Errâncias (sem via)
Fazemos nossos caminhos como fogo e suas centelhas.
Sem plano cadastral.
(…)
Até quando, a colheita do abismo?
(…)
Como viver sem o desconhecido diante de si?
René Char
Nosso principal esforço é assumir tal estranheza inerente,
sem adestrá-la em nenhum conhecimento prévio.
ürmN
Isto é o dança-se. Está dançando-se aqui e agora em letras e sintaxe. Pode parecer, à primeira vista, algo da ordem do pensamento. Aqui, apenas nos divertimos. Nada a ver com alienação: divertere significa desviar. Diversão, algo tão sério que pode nos fazer rir. Sem bandeira, apriorismos ou ingenuidades.
Se aceno aqui à minha obra, é menos revisionismo e mais um relato de como cheguei aqui, a partir de ideias de outrora, abandonando os empecilhos. Esta dança é para se regozijar de que agora abandonamos os fundamentos, ainda que isto tenha exigido minha dedicação até então.
Minha errância se iludia em um caminho que envolvia os seguintes estágios: transdisciplinaridade – transaberes – borogodança – intensidades, com o Druamverso atravessando desde o início, mesmo sem trazer esse nome.
Em meu primeiro livro, Ontologia Onírica, o exercício é deslocar a transdisciplinaridade — a mistura que ocorre ao borrar as fronteiras entre as disciplinas — de seu intelectualismo, trazendo-a ao chão. Conscienciologia e seus estados vibracionais, meditações com inspirações indianas, taoísmo e rituais indígenas de ayahuasca, literatura, artes plásticas, cinema eram atravessadores que ajudavam no intento. Os transaberes convidavam a uma transdisciplinaridade vital, e aqui vital também quer dizer animista.
Ontologia Onírica já carregava uma noção importante, que foi amadurecida ao longo do tempo: a retirada do atual e virtual da ontologia de Henri Bergson e seu desdobramento em Gilles Deleuze, habitando apenas o intensivo. Em Vórtex, essa proposta dançou em espiral, orbitando em torno do conceito de vórtex. Por mais que fosse avisado que se tratava apenas de um conceito enquanto trampolim, a imagem do vórtex era um empecilho no processo de desreferencialização.
Minha obra é atravessada pela mística. Desde a borogodança, denunciamos que ela se tornou mais uma disciplina, perdendo seu âmago. Todavia, a intensidade problematiza a mística mesmo em seu âmago, como veremos.
Vórtex queria pensar a partir das vibrações. Esse termo selvagem carece de precisão. No intuito de evitar confusões, adotaremos aqui outro termo para se pensar e despensar a partir dele: a intensidade.
A intensidade nasce entre os pensadores medievais para resolver o problema de Aristóteles que tratava as qualidades como formas. Por exemplo: como algo pode ser mais ou menos luminoso, sabendo que se trata de um mesmo objeto? O conceito de intensio afirma que, para o objeto se tornar um contínuo, ele possui variações de intensidade de luz, podendo ser mais ou menos luminoso. Retomaremos a intensidade, agora segundo nossa proposta. Para uma discussão ampla, sugiro o meu artigo, ainda em tons acadêmicos, que será publicado em breve: “Intensidades: amor à sabedoria em desvio da cibernética”.
A mecânica quântica coloca um problema de saída: ela é norteada a partir dos resultados de um detector. Não seria algo que está na Natureza, mas que é registrado, quantificado e analisado a partir dos resultados do detector. Isso coloca o problema da percepção. Sejam vibrações ou intensidades, o que se percebe é analisado pela psicofísica, que estabelece as relações entre estímulos físicos e a percepção. Na intensidade, nosso interesse deixa de se nortear por mais ou menos intensidades, para se perguntar como se dá a intensidade.
O Druamverso, parte coesa de minha obra ficcional, surgiu aos poucos: durante o processo de escrita do meu primeiro romance, Druam, ele ainda não possuía título. Quase ao final, percebi que estava escrevendo algo que se relacionava com alguns contos que já havia escrito, publicados em meu blog “Druam”. O livro de poemas Cânticos andróginos, o romance seguinte, Pulsares, e o romance que será lançado este ano, Espirais, se passam no Druamverso. A relação entre minha obra (in)conceitual e ficcional é complexa, sendo reducionista dizer que minha ficção são os conceitos aplicados. Se em Espirais muitas ideias de Vórtex rodam ali, o Penúltimo Pulso, ápice de Pulsares, Cânticos e Espirais, ensaia o conceito de intensidade, que não tinha sido concebido, ainda que já havia, como disse, sua precursora: uma ontologia puramente intensiva. Se o Druamverso não obedece aos conceitos, ele os subverte e os extrapola, podendo os prefigurar. Espirais mostra o passado do Druamverso, situando-o na história do pensamento. Se o Brasil carece de mitos fundadores que dialoguem com o contemporâneo, Espirais oferece algo próximo, nem mito, nem fundador, mas uma dança entre ficção e história que ressignifica a ninguendade.
A festa continua com o Livro na borogodança. Nele, outra dança se instaura: não há a preocupação de como aplicar a transdisciplinaridade na vida, mas sim de apreender, no espectro pulsante, em que medida o saber se dá antes de se dividir em disciplinas. Não se trata aqui de questão temporal, mas epistemológica ou melhor, epistemontológica. No Livro é proposto o impensamental, conceito kamikaze que se assume enquanto o último dos conceitos, aquele que foi pensado para abandoná-los, habitando um limiar entre o pensamento e algo além. A borogodança é o entre do imanifesto e o manifesto. Há aqui, percebo agora, um movimento que se pororoca com Ontologia Onírica: este buscava habitar o entre atual e virtual — o intensivo puro — e Borogodança, o entre a Consciência e consciência e seus sinônimos na literatura mística. Borogodança, em sua proposta de referencializar provisoriamente durante a desreferencialização, terminava por inocular certas ontologizações que traíam sua premissa.
Foi então que se apresentou para mim a obra Code, de Bernard Geoghegan. Nesse livro é mostrado como os Rockefeller, a CIA e a Fundação Ford agenciaram a influência da cibernética nas humanidades. Primeiro, Marcel Mauss foi convidado e declinou. Já Gregory Bateson, Roman Jakobson, Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan e Roland Barthes aceitaram. Esses autores não eram contratados diretamente por uma rede de espionagem; essa mediação era feita por outros institutos. A partir disso, linguagem, sociedade, inconsciente e literatura eram transformados em códigos, o que foi usado pelo Vale do Silício para construir o mundo em que vivemos hoje: sabendo que o usuário não sabe bem o que deseja — mas deseja sempre mais —, os algoritmos oferecerão a partir do seu desejo, novos modos de consumo, reorganizando à luz do controle não apenas o que e como se deseja, mas a partir disso, como se vive em sociedade e como se pensa, controlando o imaginário.
Se Code interrompe sua análise nos autores citados, é fácil aplicar suas ideias em Deleuze e Guattari, pensadores fundamentais nos transaberes. A cibernética assombra a obra dos autores por meio de conceitos como inconsciente maquínico, máquina abstrata, máquina de guerra e o rizoma, que, ao se pretender libertário, mesmo ontologizando o grafo da cibernética, descreve com precisão como o capital e seu instrumento contemporâneo — a internet — operam, ligando um ponto a qualquer outro, preenchendo vazios sem comando central.
Deleuze e Guattari, com sua insistência em uma filosofia da alegria — cujo clima, a despeito do desejo dos autores, se instaura hoje na positividade tóxica e nos coachs — afirmavam que quem lesse Kafka sem gargalhadas involuntárias, deformava tudo em sua obra. Eles se reportavam a Max Brod, ao nos contar as gargalhadas do autor de O processo e seus amigos, quando ele lia em público suas obras. Para minha surpresa, ao ler o referido texto “O poeta Franz Kafka” de Max Brod, logo após o relato das gargalhadas, ele continua: “Mas logo ficávamos em silêncio. Não se trata de uma risada destinada a seres humanos. Os únicos que têm permissão de rir de tal forma são os anjos”.
Mas não é só Kafka que é (podemos, sim, dizer) deformado. Deleuze e Guattari, na vertigem em transformar tudo em agenciamento para a alegria, além de não enfatizar a importância de Schopenhauer para Kafka, o autor de O mundo como vontade e representação tem sua influência minimizada também em Nietzsche e Borges. O escritor argentino, ao receber o rótulo de leibniziano por Deleuze, é turvado de sua assumida maior influência na filosofia: Schopenhauer. Os estudos contundentes dedicados a Borges assumirão isso, informação que se revela seminal para a compreensão de sua obra. É curioso que, ao buscar uma instância anterior ao sujeito, o inconsciente maquínico de Deleuze e Guattari está mais próximo — ainda que não seja equivalente — ontologicamente do conceito de vontade em Schopenhauer que do inconsciente em Freud ou Lacan.
Michel Butel relata que, em um encontro no apartamento de Guattari, já com depressão severa, Deleuze, doente do pulmão, assiste televisão com seu coautor, ambos em silêncio. Pouco tempo depois, Guattari faleceria e, em alguns anos, Deleuze se suicidaria. A imagem dos dois autores doentes, tristes e silenciosos diante do aparelho cibernético é poderosa em sintetizar menos histórias pessoais e mais o fracasso de uma filosofia da alegria, cujos incessantes devires evitavam o silêncio. O esquizo hoje está atônito, deprimido, com burnout e ansioso diante de um mundo cada vez mais rizomático.
Os estruturalistas e pós-estruturalistas influenciam ainda hoje parte significativa dos discursos sobre o poder. Se o poder hoje opera em grande parte por meio da cibernética, cabe avaliarmos o quão suficientes esses autores são para pensar derivas.
Não vou me estender sobre o tema do poder, tema que tratei no Vórtex, Livro na borogodança e em alguns artigos, apenas resumirei aqui a minha hipótese. Essa hipótese não se deriva da intensidade como vamos propor, mas organiza, de modo geral, o estado atual do regime da coreografia do poder, que não possui centralidade ou convergência total entre os seus agentes. Os grandes fundos de investimento gestam o capital das maiores empresas do mundo, além de atuarem como acionistas. O BIS, banco dos bancos centrais, coordena as respostas às emergências de crise, influenciando seus modos de propagação e contenção. Institutos como os que mencionamos antes e seus think tanks, em comum acordo com militares e a Big Tech, promovem guerras híbridas e cognitivas em países estratégicos. Isso quer dizer que são menos necessárias armas e mais controle do imaginário para se operar o controle.
O que os adeptos do marxismo e da microfísica do poder têm dificuldade de perceber é que o capital hoje opera com propriedade dispersa, gestão concentrada, decisão difusa e responsabilidade turva. Na era do precariado, não há mais luta de classes — se é que houve alguma vez — mas destruição de classe, ainda que de modo não linear, enquanto estratégia de diluição perceptiva. A tendência é que o mundo caminhe para um cenário com uma imensa maioria miserável, com pouco acesso à natureza, com governanças que se alternam em máscaras ideológicas opostas, mas que acabam por operar no mesmo regime precarizador. No caso peculiar da China, há uma formação técnica da sua população com aumento do bem-estar social, mas quando a tecnologia substituir de modo mais agressivo o trabalho humano, não se sabe se a manutenção do bem-estar social continuará. Hoje, a maioria dos intelectuais se esforça em criticar o sistema sem oferecer soluções, e quando as fazem, é a partir do jogo político e cibernético estabelecido, onde o controle já está a muitos passos na frente.
Voltemos à intensidade. Em nossa concepção, a intensidade surge sem fundar nada, nem mesmo devir ou ontologia. Um devir ou ser ocorre quando certos casos de intensidades insistem e co-incidem. A intensidade pode cessar, de modo parcial ou mesmo total. Isso não implica que tudo vai acabar, mas pode acabar. Assim, a intensidade abdica de fundamento e teleologia. Nem tudo que existe é intensidade. Intensidades que insistem podem perder intensidade e até continuar existindo sem intensidade alguma. À luz da intensidade, ser e existir não são distinguíveis como níveis ontológicos. Existir designa apenas a ocorrência provisória de uma intensidade, já ser é o nome retrospectivo dado às estabilizações dessa ocorrência.
Ao co-incidir com outras intensidades e insistir, a intensidade opera no dança-se, ou seja, a intensidade dança o dançar. O dança-se tende a perder intensidade quando é coreografado. Chamamos poder às situações em que o dança-se tende à coreografia. Aquilo que chamamos tempo e espaço pode co-incidir com certas insistências do dança-se, possibilitando a apreensão de cosmologias como estabilizações locais. Isso não é uma explicação geral, mas uma hipótese de percepção contextualizada, podendo ocorrer ou não.
Nem tudo que existe permanece enquanto intensidade. Quando o dança-se se desfaz, o que sobra deixa de ser constituído por intensidade, sendo composto por resíduos que constituem uma existência, por exemplo, no equilíbrio termodinâmico, na pedra totalmente resfriada em um limite ideal ou uma memória esquecida.
Proporemos algumas co-incidências estéticas à luz da intensidade. Cabe a advertência de que não se trata de uma lista canônica ou algo do tipo, mas apenas aproximações. O que mais tangencia as intensidades que aqui inconceituamos nas artes plásticas, desde que retiremos delas as interpretações místicas, são algumas das instalações de James Turrell, das pinturas de Mark Rothko e das obras de Mira Schendel. A diferença entre o Papa Inocêncio X de Velázquez e Study after Velázquez’s Portrait of Pope Innocent X de Francis Bacon é um bom exercício perceptivo do dança-se, não no sentido de mais ou menos intensidade, nem de apologia à deformação, mas de regimes diferentes do dança-se. Na literatura, surgem alguns momentos em Kafka, Beckett, Wallace Stevens, Clarice Lispector etc. Já no cinema, Andrei Tarkovsky, Apichatpong Weerasethakul, David Lynch, Emiliano Rocha Minter, Guto Parente, sobretudo em “O estranho caso de Ezekiel”. Na música, de um lado, temos os minimalismos no erudito contemporâneo, de outro, na música pop, Joy Division, David Bowie com Brian Eno e Portishead. É raro um artista pop ter uma obra inteira cuja atmosfera co-incida com a intensidade, mas algumas músicas sim, como “But, What Ends When the Symbols Shatter?” do Death in June, “Waiting for the Night” do Depeche Mode, “The Host of Seraphim” do Dead Can Dance e “Foi no mês que vem” de Vitor Ramil, ainda que as letras tragam imprecisões.


À esquerda, Papa Inocêncio X (1650) de Velázquez e à direita, Study after Velázquez’s Portrait of Pope Innocent X (1953) de Francis Bacon. Fonte: Wikipedia
As intensidades possibilitam errâncias, sem vias a priori ou a posteriori, não sendo garantias de que as errâncias vão ocorrer. Disso não se pode extrair uma ética nem uma política, pois, quando impostas como condição, tornam-se instrumento de poder. Todavia, dadas certas disposições no dança-se, pode surgir uma ética provisória que opera por desvio das tentativas do poder em coreografar o dança-se. O desvio pode ocorrer sem constituir oposição: muitas vezes, lutar já é estar na coreografia do poder. Desviar-se de modo provisório não é um método, pois o desvio, enquanto intensidade, pode cessar, além de que, como é constituído pelo dança-se, ele tende a mudar o próprio processo de mudar. O mínimo que se sugere em uma ética provisória é a abertura à percepção do dança-se para derivá-lo ou não.
Os agentes de poder se instalam em dança-ses coreografados ao extremo, que insistem em eras, se confundindo com arquétipos e outras transcendências que, à luz da intensidade, não existem. A confusão se dá pela escala de tempo além do humano, que pode gerar uma falsa percepção de eternidade, e pela dificuldade de ser apreendido pela percepção. Para tanto, nesses agentes do poder, há um sacrifício de sua consciência, ficando quase por completo à mercê dos dança-ses coreografados duradouros. Para se desviar com proficiência, sentir o dança-se envolve uma desidentificação sem um projeto a priori, seja de poder ou não. Trata-se de uma disposição paradoxal desinteressada, como os gestos do bebê antes de ter linguagem estabelecida. A intensidade não pressupõe, muito menos exige, uma ética provisória, mas a possibilita. Tampouco é uma instância anti-captura, o que já seria uma estabilização, mas problematiza a naturalização da captura.
As errâncias que dançam-se aqui se inspiram, com ressalvas, nos místicos radicais, oriundos de tradições como a dos apofáticos e o Advaita Vedanta. Todas elas trazem, ao seu modo, alguma via, ainda que o Advaita, em seus textos mais rigorosos e surpreendentes, afirme que suas escrituras são apenas um modelo e, caso a pessoa atinja a iluminação, ela pode prescindir dos textos e de qualquer noção de fundamento. No âmbito dos místicos radicais, são apreendidos o silêncio e o vazio, onde não há vida e, por isso, prescindimos do animismo. O que chamamos de intensidade é algo escrito e, por definição, passível de ser estudado e já em seu bojo traz noções sem vias ou fundamentos. Ela não responde a uma crise paradigmática específica, ainda que problematize a saturação simultânea dos regimes explicativos modernos, podendo ou não deslocar o próprio regime que exige paradigmas como forma privilegiada de inteligibilidade.
Errar sem via não é conduta a se seguir, nem proposta. É algo que pode ou não surgir na intensidade, assim como pode cessar. Por ora, basta de escrituras. A partir de agora, um exercício possível seria cultivar a disposição para/nas intensidades. Caso haja escrita, não será sobre as intensidades, mas a partir delas.
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Link da playlist “Intensidades das errâncias”: https://open.spotify.com/playlist/56z1krveTRtOwvrqSe3Pc4?si=V3ujkxsqRte9qQaNxvpBSA&pi=mVoHgL9ERoCUf