A experiência humana da educação e os voos ilusórios das figuras lendárias da Educação à distância

Artigo de Nuccio Ordine (professor  da Universidade da Calábria) publicado em 23 de março de 2020 no “Corriere della Sera”.

Tradução: Flavia Bruno

 

Em tempo de corona vírus as escolas e as universidades também se preparam para reagir à emergência e se adequar construtivamente às recentes disposições de suspensão das atividades didáticas presenciais. Há alguns dias dominam nas redes, nas páginas dos jornais, nas transmissões de rádio e TV, nos sites universitários e escolares palavras-chave come “smart working”, “distance learning”, “business model”, “soft skills”, “Massive online open courses” e outras expressões que evocam o universo do ensino a distância e do trabalho virtual. Em resumo, uma escolha a que estamos obrigados para evitar que as necessárias diretrizes governamentais se trasformem em uma traumática interrupção das relações entre docentes e estudantes.

A excepcionalidade da situação que estamos vivendo nos fez também compreender a importância de uma coordenação nacional e os perigos que se poderiam correr ao entregar a instrução e os serviços de saúde pública ao arbítrio de cada região (do país). Até aqui nenhuma novidade. Mas o dado preocupante diz respeito a algumas das últimas intervenções que, de maneira enfática, consideram a epidemia como uma extraordinária oportunidade para trazer novamente e, com mais força ainda, a questão da “Educação a Distância” e as potencialidades virtuais a ela relacionadas. Uma calorosa adesão, ao longo da trilha traçada pelas inúmeras diretrizes internacionais que há alguns anos inundam os gabinetes dos reitores e dos diretores de escola, a assim chamada “didática do futuro”, fundada sobre modelos pedagógicos nos quais se despotencializam as “lições em sala de aula” e o contato direto entre professores e alunos. Em “tempos de peste”, lembrava sabiamente Albert Camus, parece inevitável sacrificar tudo “à eficiência”.

Mas esta regra vale também em tempos “normais”? Infelizmente, há pelo menos trinta anos, escolas e universidades correm cada vez mais o risco de sacrificar a educação ao mundo virtual e a una pedagogia mercantilista. Em um mundo globalizado, no qual a educação é considerada sobretudo um meio para adquirir uma profissão e não para formar cidadãos livres e cultos, é legítimo que nos alarmemos.  Reconhecer o quanto a tecnologia é indispensável sobretudo em circunstâncias extremas como essa, é uma coisa. Mas, pensar que se possa dispensar o livro e as relações humanas entre professores e alunos é uma loucura. Não é verdade que ler Orlando, o furioso no formato digital é o mesmo que ler o livro físico. Alguns neurocientistas sustentam que, ainda que o texto seja idêntico, o dispositivo digital distrai e não facilita a atenção necessária à compreensão!. Assim como não é verdade que estar permanentemente conectado favorece as relações humanas o (mundo virtual além de banalizar a amizade reduzindo-a ao Facebook com um simples click, está criando uma nova forma de terrível solidão!). E, da mesma maneira não é verdade que as aulas a distância tenham o mesmo efeito das aulas presenciais: estamos esquecendo que durante séculos o saber foi compartilhado entre docentes e discentes graças a uma relação direta, in preaesentia, na qual professores, armados de paixão e conhecimento, conseguiram seduzir e estusiasmar os seus alunos. Quem faz do ensino e da pesquisa a sua missão principal, sabe muito bem que hoje o limiar de atenção dos nossos estudantes certamente, não por culpa deles é muito baixo: manter o interesse deles vivo requer esforço e preparações extraordinárias, requer uma relação direta que não pode prescindir dos olhares e dos gestos de interação entre aquele que fala e aquele que escuta. Somente no encontro em sala de aula se desenvolvem as alquimias necessárias que permitem aos estudantes aprender com os professores e os professores com os estudantes.

Achamos, de verdade, que uma plataforma digital, um computador ou um quadro digital podem mudar a vida de um estudante?  Estamos certos de que o utilitarismo das “competências” seja mais importante do que o conhecimento em si? Estamos verdadeiramente convencidos que o encontro em sala de aula com os docentes deva ter como finalidade exclusivamente estimular as “habilidades individuais” e o “saber fazer”? E mais: como justificar o progressivo realocamanto de investimentos, da docência para os instrumentos de didática digital? Como podem desmotivar e despotencializar os professores em número sempre mais exíguo e mal pagos e imaginar, ao mesmo tempo, notáveis recursos para máquinas e computador? Neste momento mesmo de crise estamos tomamos consciência dos efeitos devastadores que os severos cortes de orçamento tiveram nos setores da educação e da saúde os dois pilares nos quais se funda a dignidade humana: o direito ao conhecimento e o direito à saúde.

O objetivo da educação não é a aquisição de um diploma. É sobretudo a experiência humana e intelectual que se realiza dia a dia, em um mundo feito de encontros e trocas concretas entre professores e estudantes. Reduzir essa experiência a uma relação virtual significaria transformar a educação em um estéril mercado de formaturas e diplomas e os estudantes em clientes a serem fidelizados. Significaria dar crédito às ilusões que voam alto, prometidas por falsas lendas que, ao contrário, não conseguiriam nos elevar um centímetro acima da nossa ignorância.  Lidemos agora com a emergência dos cursos a distância. E pensemos também – não só nos estudantes que, impossibilitados de conectar-se, não poderão desfrutar do ensino a distância ou  naqueles que inscritos em cursos de graduação, serão penalizados pela supressão da experiência direta nos laboratórios – em um extraordinário plano para recuperar as lições em sala de aula durante o verão. Porém transformar a exceção em regra, esquecendo-se do papel central da relação humana no ensino e a autêntica missão da escola e da universidade, seria um erro gravíssimo.