Bergson e Borges: o amor, o infinito e o tempo
Jorge Luis Borges, logo na primeira linha de O Aleph nos diz: “Na ardente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis da praça Constitucíon tinham renovado não sei que anúncio de cigarros vermelhos; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita” (1992, p. 115). Esse relato revela a tristeza do narrador quando começa a perceber que, a partir do instante da morte de Beatriz, todo o futuro lhe estaria negado e mais: que sua imagem ficaria apartada de todas as outras imagens do mundo, que não seriam mais capazes de agir ou reagir sobre ela. Assim, Borges escreve O Aleph buscando reverter o afastamento da imagem de Beatriz de todas as outras imagens do mundo, de modo a pensar a continuidade da implicação da mulher por quem estava profundamente apaixonado em todas as modificações do universo.
Essa tarefa não poderia ser cumprida (óbvio!) a partir dos preceitos clássicos do pensamento e, sobretudo, a partir da forma habitual de se compreender o tempo, a memória, a duração. A morte pessoal de Beatriz reafirma-se no modelo habitual do pensamento, mas ao mergulhar no caráter criativo e imanente do tempo, Beatriz é rediviva e a engrenagem do amor transmite sua força e sua potência.
Tendo Beatriz partido, tratava-se então de recuperar a sua imagem. E, para tal, Borges poderia se servir de dois caminhos: ele poderia acrescentar aos retratos da casa da rua Garay e a todos os outros objetos e coisas que aludissem a Beatriz, uma longa e exaustiva lista de suas características, comportamentos, sentimentos, etc. Esse caminho – Bergson nos ensina – se detém no relativo; ou poderia seguir outro caminho, menos usual e também ensinado por Bergson, qual seja, aquele que tendo em vista a recuperação de uma imagem, atingiria o absoluto (1979b, p. 13). No primeiro modo, para se aproximar de uma coisa, elege-se um ou mais ponto de vista e exprime-se a coisa por símbolos que pretendem traduzi-la; no segundo, Beatriz não é olhada de fora, e os símbolos e os pontos de vista são dispensados, uma vez que sua imagem buscará ser apreendida a partir dela mesma; suas ações e gestos seriam vivenciadas não como acréscimos, que nunca completariam a idéia que tenho dela, mas vivenciadas interiormente, em um esforço de simpatia. Ou seja, ou Borges ficava contando e relembrando num trabalho literário sempre enriquecedor, porém infinito de descrições, histórias e análises do que foi Beatriz Viterbo e com isso ele só forneceria pontos de vista sobre ela e a aprisionaria em símbolos, ou Beatriz lhe seria dada de uma vez, integralmente.
Multiplicar os traços de caráter de Beatriz, reviver suas falas e suas ações em nada se compara com o sentimento indizível experimentado com a coincidência com a própria pessoa. Logo, sendo o caminho do relativo um caminho insuficiente para atingir Beatriz verdadeiramente, Borges busca encontrar o caminho do absoluto, por sua apreensão indivisível e, é em razão disso, que ele pensa o infinito Aleph, esse pequeno objeto furta-cor que contém todos os tempos e todas as imagens do mundo.
No que seria o dia do seu aniversário de Beatriz, Borges visitava sua casa e além de saudar seu pai e seu primo, encontrava seus retratos, móveis, louças, ou seja, encontrava-se com os objetos presentes, objetos percebidos, imagens atualmente dadas. Estudar as circunstâncias de seus muito retratos, ver revelar-se uma Beatriz para cada ocasião e data, o fazia lembrar o que ela foi em cada uma dessas épocas e também relembrar outros acontecimentos, gestos, falas e sorrisos. Aproximar-se de Carlos Argentino Daneri era uma maneira de recuperar tantas imagens dela e partilhar momentos pretéritos que continham a presença de Beatriz. Ocorre que, entrar na casa da rua Garay todo dia 30 de abril e relembrar essas passagens, nada mais seria do que um exercício de análise, de multiplicação de elementos tradutores de sua amada. Por meio dessa multidão sempre crescente de impressões que teriam a pretensão de substituir a ideia que dela teria, Borges fracassaria em seu intento. Ele sabia que a memória das conversas e dos objetos lhe daria somente o passado passado de Beatriz, lhe daria imagens com data, hora e local de acontecimentos passados, portanto seria uma memória relativa ou uma memória pessoal. Com ela, ao olhar o telefone, Borges teria o saudoso pensamento de que aquele instrumento “noutros dia reproduziu a irrecuperável voz de Beatriz” (1992, p. 121); ou, ao se aproximar do retrato sobre o piano num “desespero de ternura” confessar que Beatriz Elena Viterbo estava perdida para sempre, porque no retrato ela deixa de ser uma imagem presente e passa a ser uma imagem representação e como tal, ali no retrato, ela se isola do restante do mundo material.
A recuperação de Beatriz como modificação da morte não pode ser a recuperação de uma memória pessoal e, portanto, não pode ser um exercício de análise ou de um olhar relativo. Borges vê a urgência de dispensar os símbolos, de se dirigir ao tempo puro, ao absoluto, para uma memória que não é de um ou mais indivíduos, mas sim uma memória pura, para o que Bergson também denomina virtual ou duração (2006, p. 51).
No conto de Borges o Aleph é um objeto descoberto por Carlos Argentino, guardado no porão da sala de jantar de sua casa. É preciso descer as escadas do porão para vislumbrá-lo. Ao chegar lá Borges vê um mundo contraído numa esfera de dois ou três centímetros de diâmetro. Mas apesar dessa dimensão, todo o espaço cósmico estava ali reunido sem diminuição de tamanho. Lá estavam, “ sem se confundirem todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos” (1992, p. 122). E mais: todos os tempos do mundo contraídos sem sucessão ou justaposição; todas as durações englobadas ao infinito – uma simultaneidade de fluxos, como diz Bergson (2006, 61-78) ou, dito de outra forma, o Aleph é a duração como coexistência virtual de todos os tempos. Uma espécie de eternidade estava ali: “todo o passado, esse passado que não se sabe quando começou. E todo o presente. Esse momento presente que engloba todas as cidades, todos os mundos, o espaço entre os planetas. E é claro, o futuro. O futuro que ainda não foi criado, mas que também existe” (1987, p. 43). Ao descer ao porão, Borges afasta o véu da imprecisão, reencontra o imediato e toca o absoluto. O Aleph, então, é a “contração ontológica intensiva” em que todos os tempos coexistem virtualmente.
Claramente, este objeto remete ao pensamento de Bergson quando assim descreve a duração: “nasce, desse modo, a ideia de uma duração do universo, isto é, de uma consciência impessoal… tal consciência captaria numa única percepção, instantâneos acontecimentos múltiplos citados em pontos diversos do espaço” (2006, p. 52-53).
Borges imagina o Aleph para poder, mesmo que por um curto espaço de tempo, criar a possibilidade de vislumbrar a memória pura, a memória cósmica. Imagina-o para poder dialogar com todas as imagens de Beatriz. O Aleph seria então essa pequena esfera furta-cor “de brilho quase intolerável” onde todos os tempos estariam contraídos. Tudo o que Borges quer é que o “incessante e vasto universo” não se afaste dela porque enquanto atualização ela perde o contato com si mesma, mas quando novamente jogada na virtualidade pura, ela volta a integrar o todo da duração. Por isso não quer ficar com o passado, quer o passado no futuro. No Aleph, a imagem de Beatriz jamais se isolará do restante do mundo material; sua imagem jamais se perderá porque Beatriz não é uma imagem representação de Borges mas sim uma imagem do universo – a imagem de Beatriz, assim como as imagens de todas as coisas, escoam para o mesmo tempo impessoal (2006, p. 55).
Assim Borges relata o seu encontro com o objeto: “Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? Os místicos, em análogo transe, são pródigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não em vão rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação têm com o Aleph.) É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este relato ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei”.
Assim, o Aleph é o modo que Borges imaginou para atingir o infinito, posto que no infinito todos os tempos e todas as imagens coincidem. O infinito Aleph tinha que abranger todos os tempos. Agora, o fato do tempo puro “estar contido” nessa esfera furta-cor, nesse objeto esquecido no porão, nada mais seria do que uma atualização no espaço, do infinito das virtualidades, o que seria uma contradição. Borges sabe que o infinito não pode ser apreendido em uma imagem, pois qualquer representação nos dá apenas uma imagem ilusória da duração. E esta, ainda que possa ser sugerida por uma imagem, nunca será resumida numa representação. Portanto, ele sabe que não pode espacializar o infinito, ou seja, atualizá-lo nessa pequena esfera e então tal esfera é destruída rapidamente, junto com a demolição da casa. Espacializar o infinito seria tão somente criar de um falso infinito. Entretanto, imaginar esse objeto foi a forma que Borges encontrou para vislumbrar a memória pura, ainda que ele saiba que sua pobre condição humana não permite esse vislumbramento, Talvez por isso tenha ele sentido infinita veneração e infinita lástima.
E então, Borges volta a falar novamente a partir de seu corpo, de si mesmo, e como tal nos fala do atual. Enquanto “Borges pessoal” ele está fadado a esquecer. Como dizia Ravaisson: “ A matéria põe em nós o esquecimento” (apud Bergson, 1990, p.146). E Borges confessa: “ Nossa mente é porosa para o esquecimento. Eu mesmo, estou falseando e perdendo, sob a trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz” (1992, p. 128).
O tempo assim concebido, como impossível de ser escandido, o tempo que não admite sucessão, o tempo indivisível, o tempo da revivescência simultânea, é a duração real. Essa indivisibilidade é a própria conservação do passado no presente. Bergson nos diz que “temos o vício de abrir sempre diante de nós o espaço e fechar atrás de nós a duração” (1990, p. 122). É justamente em decorrência desse vício que Borges nos adverte sobre a sua dificuldade de transmitir o infinito Aleph. A duração pura exclui a idéia de justaposição e extensão.
De tod modo, eis o relato de Borges:
“Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão de uma casa em Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listras de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore, vi numa quinta de Adrogué um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página…, vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, inacreditáveis, precisas, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia cruel do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem tem olhado: o inconcebível universo.
Não há uma imagem para falar da duração, assim como não há uma imagem para falar do Aleph. A duração é mobilidade pura, se faz continuamente. Ciente disso Bergson afirma: “nenhuma imagem substituirá a intuição da duração, mas muitas imagens diversificadas, emprestadas à ordem das coisas muito diferentes, poderão pela convergência de sua ação dirigir a consciência para o ponto preciso em que há uma certa intuição a ser apreendida” (1979b, p. 17).
Talvez por isso Borges nos fale de formigas, espelhos, neve, ladrilhos, cachos de uva, desertos, sobreviventes de uma batalha, tabaco, cavalos, listras de metal, e tantas outras imagens tão diversificadas. Em seu esforço de ser melhor compreendido, Borges evoca outras imagens que também nos causa dificuldade: um anjo que voa simultaneamente para os quatro pontos cardeais, um pássaro que é ao mesmo tempo todos os pássaros, e outras imagens análogas ao Aleph. talvez a mais próxima seja aquela de Pascal: “uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma”. Descrevê-lo, ele sabe, é tarefa impossível pois requer a “enumeração de um conjunto infinito”. Ele precisa registrar com palavras os milhões de atos que ocuparam o mesmo ponto (sem contudo haver superposição ou transparência) vistos num “instante gigantesco”(1992, p. 125).
Bergson já havia nos dito: “a arte do escritor consiste sobretudo em nos fazer esquecer que ele emprega palavras … a harmonia que ele busca é uma certa correspondência entre as idas e vindas do seu espírito e as de seu discurso” (1979c, p. 91.). Essa complicação do dizer causa o “desespero de escritor” de Borges, dado que o que viu foi simultâneo, mas o que diz é sucessivo, porque a linguagem assim o é. Ou seja, enquanto escritor Borges não pode escapar da complicação do dizer, mas enquanto escritor que nos propõe imaginar o Aleph, ele nos coloca na simplicidade do ver. Apesar de Borges fazer uma descrição sucessiva por causa das imagens, a descrição que ele queria fazer coincidiria com o que viu, embora a linguagem jamais permita a descrição na duração real dos acontecimentos. A enumeração de Borges poderia não ter fim e só o tem porque o relato está inserido em um conto literário.
Os acontecimentos não estão nem no passado, nem no presente, nem no futuro, porque o tempo puro está fora da sucessividade, ou nas próprias palavras de Borges: “Não haverá um quando no tempo porque passado e futuro são infinitos. Tampouco haverá um onde porque todo o ser equidista do infinito”. (1960, p. 16)
Esse é o tempo de Bergson e também de Borges. Esse último já havia o descrito em O jardim dos caminhos que se bifurcam. Diz ele: … “T’sui Pen diferentemente de Newton e de Schopenhauer … não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries do tempo, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Não existimos na maioria desses tempos; nalguns existe o senhor e não eu; noutros, eu, não o senhor; noutros, os dois. Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor chegou à minha casa; noutro, o senhor ao atravessar o jardim encontrou-me morto; noutro, digo essas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma. … O tempo se bifurca perpetuamente para inumeráveis futuros”. (1995, p.103) Em resumo, é o tempo das multiplicidades virtuais, contínuas e qualitativas. Na verdade é o tempo que se desdobra infinitamente. “ Se o tempo é infinito ele tem que abranger todos os presentes e em qualquer instante estamos no centro do tempo. … Ou ainda, todos os momentos são centros desse tempo infinito” (BORGES, 1987, p. 17.) E em realidade é a coexistência dos tempos que se interpenetram: “o passado se prolonga no presente para criar o novo e o imprevisível” (HYPPOLITE, 1971, p. 469).
Na vida presente, isto é, diante do que está atualizado na existência, um sujeito age e reage sobre as imagens que encontra diante de si a partir de sua percepção do mundo. Uma imagem atualmente percebida sempre chegaria como coisa isolada e morta. Ou seja, as imagens atuais de Beatriz nada ocultariam, como se todo o seu ser fosse consumido em sua presentificação, ao passo que o passado ou o tempo puro é o que não se consuma, o que se mantém eternamente, o que é o tempo todo. Diz Deleuze: ” Há um passado puro, um passado em geral, um passado que não segue o presente” (1999, p. 45-46).
Assim, trata-se de sair da atualidade do presente em direção ao passado, mas um passado não individual e não pessoal; em direção a uma memória pura. Se o presente é sempre psicológico, como se pode ver no encontro entre Borges, o lembrador, e os velhos objetos sagrados que encantaram Beatriz, o passado puro (ou a lembrança pura) é um passado eterno, não psicológico, não individual, distinto do passado particular de um ou outro presente. Em uma só palavra, é a ontologia.
A abertura a todo universo traz imagens de Beatriz que são infinitamente mais diversificadas, múltiplas e com horizontes jamais realizados no que foi no que foi presente. Tudo o que se atualiza é pouco e reduzido – Beatriz em suas atualizações nada é perto das infinitas Beatrizes que existem virtualmente e por isso Borges deixa o presente para se colocar no passado em geral. Diz Bergson: “em nossa duração, aquele que nossa consciência percebe, um intervalo dado só pode conter um número limitado de fenômenos conscientes” (1990, p. 170). Portanto, abrir-se à memória pura é abrir-se ao que cria a todo instante algo novo – duração significa invenção, elaboração contínua do absolutamente novo. O presente só me dá o que está ou foi atualizado (“as mil e uma imagens de Beatriz”), enquanto que o passado passado me dá a diversidade incalculável de imagens de Beatriz – eis o que ele vê no Aleph. Se as imagens lembrança atualizam ou encarnam-se no presente, a lembrança pura não se esgota e não pode se esgotar em atualizações e, portanto, não podem ser totalmente presentificadas. Em uma palavra, a lembrança pura traz a marca do que ainda não é, ou não foi; a marca da vida no que ela ainda quer ser, a despeito da morte pessoal.
Borges diz que o tempo é a imagem da eternidade e o próprio Bergson afirme que essa duração que se contrai seria a eternidade. “Há, portanto, um passado em geral que não é um passado particular de tal ou qual presente, senão que como um elemento ontológico, é um passado eterno e em todo tempo, condição para a “passagem” de todo o presente particular. É o passado em geral que torna possíveis todos os passados” (Deleuze, 1999, p. 43-44).
Essa memória contração, ou se se quiser, essa memória do universo, já dissemos, não é a memória de um eu psicológico. Nessa “memória cósmica” passado, presente e futuro penetram um no outro formando uma continuidade indivisa. O passado não sucede ao presente, ele coexiste com ele, mas não é a coexistência de uma passado particular. É, ao contrário, a coexistência do passado puro, isto é, de todo o passado, integralmente. Essa memória pura não é a conservação de antigas imagens mas sim “um prolongamento do seu efeito útil até o presente” (BERGSON, 1990, p.63). Não é algo realizado, mas a realizar. É portanto uma memória orientada no sentido da natureza e que nos leva a agir e a viver: nos aponta para o porvir. Se para o universo não importa a memória psicológica mas sim a memória pura, da mesma forma, o que interessa não é a imortalidade de Beatriz Viterbo, imortalidade desse corpo particular, imortalidade pessoal. O que é necessário não é uma eternidade de uma imutabilidade, uma eternidade de morte, mas sim uma eternidade de vida. Por isso não interessa a imagem de Beatriz como produto de uma memória psicológica, mas como um encontro com o absoluto.
A morte pessoal é sempre uma questão psicológica, mas a vida em plenitude, a vida para além de suas atualizações, a vida em todas as infinitas virtualidades é ontológica. Pessoalmente, um homem sofre a ausência da mulher que ama, mas o afastamento da dimensão psicológica para a dimensão ontológica é uma forma de modificar a morte. O amor de um sujeito, uma alma apaixonada se torna assim uma abertura à ontologia, um trampolim para o tempo puro, para o absoluto, para o infinito. A partir do Aleph Borges sai da contração do presente e se abre para a distensão da duração. É assim que Borges usa esses mesmos objetos, os retratos, os móveis, a casa, não como desencadeadores das lembranças de um passado remoto e imóvel mas sim de um passado redivivo.
Se, como dissemos, o passado é essencialmente virtual, não podemos apreendê-lo como um passado passado, ou seja, um passado que passou. Esse passado passado esgotou sua influência sobre nós, e, por isso mesmo, não nos interessa mais. Mas o passado revitalizado passa a agir de novo sobre nós. É uma influência no meu futuro. Assim, a memória ganha um novo sentido: não é uma faculdade encarregada de repetir o passado no presente, mas passa a ser um ato de criação onde o passado retorna no futuro em novos afetos. Essa é a doutrina da vontade de viver de Bergson (do élan vital) que nos diz que “se algo quer viver (ele) abre seu caminho através da matéria ou apesar da matéria. … Esse ímpeto vital se manifesta em todas as coisas , cria o universo e está em cada um de nós” (BORGES, 1987, p. 11).
Quando Borges escreve O Aleph ele não o faz por um exercício intelectual, mas sim para presentear Estela Canto juntamente com um caleidoscópio enquanto esperava por seu amor. Escreveu-o como “prova da engrenagem do amor e da modificação da morte”. seu objetivo é então muito próximo a todo o ensinamento de Bergson quando este nos diz que devemos mudar a direção habitual do pensamento, ou seja, devemos nos habituar a pensar a duração a aí “…imediatamente o que estava entorpecido se distende, o adormecido acorda. O morto ressuscita em nossa percepção galvanizada” (1979a, p. 68). Dessa forma, reviveremos, nos encheremos de vida.
Referências
BERGSON, H. Oeuvres. Paris: PUF, 1959.
______. A intuição filosófica. In ______. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, São Paulo, 1979.
______. Introdução à metafísica. In Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, São Paulo, 1979.
______. A alma e do corpo. In Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, São Paulo, 1979.
______. Duração e simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
______. Matéria e memória: Ensaio da relação do corpo com o espírito. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1990.
BORGES, J-L. O Aleph. Sao Paulo: Editora Globo, 1992.
______. Cinco visões pessoais. 2. ed. Brasília: Editora UNB, 1987.
______. O jardim das veredas que se bifurcam. In: Ficções. Editora Globo, São Paulo, 1995.
______. A esfera de Pascal. In: Otras inquisiciones. Buenos Aires: Emecé editora, 1960.
DELEUZE, G. O bergsonismo. São Paulo: 34, 1999.
HYPPOLITE, J. Figures de la pensée philosophique I: Écrits de Jean Hyppolite (1931 – 1968). Paris: PUF, 1971.