Cosmologias pré-socrática e budista: uma análise comparativa

Duas novas formas de ver o mundo surgiram no século VI a.C., em culturas ainda então separadas. As duas correntes viriam a revolucionar Oriente e Ocidente, mais tarde passando a interagir entre si e produzindo o que hoje chamamos de filosofia helenística. Essas visões de mundo [N.T. “worldvision” ou “weltanschauung“], a filosofia pré-socrática e o budismo, apresentaram duas novas cosmologias ou representações do universo físico. Meu objetivo aqui será desenvolver um breve estudo comparativo dessas duas cosmologias.

Concentro-me exclusivamente no Budismo Theravada1, já que as duas escolas que a seguiram, Mahayana e Vajrayana, foram contaminadas por ideias gregas. A história e os detalhes do intercâmbio entre as culturas indiana e grega após as campanhas de Alexandre no século IV a.C. são complexas e valiosas demais para serem consideradas aqui (recomendo ao leitor McEvilley 2002). A premissa de que a escola Theravada do budismo surgiu de forma separada e independente dos acontecimentos que se davam aproximadamente na mesma época nas Ilhas Jônicas é historicamente razoável (Holder 2006). As origens foram conservadas pela tradição oral até o segundo concílio budista de Vaisali em 383 a.C. O cânone em páli padrão, a Tipitaka, que compreende três “cestas” de textos — Sutta (os discursos de Buda), Vinaya (regras para os monges) e Abhidhamma (os princípios doutrinários mais tarde reorganizados e comentados) — foi compilado provavelmente cerca de duzentos anos depois da morte de Buda, ocorrida por volta de 483 d.C. (há controvérsias entre os estudiosos com relação à data). O próprio Buda não chegou a escrever nada, chegando a rejeitar explicitamente qualquer especulação metafísica e cosmológica. Seus seguidores, porém, se engajaram em discussões cosmológicas, tanto que os discursos Abhidhamma e fontes posteriores, especialmente os textos Abhidharmakosa, de Vasubandhu, desenvolveram um modelo cosmológico complexo.

Quanto aos pré-socráticos, restaram, obviamente, apenas fragmentos escassos. Usarei a recente edição em inglês de Graham (2010) e me basearei o mínimo possível na doxografia, a fim de evitar a contaminação de influências posteriores. Uma das principais fontes do presente texto é a brilhante reinterpretação da tradição jônica de Graham (Graham 2006).

Mileto e a origem de uma nova visão de mundo

Mileto era localizada na Ásia Menor, na costa oriental do Mar Egeu (ver Fig. 1). Nos primeiros anos do século VI a.C., a cidade era a mais importante entre as muitas colônias de gregos da tribo jônica. Dotada de três portos, a cidade era extremamente próspera graças ao comércio com outras colônias no Mar Negro, o Mediterrâneo central e o Egito (a Fig. 2 mostra um mapa da cidade e, a Fig. 3, algumas ruínas ainda existentes). Os produtos que chegavam do Oriente Médio eram embarcados em Mileto e destinados a todo o mundo conhecido. Os primeiros livros de prosa foram escritos em Mileto, onde a pujança dos comerciantes oferecia o luxo de uma avançada educação multicultural para muitos de seus cidadãos. Foi nesta cidade que nasceram a filosofia ocidental e a ciência.

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Fig. 1. Grécia Antiga.

[Em maiúsculas, sentido anti-horário:

Trácia, Macedônia, Épiro, Tessália, Ática, Atenas, Creta, Lícia, Cária, Jônia, Lídia, Frígia.

Cidades:

Anfípolis, Pela, Egas, Potideia, Córcira, Cefalônia, Ítaca, Delfos, Erétria, Tebas, Zacintos, Olímpia, Corinto, Micenas, Argos, Messênia, Esparta, Pilos, Knossos, Tera, Delos, Rodes, Mileto, Samos, Éfeso, Quios, Esmirna, Sardes, Pérgamo, Lâmpsaco, Sestos

Montes:

Olimpo, Pélion, Parnaso, Hélicon]

Em Mileto, algo extraordinário ocorreu no início do século VI a.C.: alguns homens começaram a pensar a respeito da natureza das coisas, da origem do mundo, sem recorrer a nenhum elemento mitológico. Tales é creditado como sendo o primeiro a tentar oferecer uma explicação puramente racional do mundo. Hoje, porém, sabemos muito pouco sobre a extensão da real contribuição de Tales. Aparentemente ele não deixou escritos e suas ideias não eram muito claras nem mesmo para os gregos do período clássico. De qualquer modo, ele parece ter sido bastante tolerante com as críticas, característica básica do pensamento racional, pois seu discípulo Anaximandro deixou um relato bem diferente do mundo. Tales teria sustentado que a água era a substância geradora a partir da qual todas as coisas se originaram. Para Anaximandro, a vastidão do universo empírico não poderia ter sido produzida por um elemento tão comum como a água, portanto ele sugeriu a existência de uma matéria básica especial que denominou “o ilimitado”, ou ápeiron(απειρον).

Os pontos básicos da visão de Anaximandro são: (1) existe uma origem de onde tudo surge; (2) esse surgimento obedece a padrões regulares; (3) o que surge a partir da matéria original é uma variedade de substâncias tais como fogo, ar, terra e água; (4) essas substâncias são depois organizadas naturalmente numa configuração estável que forma o mundo; (5) os seres vivos emergem dessas substâncias e evoluem de organismos simples para complexos.

 

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Fig. 2. Mapa de Mileto.

[Esq -> Dir:

Morro Kalabak

Templo de Atena

Ágora Ocidental

Estádio

Teatro

Muros da Cidade

Morro Humey

Muros da Cidade

Delphinium

Nimphaeum

Ágora Sul

Caminho Sagrado (Mileto – Dídima)

A teoria da substância geradora proposta por Anaximandro viria a ser essencial na visão de mundo milésia, uma visão de mundo puramente naturalista, baseada em observações empíricas, causais e de grande poder explanatório. Seu ponto fraco foi seu baixo poder preditivo, o que a tornou difícil de testar. No entanto, todos os principais ingredientes de uma visão de mundo científica já estão presentes em Anaximandro, além do fato de ele ter apresentado sua visão em prosa, enquanto que os relatos mitológicos eram sempre escritos em verso.

Credita-se também a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo conhecido. Este fato configura mais uma marca de sua racionalidade, pois pela primeira vez foi estabelecida uma relação entre linguagem pictórica e realidade.

Anaximandro e a origem da cosmologia

A proposta mais ousada de Anaximandro provavelmente foi a de que existe apenas um único mundo, e que tudo o que nele acontece segue padrões regulares. Não existe mágica. Se existem deuses, eles também fazem parte do mundo. As coisas só surgem por evolução, não espontaneamente. Por exemplo, o homem evoluiu a partir de diferentes espécies animais. O próprio mundo também evoluiu de modo impessoal a partir do ápeiron. O ápeiron é uma fonte originadora do mundo, mas não está presente nele; sua existência é inferida.

As visões cosmológicas de Anaximandro foram tão originais quanto a sua ontologia. Tales parece ter declarado que a Terra repousa sobre água; Anaximandro rejeita a necessidade desse apoio, explicando que a terra é estacionária e fica no centro do universo. Sua equidistância de qualquer ponto explica porque ela não cai. Esta foi a primeira aplicação conhecida do princípio da razão suficiente. As estrelas, o sol, a lua e os planetas seriam aberturas que revelam o fogo para além dos céus. O universo de Anaximandro é representado na Fig. 4.

Anaxímenes (585 a.C.- 528 a.C.) foi um amigo mais jovem ou pupilo de Anaximandro. Seguindo a tradição milésia, ele tentou aprimorar as teorias de seu mentor. Postulou que a substância originária seria o ar, e não o misterioso ápeiron. O grande avanço de Anaxímenes foi descrever, pela primeira vez, um mecanismo que causaria a transformação das diversas substâncias. Tal mecanismo teria como base a compressão e rarefação do ar e dos outros elementos. Segundo Anaxímenes, quando o ar é comprimido, ele se transforma em água. A compressão da água, por sua vez, resulta na geração de terra e assim por diante.

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Fig.3. O universo segundo Anaximandro.

Anaxímenes foi também o primeiro “meteorologista”, elaborando tentativas de explicar fenômenos como a chuva, o arco-íris e relâmpagos.

A cosmologia da substância geradora

Os pensadores da escola milésia compartilhavam a metodologia e a visão ontológica. Ao contrário do que se disseminou a seu respeito (como em Barnes 1982, Kirk et al. 1983), eles não eram monistas da substância: aceitavam a existência de uma diversidade de substâncias. No entanto, nem todas elas estariam no mesmo nível. Diferentes milésios distinguiam uma substância específica como sendo responsável por gerar as outras substâncias (Graham 2006). Podemos chamar essa visão ontológica de “cosmologia da substância geradora”. A teoria pode ser representada como um sistema de axiomas (Graham 2006):

  • Existe uma substância geradora primária.

  • Através dos mecanismos apropriados, essa substância geradora dá origem a substâncias ou elementos derivados.

  • Ao sofrer uma transformação, a substância geradora deixa de existir.

  • Por sua vez, as substâncias derivadas podem reconstruir a substância geradora primordial.

Usando a notação formal atual,

  • 1. O mundo é composto de uma coleção de substâncias básicas S={S1,…,Sn}. Def. Si=substância básica.
  • 2. ∃ Sg ∈ S / antes do tempo t0, Sg era a única substância existente. Def. Sg=substância geradora.
  • 3. ∀ Si ∈ S ∃ T / Si é gerada a partir de Sg por meio da transformação T.
  • 4. ∃ M / M é um mecanismo material que provoca T.

  • 5. O mundo existe seguindo transformações regulares (i.e. legítimas) de Sg e de suas transformações derivadas.

Esta teoria assemelha-se em estrutura com as teorias científicas atuais, notadamente: 1. Todos os fenômenos são explicados por mecanismos naturais. 2. Os mecanismos são legítimos, isto é, não existem eventos sobrenaturais. 3. Os seres humanos não têm qualquer papel no funcionamento do mundo. Na verdade, o mundo é indiferente à vontade humana. Embora o mundo seja um sistema material, não possui vida e, portanto, é desprovido de emoções, sentimentos ou vontades.

Heráclito

Heráclito nasceu em Éfeso, na costa jônica da Ásia Menor. Viveu na virada dos séculos VI e V a.C. Ficou conhecido por sua associação com a máxima panta rei, “tudo flui” [N.T. tudo muda, nada persiste], expressão de Platão, na verdade, e provavelmente de autoria de Crátilo. No entanto, é verdade que Heráclito fez uma crítica da teoria milésia da substância geradora. A imagem do mundo que parece emergir dos escassos fragmentos (Graham 2010) é a de um mundo em transformação, onde não existe substância geradora ou originadora, mas somente um conjunto de substâncias em permanente mutação. Embora tenha-se argumentado que para Heráclito o fogo é uma substância que apresenta alguma proeminência em relação às outras, é mais provável que ele tenha considerado o fogo como um exemplo de algo que pode adquirir estabilidade através da transformação. Como observado por Graham (2010): “Heráclito realmente acredita no fluxo, provavelmente das transformações elementares, mas, diferente de Crátilo, ele vê o fluxo como sendo compatível, ou até mesmo causador, da estabilidade de estruturas superiores (para uma discussão do ponto de vista da física contemporânea, ver 2013).

Logo, Heráclito pertence à tradição milésia, apesar de suas críticas relevantes às ideias de seus antecessores. Devemos lembrar, contudo, que para os milésios, a aceitação da crítica é um ingrediente essencial para se atingir o conhecimento. Tal caráter conjectural do conhecimento seria mais tarde enfatizado por Xenófanes, que se preocupava profundamente com questões epistemológicas.

As ideias ontológicas de Heráclito parecem estar na vanguarda da filosofia do processo. Para ele, a transformação é a característica mais essencial do mundo; é básica e legítima (i.e. devido a λογοσ). A transformação local é necessária para a estabilidade global. As substâncias básicas do mundo sofrem constantes transformações a partir umas das outras. Uma implicação importante disso é que se a transformação é legítima, então o mundo não é um chaos (χάος), mas sim um cosmos(κόσμος).

Existe um outro aspecto relevante em Heráclito. Ele demonstrou preocupação com o papel do ser humano no universo. Nesse aspecto, podemos considerá-lo precursor dos pré-socráticos posteriores, como Demócrito, e das tradições socrática e helenística. Heráclito parece ter sido um cosmólogo, com uma ampla gama de interesses, desde a ontologia até a natureza da verdade. Ele parece ter sido o primeiro filósofo completo do Ocidente.

Parmênides

Parmênides (nascido no fim do século VI a.C. em Eleia) ocupa um lugar de destaque entre os pré-socráticos, senão na própria história da filosofia Ocidental. Ele formulou uma crítica radical ao conceito de transformação. Embora tenha se expressado na forma poética (provavelmente influenciado por Xenófanes), foi rigoroso em suas análises. Parmênides introduziu o primeiro argumento dedutivo de que se tem registro, que pode ser expresso como:

– O ser, é.

– O não ser, não é.

– O ser não pode vir do que não é.

Logo, o ser não pode vir a ser. É necessário ser.

Como consequência, se mudar exige deixar de ser uma coisa e vir a ser outra coisa, mudar não é possível. O universo é homogêneo, completo, imutável e eterno. A realidade deve ser muito diferente daquilo que os nossos sentidos sugerem e que nós ingenuamente aceitamos.

Ser incompleto é não ter ou precisar de algo que não é. Como o não ser não é, o não-ser-completo não é. Ao ser, nada pode faltar. Ser é completo. Sendo completo, não pode mudar. O mundo consiste de nada além de puro ser.

A posição de Parmênides foi defendida por Zenão e mais tarde expandida por Melisso de Samos. Seu ataque à teoria da substância geradora e da mutabilidade desviou radicalmente a direção da especulação filosófica no Ocidente (para uma análise contemporânea de Parmênides, ver Romero 2012).

Pré-socráticos posteriores

A reação contra Parmênides consistiu na aceitação parcial de sua ontologia, em particular a ausência de uma substância geradora, e na negação de outros aspectos tais como a imutabilidade. Os pluralistas, Anaxágoras e Empédocles, e os atomistas, Leucipo e Demócrito, propuseram novas teorias de mutabilidade, só que baseadas na emergência de novas coisas a partir de componentes imutáveis. Anaxágoras propôs que tudo se compõe de todo o resto, mas em proporções variadas. Ele adiantou uma espécie de teoria dos fractais. Para Empédocles, todas as coisas seriam feitas de combinações de quatro elementos imutáveis. Por fim, os atomistas aceitavam a ideia de Parmênides sobre coisas imutáveis (a que chamavam de átomos – ἄτομος), mas também aceitavam a existência do vazio. Assim, os átomos se combinam para produzir coisas complexas, que podem se transformar ao terem sua composição alterada. As coisas que emergem também possuem propriedades emergentes. Essas ideias seriam mais tarde adotadas pelos Epicurianos e pela ciência moderna.

Ao final do período pré-socrático, o legado jônico já modelara uma nova visão de mundo, tendo como principais elementos:

  • O conhecimento é adquirido pela razão e experiência. Ele não é revelado.

  • Toda verdade é transitória.

  • Os fenômenos naturais são impessoais e físicos; eles obedecem leis. Não existe mágica.

  • O valor de uma teoria é medido pela sua capacidade de representar o mundo real.

  • Nenhum pensamento ou ideia é final. Não existe o conhecimento perfeito.

  • Tudo é aberto a críticas.

Com relação à cosmologia, a visão pré-socrática acabaria por formatar a grande síntese de Aristóteles — que viria a dominar as ideias ocidentais sobre o universo até o século XVI d.C. Os principais pontos dessa cosmologia são:

  • O universo é eterno, finito e esférico.

  • A Terra é o centro do universo.

  • Tudo na Terra é composto de quatro elementos (terra, fogo, água, ar).

  • Os céus são compostos de um quinto elemento: o ‘éter’.

  • Os quatro elementos são afetados por propriedades (secura, frio, umidade, calor).

  • Os objetos reais são compostos de forma e substância (matéria).

  • A mutação envolve alteração de forma e permanência de substância.

  • O movimento natural na esfera sublunar é retilíneo. Nas esferas mais elevadas, o movimento é circular.

  • Não existe nenhum papel central para o homem nas engrenagens do universo.

Enquanto essas visões passavam a ser mais amplamente aceitas, na Índia uma nova visão completamente diferente começava a se consolidar.

A ascensão do budismo

Como ocorre com Jesus Cristo, há debate entre os estudiosos sobre a existência histórica de Siddhattha Gotama (em Sânscrito: Sidarta Gautama) e dos detalhes sobre sua vida. Para os que aceitam sua historicidade, Siddhattha nasceu em Lumbini (atualmente Nepal), filho de um rei do clã Sakya (por isso ele é também conhecido como Sakyamuni). Isso pode ter ocorrido por volta de 563 a.C.

Siddhattha teve boa educação e viveu uma vida rica, porém isolada, até os 30 anos. Casou-se e teve um filho. Em algum momento ele teria começado a questionar o propósito de sua vida. Observou a inevitabilidade da doença e da morte e tentou desenvolver uma resposta às perguntas existenciais mais básicas: Por que existimos? Como devemos nos comportar? Por que sofremos? Por que morremos? Por que as coisas são como são e não de outra forma? Ele vivia angustiado e buscou libertar-se do peso da ignorância.

Siddhattha decidiu mudar seu estilo de vida e adotou práticas ascéticas. Os samanas, filósofos e ascéticos errantes, eram comuns nessa época no norte da Índia. O século VI a.C. na Índia foi um tempo de crise, com migrações em massa para as novas cidades e a transformação de uma sociedade rural numa organização social orientada para o comércio, concentrada em centros urbanos densamente povoados. Foi uma época de mudança de valores morais e muitas pessoas, como ocorreria sete séculos mais tarde no Egito e na Ásia Menor, buscavam uma vida mais espiritualizada retirada do mundo.

Em sua busca por respostas às suas questões existenciais, Siddhattha foi ao extremo oposto da sua vida anterior. Praticou meditação, ascetismo e automortificação numa tentativa de transcender as limitações do corpo. Com o tempo, ele se deu conta de que essas práticas só o haviam debilitado, não tendo sentido nenhum progresso importante no sentido de entender-se a si mesmo e ao mundo. Ele então interrompeu esses extremos e seguiu o caminho do meio, que o levou às respostas há muito buscadas. Assim que foi debelada a ignorância, através da introspecção e análise de suas experiências passadas, assim que viu nitidamente a natureza das coisas, ele tornou-se o Buda, “o iluminado”.

Buda devotou os 40 anos restantes de sua vida a explicar a sua compreensão das coisas e como libertar os homens da angústia e do sofrimento desnecessário. Falou a muitas pessoas em muitos lugares, usando diferentes abordagens e estilos. Não escreveu nada, mas após sua morte, por volta de 483 a.C., seus discursos (Suttas) foram reunidos em cinco coleções que formam o Cânone em páli, no qual se baseia a escola Theravada. Os Suttas contêm todos os elementos básicos da filosofia budista, que seriam mais tarde expandidos e enriquecidos, dando origem a diferentes escolas, como as doutrinas Mahayana e Vajrayana do budismo.

 

A filosofia Theravada

O budismo primitivo constava de 18 escolas diferentes (Bhagwat 2006), das quais somente a escola Theravada sobrevive até hoje. A doutrina Theravada segue o cânone em páli sem os acréscimos posteriores. Os principais pontos da filosofia Theravada, também presentes nas formas posteriores do budismo, são: as Quatro Nobres Verdades, o Caminho Óctuplo, a doutrina do “não eu” (anatta) e a doutrina da origem dependente (Paticca-Samuppada). Descrevo-os em seguida.

As Quatro Nobres Verdades, nas palavras atribuídas ao próprio Buda, são (Bhagwat 2006):

“A Primeira Nobre Verdade é o sofrimento. Nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento, a união àquilo que é desprazeroso é sofrimento, a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento, não obter o que se deseja é sofrimento — ou seja, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.”

“A Segunda Nobre Verdade é a origem do sofrimento. É o anseio pela vida, que leva de nascimento a nascimento2, juntamente com a luxúria e o desejo, que encontram a gratificação aqui e ali, a sede do prazer, a sede de ser, a sede de poder.”

“A Terceira Nobre Verdade é a cessação do sofrimento. Ele se extingue com a cessação da sede — uma cessação que consiste na ausência de toda paixão, através do abandono dessa sede, da libertação dessa sede ou da destruição dessa sede.”

“A Quarta Nobre Verdade é o Caminho que conduz à cessação do sofrimento.”

O caminho mencionado é o Caminho Óctuplo, que leva a se atingir o discurso correto, a ação correta, o esforço correto, a vida correta, a atitude correta, a concentração correta, a visão correta e a intenção correta. Ao seguir o Caminho Óctuplo, o iniciado adquire o conhecimento das Três Características da existência (anicca): sofrimento, impermanência e não alma, ou falta de essência. A ontologia Theravada, como a de Heráclito, enfatiza que o substrato básico do mundo é formado por eventos. Diferente de Heráclito e da tradição jônica, ela nega a existência das substâncias. Todas as coisas são agregados transitórios de eventos. Não existe nenhuma essência ou substância permanente abaixo desses eventos. Logo, não existe o “eu” por trás da nossa estrutura psicológica. Todas as nossas tentativas de nos gratificarmos nada mais são do que um produto da nossa ignorância: não existe o “eu”, nem a alma, nem outra entidade que perdure além do desdobramento dos eventos. Os humanos, assim como o universo, são anatta, ou seja, não possuem atta, uma natureza ou alma substancial e permanente.

Outro ensinamento importante de Buda é a sua compreensão da causalidade: a doutrina da origem dependente (Pattica-Samupadda, ver Laumakis 2008 para um relato na perspectiva da filosofia Ocidental). Não existem eventos isolados. Todos os eventos têm relação causal com outros eventos. O mundo é um sistema de eventos. A origem dependente é essencial para se compreender a origem do sofrimento e o próprio mundo. Nas palavras de Buda (Bhagwat 2006):

“Da ignorância depende o kamma, do kamma depende a consciência, da consciência dependem o nome e a forma, do nome e da forma dependem os seis órgãos sensoriais3, dos seis órgãos sensoriais depende o contato, do contato depende a sensação, da sensação depende o desejo, do desejo depende o apego, do apego depende a existência, da existência depende o nascimento, do nascimento depende o envelhecimento, a morte, o pesar, a lamentação, a miséria, a mágoa e o desespero.”

Tal é a origem de toda a agregação da miséria. Porém, com o desaparecimento completo e a cessação da ignorância, descendo-se a cadeia da dependência, toda essa massa de sofrimento cessará.

Buda para aqui, na libertação de toda ilusão e sofrimento. Ele nega as questões cósmicas. Seus seguidores, contudo, viriam a criar toda uma cosmologia centrada no conceito da origem dependente. Para eles, o universo existe por causa da ignorância e cessará junto com ela.

A cosmologia Abhidharmakosa

De acordo com a tradição budista, que tomou emprestados muitos elementos das mitologias védico-bramânicas, o universo passou a existir através do kamma, isto é, da ação e das vontades, dos seres vivos. O universo é sustentado pelo kamma e se desintegra com a destruição ou dissipação do kamma pelo conhecimento. Tudo que existe, existe por ignorância e cessa com o fim da ignorância.

O universo físico é um disco ao redor do qual sopra um círculo de vento. O disco sustentado pelo vento é formado de água, sobre a qual há um anel de terra dourada. Sobre essa terra existe um oceano com quatro continentes. O do sul é o que conhecemos como a Terra. Seu nome é Jambudvipa. A uma distância dos continentes ficam anéis concêntricos de montanhas e mares. No centro do universo está o Monte Meru. A altura do Monte Meru é de 560.000 km. Cortando o Monte Meru está o eixo do universo, que, em grande escala, é simétrico. Pouca atenção é dada aos fenômenos astronômicos nesta cosmologia. As estrelas, o sol e a lua simplesmente giram ao redor do Monte Meru. Os indianos antigos parecem não ter observado, como fez Parmênides, que a lua reflete a luz do sol. Eles achavam até mesmo que os corpos celestes têm o tamanho que aparentam à nossa vista.

Acima e abaixo do Monte Meru há diferentes níveis de existência. O cume quadrado do monte é o céu Tavatimsa. Trata-se do último céu que tem contato com a terra. Existem céus inferiores acima do Monte Meru, e céus superiores acima deles. Abaixo da terra existem oito infernos quentes e oito frios. Esses infernos são habitados por uma variedade de demônios e maus espíritos; ver em Sadakata (2009) e Randolph Kloetzli (2007) relatos detalhados sobre essa mitologia complexa.

Acima dos reinos dos deuses, existem reinos de “forma” e de “falta de forma”. Os seres renascem em diferentes reinos ou infernos, dependendo de seu kamma. O caminho do conhecimento tira os seres dos infernos inferiores, elevando-os aos reinos de forma e, por fim, aos reinos em que eles são libertados tanto da forma quanto da mudança. Todo o prédio do universo é mantido pela ânsia e o desejo dos seres: o vento que sustenta o mundo é formado pela exalação desse sem-número de seres exauridos de querer, lutar, buscar, desejar, ansiar, sem outra razão além da ignorância da vaidade de suas ações e do vazio das coisas. Toda essa imensa massa de dor e sofrimento cessa com a compreensão universal das Quatro Nobres Verdades e da origem dependente.

As Figs. 4 e 5 mostram desenhos do universo budista.

 

GustavoFig5

Fig. 4. Desenho do universo budista.

 

6. Vista do cosmos segundo Abhidharmakosa. Os doze continentes são representados 25 vezes maiores: (1) continentes orientais; (2) continentes meridionais; (3) continentes ocidentais; (4) continentes setentrionais.

GustavoFig6 

Fig. 5. O Monte Meru (também conhecido como Sumeru) e o sistema cósmico budista.

O Sistema do Mundo e os continentes que circundam o Monte Meru

Os Sete Anéis da Montanha Dourada circundam o Monte Meru que está no centro

[embaixo do círculo:]

O “zodíaco” das vinte e oito mansões lunares

[no círculo, sentido horário:]

Uttarakuru ou Kuru

Kauravas

Videhas – Videha ou Purvavideha – Dehas

Avaracamaras

Jambu com a Vajrasana

Chamaras

Shathas

Godaniya

Uttara-mantrins

Anel de Montanhas de Ferro

[dentro do círculo]

Grande Mar

[centro, linha vertical]

4 Reinos de “Não Lugar” – sem forma (Arupa)

Reinos da forma

Reinos do desejo

[lado direito]

6 Reinos Celestes Kamadhatu

Trayastrimsha (Céu dos 33 Deuses)

Disco Dourado

Disco de Água

Disco de Ar

Preta Loka (no plano do mundo)

8 Infernos Quentes

8 Infernos Frios

Hoje, essa complexa cosmologia budista é interpretada alegoricamente. O ponto mais importante a ressaltar, para nós, é que no budismo o universo físico é intrinsecamente unido aos seres vivos. Na verdade, ele é causado pela ignorância desses seres. Esta visão está presente nos antípodas da visão pré-socrática do Cosmos.

Cosmologia no Oriente e Ocidente

O diagrama apresentado acima, mostrando as visões de mundo pré-socrática e budista, indica que existem algumas semelhanças e muitas diferenças entre as duas tradições. Entre as semelhanças, podemos destacar:

 

  • Ambas adotam a abordagem de baixo para cima. Não existem “revelações” feitas por deuses ou entidades sobrenaturais. O conhecimento do mundo é obtido pela experiência, tanto externa quanto interna. Nos pré-socráticos, a ênfase é dada nos sentidos externos e na razão. No budismo, na análise psicológica e na introspecção racional.

  • Para as duas tradições, a terra está no centro do universo. No budismo, o Monte Meru está no centro e os objetos astronômicos orbitam ao seu redor, no sentido estrito da palavra. Porém, é possível elaborar sobre o caráter alegórico do Monte Meru.

  • Nas duas visões de mundo, o problema da mudança é de vital importância.

  • Há uma rejeição nítida à cosmogonia tanto nos pré-socráticos como no budismo antigo: não existe “princípio” ou “origem” do universo. O que se pode conhecer são seus movimentos e evolução.

  • As duas tradições presumem a causalidade estrita. Tudo que existe é resultado de uma cadeia causal.

  • Existe forte adesão a uma forma básica do princípio da razão suficiente: tudo que ocorre, ocorre por uma razão.

  • Tanto os pré-socráticos quanto os budistas Theravada sustentam que a realidade é diferente das aparências. Eles partem das formas mais primárias do empirismo e do realismo ingênuo. A nossa ignorância pode ocultar as coisas como elas realmente são.

Além dessas características comuns, existem profundas diferenças. Tempos depois, quando o intercâmbio entre Oriente e Ocidente se deu em maior intensidade, muitas diferenças foram suavizadas (ver, por ex., Kuzminski 2008). Contudo, permanece o fato de que no caso dos pré-socráticos e do budismo Theravada, as diferenças eram tão radicais que as sociedades correspondentes desenvolveram diferentes valores éticos e posições gerais com relação ao mundo.

Entre as diferenças mais importantes, podemos destacar:

  • Pré-socráticos: em geral evitaram adotar elementos míticos. Na visão jônica, o fator humano não desempenha um papel relevante no cosmos. A natureza é profundamente indiferente a nós. Somos o resultado de processos naturais, que são legítimos. Esses processos constituem mecanismos por trás de fenômenos. Os pré-socráticos eram engajados na busca do conhecimento, tentando desvendar os mecanismos que regem a evolução do mundo.

  • No caso do budismo, pelo contrário, a mitologia é aceita como metáfora da existência. Os processos vitais (dos seres humanos, animais, deuses e demônios) estão no centro do cosmos e determinam o mundo como ele é. Os fenômenos se baseiam na condição vital: o que vivenciamos é geralmente condicionado por nossas disposições. Portanto, os budistas se interessavam pela busca da sabedoria, não do conhecimento.

As consequências éticas são óbvias. Para os cosmólogos jônicos, o caminho para mudar a nossa condição passa pelo conhecimento da estrutura física e da dinâmica do mundo. Quanto mais sabemos, menos tememos, e mais forte fica nossa capacidade de manipular o ambiente. O budista, por outro lado, tenta mudar a visão que herdou de si mesmo e sua relação com a experiência. O budista, pelo menos aquele do século V a.C., não tenta mudar o mundo. Ele tenta mudar toda atitude impensada com relação às aparências, numa tentativa de livrar-se da angústia e do sofrimento de uma existência dominada pela ignorância. Assim, consideramos o budismo como mais uma entre muitas tentativas de salvação individual, como uma religião, ou no mínimo, uma filosofia religiosa. O budismo serve como a cura para o desejo desnecessário, para a ânsia, uma libertação da ilusão persistente do ser, um dissipador de devaneios e ilusões. A filosofia jônica, pelo contrário, é a aceitação do processo de ser, uma tentativa de se compreender como fluir, o menos dolorosamente possível, junto com a corrente das coisas.

Comentários finais

Os pré-socráticos e os budistas antigos seguiram caminhos divergentes. Os primeiros viriam a fornecer as bases sobre as quais se construiriam a ciência moderna e a filosofia ocidental. Os últimos evoluíram para diferentes correntes religiosas, gerando a mais elevada sabedoria psicológica empirista produzida pelo homem na forma das duas mais importantes obras do Abhidhamma: o Dhammasangani e o Patthana (ver Bodhi 1993).

Somente após a interação entre Oriente e Ocidente ocorrida durante o período helenístico (350 a.C. – 200 d.C.) é que as convergências ficam evidentes, nas escolas cínica, estoica, epicurista e cética por um lado, e nos diversos aspectos do budismo Mahayana por outro. O estudo dessa interação, bem como as perspectivas que ele abre para uma nova visão de mundo, adequada aos nossos tempos, é uma tarefa pendente, porém urgente.

Referências:

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Notas:

1 Emprego ao longo deste artigo palavras simplificadas em páli para os termos budistas (sem os sinais diacríticos).

2 Devemos lembrar que o budismo aceita as crenças comuns indianas sobre renascimento e kamma (em Sânscrito, karma). Para as correntes do budismo naturalizado, ver Batchelor (1997) e Flanagan (2011).

3 No budismo, a razão é somada aos cinco sentidos sensoriais de costume.