa vitalícia, mas pode ser afastado pela Assembleia em situações excepcionais. Tem os poderes de um chefe de Estado. Comanda as principais forças militares, nomeia os chefes do Judiciário, conduz a política externa e indica a metade dos membros do Conselho de Guardiães. Não participa de campanhas eleitorais nem declara apoio a candidatos.

O Conselho tem doze membros, incluindo seis “fuqaha [especialistas] justos”, escolhidos pelo velayat-e faqih, e seis juristas eleitos pelo próprio Majies, com notório saber em diferentes áreas do direito. Destina-se a proteger a Constituição e as diretrizes do Islã, assegurando que a legislação aprovada pelo Majies não entre em conflito com elas. Também supervisiona as eleições, confirmando ou negando as pré-candidaturas. Essas decisões são públicas permitem recursos. Os candidatos devem ter vida limpa e aceitar os princípios da Constituição iraniana.

13. Muitos consideram que essa exigência mostra que não há liberdade, mas ela chega a ser trivial. Ninguém assume cargo político nos Estados Unidos, por exemplo, se não jurar fidelidade à Constituição. Em nossas democracias, a seleção das candidaturas se faz nas estruturas partidárias que frequentemente, como se sabe, seguem as diretrizes do poder econômico ou de poderes afins, que operam nos subterrâneos da política. Não há esse filtro no Irã. Os candidatos se lançam individualmente ou são apoiados por entidades, agremiações e movimentos que não precisam ter existência permanente. Em 2005, por exemplo, Mahmoud Ahmadinejad chegou à presidência à frente de um movimento recém-criado que reunia veteranos de guerra insatisfeitos com os rumos da política.

É comum que mais de 1 mil cidadãos se inscrevam para concorrer à Presidência da República. Assim, o Conselho de Guardiães cumpre um papel fundamental para a funcionalidade do sistema político, ao aprovar em torno de seis e oito deles pelo currículo e pela história de vida, buscando abranger as principais correntes consideradas legitimas do espectro ideológico da República. Há debates televisionados entre duplas de candidatos, que apresentam pontos de vista diferentes.

É comum ouvir iranianos dizerem que têm mais opções políticas do que as oferecidas pelo sistema bipartidário dos Estados Unidos. Candidatos independentes e com plataformas reformistas vencem muitas vezes até mesmo eleições presidenciais, como ocorreu com Mohammad Khatami, Mahmoud Ahmadinejad e, mais recentemente, Masoud Pezeshkian, o atual presidente, um cirurgião cardíaco, prestigioso integrante da comunidade científica, considerado reformista. Ele não era o preferido do estamento religioso. As forças militares, inclusive a milícia Basij, são proibidas de participar de atividades políticas.

14. A grande maioria do povo iraniano sente-se representada, como se pode ver pela alta participação nas instâncias eletivas. A arquitetura do sistema impede que o poder se feche e se afaste do sentimento da população. Ao contrário do que acontece na Arábia Saudita e nas demais monarquias petrolíferas sustentadas pelo Ocidente, há debate, contestação e alternância. Ninguém desfruta de poder absoluto, nem mesmo o velayat-e faqih. Não há nenhuma ponta solta entre os inúmeros centros de poder. Controles recíprocos, ou pesos e contrapesos, percorrem todo o sistema. Jornais reformistas sempre estiveram disponíveis de forma ampla.

A ilegitimidade da República Islâmica é um mito. Seus mecanismos de defesa são desenhados para impedir situações de instabilidade que comprometam a identidade e a autonomia decisória do país. Estes são dois pontos centrais, que Khomeini sempre enfatizou: um abismo separa países que formulam suas políticas de modo independente, ou seja, têm autonomia estratégica, e os que estão privados desse direito. A política iraniana combina permanentemente identidade, soberania e participação popular. A defesa do Islã serve de amálgama a essas três dimensões complementares.

A memória de uma longa sequência de interferências estrangeiras e de regimes fantoches faz os iranianos serem muito sensíveis ao tema da soberania. Qualquer movimento político considerado uma representação de poderes externos fracassa, mesmo que fale em nome de uma pretensa modernidade secular.

15. Visto a partir do Irã, o mundo sempre esteve cheio de ameaças. O país foi invadido durante as duas guerras mundiais. Em 1953, os Estados Unidos derrubaram um governo eleito democraticamente. A memória desses episódios permanece viva. Entre 1979 e 1981, em plena turbulência revolucionária, estudantes ocuparam a embaixada norte-americana em Teerã durante 444 dias, fazendo 52 diplomatas como reféns, para interromper supostos preparativos para um novo golpe de Estado, articulado por espiões que trabalhariam a partir dali.

Em setembro de 1980, durante a ocupação da embaixada, o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irã com apoio dos Estados Unidos, da Europa e das monarquias petrolíferas para abolir a República Islâmica recém-fundada. A estratégia era obter uma vitória rápida, aproveitando a instabilidade política típica de uma revolução e a pouca profundidade estratégica do território iraniano, ou seja, a pequena distância entre as fronteiras externas e os principais centros econômicos e populacionais do país. A resistência surpreendeu. A invasão se transformou em uma carnificina semelhante às da Primeira Guerra Mundial, com trincheiras extensas, ataques em ondas humanas e uso de armas químicas, cedidas pelo Ocidente, que dizimavam populações.

Khomeini proibiu que o Irã retaliasse na mesma moeda. Segundo ele, armas de destruição em massa eram contrárias aos princípios islâmicos. A defesa só usou armas convencionais. O país mobilizou 3 milhões de combatentes do Exército regular e formou duas novas instituições de defesa, a Guarda Revolucionária, que se transformou em uma tropa de elite, e as milícias Basij, que até hoje agrupa jovens voluntários. Todos suportaram enormes baixas. Entre 1 milhão e 1,5 milhão de iranianos morreram em uma população total, na época, de 39 milhões de habitantes. O PIB per capita do país caiu para a metade. Oito anos depois a paz foi selada sem nenhum ganho territorial para o Iraque.

Foi uma séria ameaça à existência da República Islâmica. Afetou profundamente a sociedade e foi decisiva na formação da geração que ainda governa o país. Ali Khamenei, que veio a suceder Khomeini como velayat-e faqih, lutou no front. Foi nessa época que o Irã decidiu que passaria a produzir todos os armamentos de que necessitava, inclusive os mais sofisticados, e toda a sua alimentação. Começou a se preparar para uma futura guerra ainda maior.

16. As potências ocidentais continuaram sem reconhecer a legitimidade da Revolução. Sempre tiveram grande margem de manobra em uma região tão instável. Hoje, o entorno do Irã inclui Estados em colapso (como a Síria e o Iraque), grandes conflitos étnicos (como o do Curdistão), países muçulmanos sunitas (como Arábia Saudita e Paquistão) e potências nucleares (Israel e Paquistão). Além disso, Estados nacionais não são os únicos atores relevantes. Grupos paramilitares extensos, com apoios externos, são presença constante. Muitos governos não controlam completamente os seus territórios.

Nenhum dos vizinhos é um aliado natural do Irã. Vários já assumiram posições antagônicas e foram usados como plataformas de ataque ao país. Afeganistão e Iraque sofreram longas intervenções militares. Até a guerra em curso, 19 bases norte-americanas vigiavam o Irã, com cerca de 50 mil militares, centenas de aeronaves de combate e defesa antimíssil, além de instalações na Jordânia, no Mar Vermelho e no Mediterrâneo, dois porta-aviões, com suas esquadras de apoio, e quatro submarinos nucleares, cada um com 154 mísseis de cruzeiro.

17. Falhada a alternativa da guerra convencional, começou a política de apoio a organizações desagregadoras, assassinatos seletivos, isolamento internacional e sanções econômicas. As empresas iranianas foram desligadas do sistema internacional de pagamentos (SWIFT), controlado pelos Estados Unidos, deixando de operar no comércio exterior. As reservas internacionais do país foram confiscadas. Empresas e bancos de terceiros países ficaram expostos às chamadas sanções secundárias, consideradas ilegais pela OMC, se aceitassem transacionar com o Irã. A União Europeia também decretou uma proibição total de importações de petróleo iraniano. O descontentamento popular foi estimulado de várias maneiras, inclusive com ataques especulativos contra a moeda nacional para aumentar a inflação. Ocorreram dezenas de assassinatos seletivos, principalmente de militares e cientistas.

Essa situação se prolongou tanto nas administrações republicanas quanto nas democratas. Não é segredo de Estado. Em 22 de outubro de 2012, na campanha de reeleição, Barak Obama se vangloriou em um debate de televisão com Mitt Rommey: “Nós impusemos as sanções mais severas da história contra o Irã. Isso está paralisando a economia deles. A moeda deles já se desvalorizou em 80%. A produção de petróleo despencou para o nível mais baixo desde a guerra com o Iraque, há vinte anos. A economia deles está em frangalhos.”

As sanções a que o presidente Obama se referia não partiram da ONU, mas do Congresso dos Estados Unidos, por pressão do famoso lobby sionista, cerca de 90 organizações que atuam de três maneiras principais: pressão direta sobre os poderes Executivo e Legislativo em Washington, influência sobre a opinião pública e informação sistemática aos doadores de campanhas sobre as posições dos candidatos. O eterno argumento, no  caso do Irã, sempre foi a questão nuclear.

18. Vimos que Ruhollah Khomeini apresentou motivos religiosos e morais para proibir a produção e o uso de armas de destruição em massa pelo Irã em plena guerra de 1980, quando o país estava sendo atacado com armas químicas. Sempre se referiu a elas com a expressão haraan [proibidas por Deus]. Promulgou sobre isso uma fatwa [decreto religioso], que tem peso de lei.

Depois, mais de uma vez, Khomeini reafirmou a proibição de armas nucleares, decisão que se tornou doutrina do Estado iraniano. Em fevereiro de 2012, em um congresso de cientistas, Ali Khamenei, sucessor de Khomeini como velayat-e faqih, discursou: “A República Islâmica considera a posse de armas nucleares um grave pecado e acredita que a proliferação dessas armas é insensata, destrutiva e perigosa.” Paradoxalmente, os aiatolás foram criticados por Kenneth Waltz, o decano do realismo em política externa nos Estados Unidos. Para ele, um Irã com armas nucleares contribuiria para estabilizar o Oriente Médio.

A negativa iraniana foi reiterada em agosto seguinte, de maneira ainda mais significativa, quando o próprio Khamenei discursou na conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. Vale citar longamente um trecho de sua fala:

“A paz e a segurança internacionais estão entre as questões cruciais do mundo atual. A eliminação das armas de destruição em massa é uma necessidade urgente e uma exigência universal. A segurança é uma necessidade comum. Não há espaço para discriminação. Aqueles que acumulam armas anti-humanas em seus arsenais não têm o direito de se autoproclamar defensores da segurança global. […]

A República Islâmica do Irã considera o uso de armas nucleares, químicas e similares um pecado grave e imperdoável. Propomos um Oriente Médio sem armas nucleares e estamos comprometidos com essa ideia. Isso não significa renunciar ao nosso direito ao uso pacífico dessa energia e à produção de combustível nuclear. Com base no direito internacional, esse uso pacífico é um direito de todos os países. Todos devem poder usar essa fonte de energia benéfica para diversos usos vitais, em benefício de seus países e seus povos, sem ter que depender de outros para exercerem esse direito. Alguns países ocidentais, que possuem armas nucleares e são culpados dessa ação ilegal, querem monopolizar a produção de combustível nuclear. Estão em andamento manobras para consolidar um monopólio permanente sobre a produção e a venda de combustível nuclear em centros que ostentam um rótulo internacional, mas que, na verdade, estão sob controle de alguns poucos países. Há uma amarga ironia em nossa época: os Estados Unidos, que possuem o maior e mais letal arsenal de armas nucleares e outras armas de destruição em massa e são o único país culpado de seu uso, estão ansiosos por empunhar a bandeira da oposição à proliferação nuclear.

Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais armaram o regime sionista usurpador com armas nucleares e criaram uma grande ameaça para a nossa região, tão sensível. No entanto, esse mesmo grupo não tolera o uso pacífico da energia nuclear por países independentes e se opõe à produção de combustível nuclear para radiofármacos e outros fins humanitários. Seu pretexto é o medo da produção de armas. No caso da República Islâmica do Irã, eles sabem que estão mentindo, mas as mentiras são sancionadas por um tipo de política que é completamente desprovida de espiritualidade.

A República Islâmica nunca buscou armas nucleares, mas nunca abrirá mão do direito de seu povo de usar a energia nuclear para fins pacíficos. Nosso lema é: “Energia nuclear para todos e armas nucleares para ninguém.” Insistiremos nesses dois preceitos. Quebrar o monopólio de certos países sobre a produção de energia nuclear no âmbito do Tratado de Não Proliferação é do interesse de todos os países independentes, incluindo os membros do Movimento dos Países Não Alinhados.”

Alguém pode dizer: foi somente um discurso. Sim, um discurso, mas não “somente”. Nada menos que 120 países estavam presentes. Chefiando as delegações havia 24 presidentes, 3 reis, 8 primeiros-ministros e 50 ministros das relações exteriores. Será que um chefe de Estado e líder religioso falaria de modo tão eloquente, sem ser provocado, para ludibriar essa audiência?

19. As garantias do Irã não foram só verbais. O Tratado de Não Proliferação (TNP) foi aberto para assinaturas em julho de 1968. Ele divide os países em duas categorias: os que tinham armas nucleares antes de 1º de janeiro de 1967 (Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França e China) puderam manter (e ampliar) seu arsenal; os que não tinham foram proibidos de fabricá-las, mas receberam autorização para desenvolver tecnologia nuclear, inclusive enriquecimento de urânio, para fins pacíficos nos termos definidos pelo próprio Tratado, com supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Os cinco Estados nucleares e 185 não nucleares assinaram o acordo até hoje, incluindo o Irã. Israel, Índia e Paquistão não o assinaram, enquanto a Coreia do Norte o assinou e depois se retirou. As instalações sensíveis desses quatro países nunca foram inspecionadas pela AIEA. Todos construíram armas nucleares, os dois primeiros com ajuda dos Estados Unidos.

Não se sabe o número de ogivas que Israel acumulou. Podem ser de 80 a 400. O país tem a capacidade de lançá-las por meio de aviões, mísseis baseados em terra e submarinos especiais, comprados na Alemanha para este fim.

20. O programa nuclear do Irã começou na década de 1950, durante a monarquia do xá, com claro viés militar e assistência dos Estados Unidos. A partir da Revolução de 1979, a República Islâmica redirecionou esse esforço, mantendo-o restrito aos limites do TNP e abrindo as instalações à supervisão permanente AIEA. Como em outros países, o programa iraniano funciona como uma alavanca de política industrial, desempenhando um papel semelhante ao programa espacial na economia dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. E, além dos usos da radioatividade em medicina, agricultura e afins, a geração de energia a partir dessa fonte permite que o país exporte mais petróleo, desenvolva processos de maior valor agregado, como a petroquímica, e injete mais gás em campos petrolíferos em declínio, prolongando sua vida útil.

Com o passar dos anos, as evidências de que o Irã não buscava ter essas armas se acumularam. Em 2003, a República Islâmica aceitou assinar um protocolo adicional ao TNP, permitindo que a AIEA realizasse inspeções mais extensas e mais intrusivas do que as previstas no tratado geral. Solicitou, em troca, ser reconhecida como governo legítimo do Irã. Não foi atendida.

Em setembro de 2005, em discurso na sede da Organização das Nações Unidas, o então presidente Mahmoud Ahmadinejad propôs que o programa de enriquecimento de urânio do Irã fosse administrado por um consórcio internacional, mas a proposta foi novamente rejeitada pelos Estados Unidos.  Peter Jenkins, embaixador da Inglaterra junto à AIEA, declarou: “Essa oferta deveria ter sido aceita imediatamente, mas isso não aconteceu. Nosso objetivo era pôr fim a todo enriquecimento no Irã, apesar das inúmeras advertências iranianas de que eles não aceitam ser tratados como país de segunda classe.”

Em 23 janeiro de 2012, Richard Dalton, ex-embaixador a Inglaterra na AIEA declarou ao The Daily Telegraph: “Em 2005, o Irã estava disposto a discutir um limite máximo para o número de suas centrífugas e a manter sua taxa de enriquecimento bem abaixo dos níveis necessários para armas. Teerã também se mostrou disposta a permitir inspeções intrusivas. Mas os Estados Unidos e a Europa queriam obrigar o Irã a abandonar totalmente o seu programa de enriquecimento.”

21. O polo razoável, racional e disposto a chegar a acordos sempre foi o Irã, que respeitou as disposições do TNP, abriu suas instalações nucleares à AIEA e, de fato, não construiu armas atômicas. Tudo ao contrário do que Israel fez, com apoio dos Estados Unidos.

Não sabemos se os acontecimentos em curso alterarão a posição do Irã. Khomeini e Khamenei morreram, e a existência do país foi posta em risco por uma agressão externa sem motivos minimamente legítimos. Ao que se saiba, Mojtaba Khamenei, o novo velayat-e faqih, ainda não se pronunciou. Mas elaborar ou rejeitar uma fatwa exigem deliberação coletiva em processos razoavelmente complexos.

Se compreendi a visão de mundo da liderança iraniana, a resposta será, mais uma vez, negativa. Mesmo tendo sido atacado por duas potências nucleares, o país optará por permanecer militarmente desnuclearizado, seja por razões morais, seja estratégicas. Os iranianos não acreditam na infalibilidade das armas e estão seguros de que, mesmo sem elas, podem vencer quaisquer guerras em seu território. Guerras de defesa nacional são as únicas que lhes interessam, pois não desejam obter ganhos territoriais ou exportar a sua revolução. Sua doutrina de segurança sempre foi defensiva. Adiante veremos como Israel entra nessa equação.

Mesmo assim, continuaremos a viver a nossa distopia midiática: o país que nunca invadiu ninguém, não mantém territórios ocupados e não possui armas nucleares continuará a ser apontado como a grande ameaça. Para os Estados Unidos, os tratados internacionais valem ou deixam de valer conforme a adesão de cada governo aos interesses norte-americanos.

22. No momento em que escrevo, acabam de ser divulgados os termos do Memorando de Entendimento entre Estados Unidos e Irã que – assim se anuncia – será assinado em Genebra daqui a quatro dias. A primeira constatação relevante é a ausência de Israel no processo de negociação e deliberação. Em condições normais, isso seria impensável.

Do lado americano, o documento foi assinado pelo presidente Donald Trump e o vice-presidente James David Vance. Do lado iraniano, por Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento. O governo do Paquistão liderou os esforços de mediação, contando com a ajuda de Catar, Arábia Saudita e Turquia. A expectativa é que as próximas rodadas de negociações definam os mecanismos de implementação e os compromissos assumidos por cada parte. O que já sabemos que foi definido é o seguinte:

1. Interrupção permanente e imediata da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano (o que envolve diretamente Israel, que não foi consultado).

2. Compromisso dos Estados Unidos de não interferir nos assuntos internos iranianos e de reconhecer a soberania da República Islâmica (uma antiga reivindicação do Irã).

3. Suspensão total do bloqueio naval americano aos portos do Irã em 30 dias.

4. Reabertura do Estreito de Ormuz sob administração do Irã e de Omã, seu vizinho.

5. Suspensão das sanções relacionadas ao petróleo, aos produtos petroquímicos e a seus derivados, garantindo ao Irã acesso integral às receitas obtidas com essas atividades.

6. Reparações de guerra para a reconstrução do Irã no valor mínimo de US$ 300 bilhões.

7. Liberação imediata de US$ 24 bilhões do Irã que estão congelados há décadas.

8. Permanência do estoque de urânio altamente enriquecido em território iraniano e elaboração de um “entendimento final” sobre a questão nuclear em 60 dias.

Por exigência iraniana, o acordo será levado para aprovação do Conselho de Segurança da ONU e se tornará uma resolução oficial.

23. Se tudo isso se confirmar, estamos assistindo a uma espécie de Tratado de Versalhes do século XXI. Não foi um acordo entre iguais. O lado vitorioso impôs suas condições ao lado perdedor.  O governo de Donald Trump, que queria derrubar o “regime dos aiatolás”, correrá sério risco com tamanha humilhação. Pois o Irã obteve tudo o que queria e mais do que se poderia esperar.

Uma nova potência regional passou a controlar o Golfo Pérsico. É uma inflexão de impacto mundial. Democratas e republicanos sempre concordaram que o domínio do Oriente Médio era alta prioridade do país em política externa.

A guerra contra o Irã representou para os Estados Unidos um desastre estratégico incomparavelmente maior do que o do Vietnã. Pois os Estados Unidos consolidaram sua hegemonia na segunda metade do século XX justamente quando passaram a controlar os principais fluxos de petróleo e de gás do Oriente Médio para as demais regiões, tornando-se os provedores da segurança energética global. Todos, inclusive os adversários, precisaram se ajustar a esse fato. Europa e Japão se alinharam logo, pois são grandes clientes dessa energia. O sistema-mundo passou a gravitar em torno do dólar.

A perda do controle militar sobre o Golfo Pérsico e adjacências soma-se a outros movimentos que apontam para sepultar esse quadro. O “privilégio exorbitante” do dólar, para retomar a expressão de Charles de Gaulle, está perdendo sustentação. Donald Trump diz que isso equivale a perder uma guerra mundial. Tem razão. Considera-se que o controle da moeda internacional gera uma renda extra de cerca de US$ 1 trilhão por ano para a sociedade americana. Não sabemos como ela reagirá a um empobrecimento dessa magnitude, quando ocorrer, mesmo diluído em anos.

24. Agora podemos entender o sentido estratégico da posição iraniana de não fazer a bomba atômica: ela teria um enorme custo moral e político, e – mais importante – seria desnecessária. Um ataque atômico contra um país que voluntariamente abdicou de produzir armas nucleares é quase impensável. Implodiria definitivamente as normas internacionais. A atitude racional dos demais países seria entrar na corrida nuclear.

Hoje, essa ameaça de desorganizar o sistema internacional vem de Israel. Esse pequeno país está se tornando caro demais, não só para os Estados Unidos, mas para o mundo. O Irã nunca se preparou para derrotá-lo em um ataque seguido de uma ocupação, mas para torná-lo inviável. Sempre defendeu que Israel cairá de dentro para fora como resultado do processo, agora em curso, que combina economia, política, demografia e relações internacionais. Eles não tem nem território nem recursos suficientes. Está perdendo população, e não há mais grandes levas de imigração para compensar a tendência de esvaziamento.

Quanto mais agressivo Israel se tornar, para tentar compensar suas fraquezas estruturais, mais esse processo se imporá. Quanto mais atrocidades cometer, pior. O que o intelectual judeu norte-americano Norman Finkelstein chama de “indústria do Holocausto” já perdeu eficácia. Desafiar o mundo é a suprema irracionalidade de um projeto que não tem mais futuro.

Israel, e não o Irã, é a grande ameaça.

25. Embora as revoluções chinesa e iraniana tenham sido conduzidas por ideologias muito diferentes, ambas foram fortemente marcadas pelo compromisso com a restauração da independência de suas nações depois de longos períodos de dominação externa. Também no caso da China, a política norte-americana enfatizou durante décadas a ilegitimidade e a irracionalidade da República Popular, daí nascendo, como decorrência, as tentativas de miná-la por dentro, recorrendo inclusive à mobilização de minorias étnicas, e de isolá-la do exterior. Sabemos aonde isso levou.

As placas tectônicas que pareciam imóveis começaram a se mover no início da década de 1970, quando o establishment dos Estados Unidos se convenceu de que o gigante asiático não podia permanecer excluído das suas opções diplomáticas. O reatamento era imperativo. Implicou que os Estados Unidos moderassem seu apetite pela hegemonia no Extremo Oriente, passando a admitir um equilíbrio. Este foi reconhecido a posteriori como o passo mais importante da diplomacia norte-americana na segunda metade do século XX.

O mesmo ocorrerá no Oriente Médio em futuro não muito distante. Os fundamentos da política dos Estados Unidos para o Irã contêm erros primários, como a guerra acabou de mostrar. Terão que ser revistos.  Uma vez consolidado, o novo equilíbrio de poder exigirá uma nova política, cujos contornos ainda não podemos ver com clareza. É certo, porém, que será preciso reconhecer o novo papel do Irã e restringir o raio de ação de Israel. No limite, será preciso sacrificar uma aliança até aqui tão sólida, mas que se tornou onerosa demais. Israel está se tornando um grande complicador.

Os interesses do movimento sionista, de um lado, e dos Estados Unidos, de outro, vão divergir. Isso pode parecer inverossímil hoje, mas as relações internacionais são movidas pelo pragmatismo. Os caminhos podem parecer erráticos, mas, com o tempo, as grandes tendências se impõem.

Quando isso ocorrer, é certo que o Irã facilitará um movimento de aproximação, como sempre facilitou no passado, inutilmente. Ao contrário de ser um Estado irracional, como diz a propaganda, ele tem-se mostrado o mais racional dos entes envolvidos nesse grande conflito. Por isso, aliás, está vencendo.

Autor

  • César Benjamin

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