MODOS CONTEMPORÂNEOS DE DIZER DE SI
(Reificação psicologizante, gerenciamento do desvio e tratamento da vulnerabilidade social)
No seminário de 2019 promovido pela revista Cosmos e Contexto sobre os anos 1900, trabalhamos com a hipótese de que a psicologia e a psicanálise seriam processos históricos que instituíram um referencial laico da interioridade cujo horizonte de emancipação era o coletivo religioso e mágico. A interioridade forjada pela cultura literária do século XIX gradualmente constituiu uma massa de sujeitos que falam e pensam a partir do paradigma da interioridade. Este processo social foi reificado como uma disciplina das ciências humanas, sendo a condição para a consolidação da psicologia na passagem do século XIX ao XX.
Neste seminário, voltado a compreender a passagem do século XX ao XXI no campo psi (Seminário promovido pela revista Cosmos e Contexto em maio de 2025), pretendemos articular processos políticos e transformações da clínica com a finalidade de descrever alguns aspectos relevantes atualmente. Não deve ter passado desapercebido que, nos últimos 30 anos, a palavra “neuro” começou a aparecer das mais diversas formas no campo da psicologia e, concomitantemente, nos usos dos sujeitos falantes para a descrição de si. Não mais restrita a uma especialidade médica, a “Neurologia”, e não mais sinônimo de uma materialidade orgânica, “Neuro” foi cada vez mais sendo incorporado como um sinônimo da Cognição, ou de Sujeito cognitivo. Para não escapar do campo semântico cibernético tão caro à disciplina: o sujeito cognitivo como o software do aparato cerebral, sua interface fenomênica (VIDAL, 2021).
Esse estado de coisas tem uma história, em parte política, em parte história das formas de subjetivação. Em 18 de julho de 1989, George Bush declara em discurso no Congresso Nacional Americano que a década 1990-1999 será “a década do cérebro”. Em três anos será declarada nesta mesma cidade e levando seu nome, uma “nova ordem mundial”, o que será conhecido como o Consenso de Washington. O cérebro seria a Nova Ordem Mundial?
Ao sujeito tripartido da República será contraposto o sujeito unificado do cérebro; ao conflito do mundo polarizado da Guerra Fria será contraposta a terraplanagem ideológica da administração pragmática, criando essa intrigante figura de linguagem que é o “radical de centro”, justo meio-termo, isento, operacional e protótipo dos monstros apolíticos que não demorarão a surgir na cena dos anos 2000 (EHRENBERG, 2008). Os diversos fenômenos de terceira via que se apresentam ao público como se estivessem purificados de ideologia. No caso da psicologia e da psiquiatria, travestidos de um aparato tecnocrático que é tomado como a fronteira de qualquer construção crítica. É nesse momento que, para meu espanto, vemos declarações públicas de padres dizendo que estão “deprimidos”, que fazem uso de medicação e que isso não tem relação alguma com sua fé. Ou rockeiros dando dicas de “saúde mental”. Até então supunha que a Igreja Católica e o rock fossem discursos que tinham o seu próprio cercadinho de realidade e que não se submeteriam a essa descrição pasteurizada e tecnocrática que os saberes psi encarnaram no momento.
As certezas da nova ordem mundial se assentam sobre o liberalismo econômico e a determinação cerebral, cumprindo um certo papel de unificação e eliminação de diferenças em nome de uma “verdade”. O pano de fundo silencioso das duas premissas é uma certa engenharia social, espécie de sonho oculto dos dois fenômenos. A verdade econômica do mundo se assenta na verdade cerebral do sujeito. O mundo desenhado como evolução econômica constante, potencialmente infinito, tem como alicerce um aparato de corpo equiparado a uma espécie de centro de comando, que é o cérebro. Dinâmica exemplarmente resumida no filme infantil Divertidamente (Inside out, 2015). Espécie de neuro pedagogia com uma teoria da causalidade e da agência embutida, em que o cérebro é central, justamente porque explica a experiência do sujeito de forma substancialista.
A universalidade do corpo retira a psicologia do campo da variação cultural, da qualidade irredutível das experiências para uma quantificação presumida das características. O fundamento do patológico é o funcionamento do corpo. O sujeito adoecido está alienado, não porque o sintoma seja expressão de uma dimensão indizível referente ao sujeito, mas porque reflete uma falha em sua materialidade física, à qual, agora, o próprio sujeito conscientemente faz referência. Para todos os efeitos, parece que supomos ser corpos mais ou menos eficazes. Ainda que a psiquiatria continue operando pelo exame clínico, tudo se passa como se essa base somática invariável e verificável estivesse estabelecida, sem de fato estar.
A certeza de uma fundamentação física no corpo, do transtorno mental, equivale à certeza pragmática da vida pública em que a ideologia equivale ao transtorno. Assim como existe um meio correto de funcionamento do corpo, que corresponde ao psiquismo saudável, também existiria um meio correto de funcionamento da vida pública que corresponde ao pragmatismo administrativo não enviesado politicamente. O transtorno é a variação patológica no nível do indivíduo e a ideologia é a variação indesejada no nível político.
Quando a verdade é somente uma questão de método, a dimensão propriamente psicológica (e ética) desaparece, pois se torna inviável reconhecer a dimensão ontológica desta variação. Ela só pode ser pensada como erro, como desvio do método da verdade ou déficit da verdade. Suas diferenças não são mensuráveis a partir de parâmetros relativos entre si; o parâmetro é um em si, a partir do qual todas as diferenças vão se declinando e se definindo exatamente por suas posições em relação à “verdade”. Em termos psicopatológicos: as teorias que mais patologizam são as que partem da premissa não refletida e generalizada de normalidade.
A popularização do saber psi só se expande na exata medida em que abandona tudo que possa ser referenciado à estranheza, singularidade ou idiossincrasia. A patologização como marco regulatório da diferença quantifica os déficits, as quantidades de comportamentos, as quantidades de tempo dos sintomas e seus efeitos na funcionalidade. Uma mecânica do pathos, como analisado no livro A Mecânica das Paixões de Alain Ehrenberg (2018). Este marco regulador funciona também como espécie de fronteira simbólica, cujos nomes supostamente substituiriam ou explicariam metadiscursivamente o que estes mesmos sujeitos poderiam dizer sobre si. Como se o nome do transtorno, no que ele tem de mais genérico e impessoal, se tornasse mais significativo e valorado socialmente do que o que poderia ser expresso no campo do vivido por este mesmo sujeito. Os nomes dos transtornos se oferecem como um vocabulário autorizado de formas contemporâneas de subjetivação. Padecer deixa de portar qualquer dimensão ética intrínseca. Seria como dizer que todo sintoma é um erro, que toda angústia é sem função e não remete a nenhum conflito do sujeito consigo ou com o outro. Para poder operar neste novo cenário, o saber psi precisa trabalhar com um modelo reificado de subjetividade, que, ao presumir o sintoma como deficiência, jamais pode reconhecer nele uma outra inteligibilidade, que não somente a da consciência, do cálculo e do saber, em sua positividade, literalidade e certeza. A reificação expulsa o negativo e o devir, constituindo um saber que, para todos os efeitos, operacionaliza os dispositivos como se tivesse todas as respostas. Mesmo quando falha, por ser impossível verificar, é sempre possível remeter ao próprio déficit (característico da doença) a explicação para o que não teve solução. Embotamento da reflexividade dos sujeitos simbólicos acompanhada e reforçada pelo embotamento da capacidade crítica dos dispositivos de tratamento, que são eliminados da equação.
Seria bastante impreciso supor que a reificação na psicologia seria característico de uma determinada corrente. Em geral, todas as escolas, incluindo as psicanálises operam negociando esse risco. A história que focalizamos incide sobre um momento em que a influência da psicanálise é rechaçada e substituída pelas conceitualizações cognitivas, que estão muito mais alinhadas, em termos de definição de Sujeito, sintoma e avaliação do tratamento, com a medicina do que outras correntes do campo. A re medicalização da psiquiatria potencializou um modelo, e ele também trouxe benefícios.
O indivíduo é um corpo
Em geral, as noções de indivíduo, Pessoa e Sujeito, são tomadas como equivalentes, mas para o nosso problema precisamos de algumas mínimas distinções. Indivíduo, com sua referência na física e na biologia, remete à ideia de fronteira, continente, unidade individual, mas não necessariamente de consciência ou intencionalidade. Pessoa remete ao campo social, com conotações importantes no universo jurídico e na teoria sociológica, sendo um conceito que implica alguma dimensão de reflexividade. Sujeito necessariamente implica em alguma teoria da intencionalidade, da consciência ou do agenciamento, também portando toda uma herança histórica sobre a interioridade mais ou menos psicologizada dos corpos. Não são noções complementares, são fontes de conflitos mais do que de consenso, e a escolha de uma delas e não de outra faz enorme diferença para mapear as intenções do Discurso.
Quando o campo psi adere à radicalização da objetificação do indivíduo por meio dos seus comportamentos, parece não levar em consideração os aspectos envolvidos na percepção social do estatuto da doença (remetido à noção de Pessoa) (LUKES, 1986), e menos ainda ao escrutínio e interpretação autorreferente que os Sujeitos, em sua reflexividade compulsória, operarão necessariamente. Nenhum ser simbólico se exime de emitir juízos sobre os juízos que são emitidos sobre si. Na perspectiva do sujeito, um diagnóstico é sempre concebido em um campo de valor. Ninguém é objetivo na descrição de si, estamos implicados com nossas próprias vidas, como um corpo no mundo, essa experiência nunca poderá ser reduzida a um evento objetivo que nós observamos e descrevemos. Tanto a psicanálise quanto a psiquiatria fenomenológica, reconhecidamente, construíram uma clínica profunda e rica até meados do século XX, tentando conjugar o geral e o particular, o individual e o coletivo. No século XXI, essa cartografia sucumbe a uma nova e irrefreável onda de objetificação. Seu grande marco histórico é a publicação do DSM-III em 1980.
Em meados dos anos 1960, a psiquiatria recebia ataques sistemáticos de todos os lados. No campo da sua estratégia terapêutica principal, os manicômios eram alvo de denúncias, filmes, livros, reportagens, processos, um conjunto de críticas que ajudaram a fomentar reformas em vários países. A reforma americana, a reforma francesa, a experiência inglesa da antipsiquiatria e a reforma psiquiátrica italiana são as mais conhecidas. As críticas no campo acadêmico são emblematizadas na publicação de A História da Loucura de Michel Foucault (1962), A Era de Ouro do Alienismo de Robert Castel (1978) e Manicômios, Prisões e Conventos do sociólogo americano Erving Goffman (1961), notem que são de autores de fora do campo da medicina, da psiquiatria e da psicologia. Uma testemunha destes ataques dos anos 1960 teria muita dificuldade de entender como 50 anos depois, os nomes designados por esta especialidade médica se espalharam e se legitimaram. A crítica ao manicômio também colaborou com a expansão da psiquiatria para novas clientelas. No século XIX e início do XX, o psiquiatra era um residente do manicômio; a expansão da prática liberal ocorrerá após a Segunda Guerra Mundial, puxada pela popularização da psicanálise, pelas novidades psicofarmacológicas (especialmente os benzodiazepínicos, no tocante a esta clientela de menor gravidade). Os neuróticos entram definitivamente no radar da psiquiatria, mas também os então chamados toxicômanos (que têm um aumento relevante a partir dos anos 1970) e as crianças e adolescentes.
Na década de 1960 ocorreu a chamada revolução psicofarmacológica, em que o uso de medicações psicotrópicas por parte da psiquiatria se popularizou e viabilizou a retirada de pacientes das internações de longa permanência. Insuflou grande otimismo terapêutico, a promessa de que seria uma questão de tempo para que cada transtorno mental tivesse seu remédio. Os medicamentos psiquiátricos ajudaram a popularizar o modelo organicista na psiquiatria, ainda que as principais descobertas de então não tivessem necessariamente relação com teorias ou pesquisas da psiquiatria biológica. O fato de ter sintomas psicopatológicos e ingerir uma substância química que fazia algum efeito sobre estes sintomas já era, no senso comum, tomado como um triunfo de uma certa concepção de corpo.
Também nessa década, um grupo de psiquiatras americanos se articulava, em maior parte vindos da Universidade de St. Louis, para construir uma nova psiquiatria. De origem acadêmica, com forte preocupação epidemiológica, faziam uma severa crítica da presença de conceitos da psicanálise na psiquiatria americana. Os elementos psicológicos e filosóficos desviavam a disciplina de sua filiação médica, inviabilizando a unificação do vocabulário técnico e a criação de critérios objetivos e validados de diagnóstico. Com suas manobras políticas e críticas acadêmicas, conseguiram retirar todos os psiquiatras de orientação psicodinâmica da chefia dos departamentos de psiquiatria das universidades americanas, da direção dos principais hospitais, clínicas e instituições de pesquisa e regulação. Criaram o modelo do diagnóstico operacional, pragmático e objetivo, baseado em listas de sintomas, tempos de duração e impacto na funcionalidade. O modelo foi aplicado em larga escala pela primeira vez em pesquisas epidemiológicas sobre a esquizofrenia, o denominado Research Domain Criteria (RDC), em 1972. O modelo é encampado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), que institui um comitê, chefiado por Robert Spitzer, para construir a nova versão do DSM utilizando essas premissas pragmáticas. Assim começa a saga de criação do DSM-III.
O alvo do processo de remedicalização da psiquiatria (PASNAU, 1987) seriam os conceitos da psicanálise, ou mais especificamente, a dimensão psicologizada e subjetiva presente no processo diagnóstico. A psiquiatria não deve se basear em critérios que descrevam formas de subjetivação, mas critérios comportamentais ou físicos que possam ser objetivamente averiguados. A psicanálise, como importante corrente das teorizações psiquiátricas, construiu importantes aprofundamentos teóricos e clínicos a partir de conceitos amplos de Inconsciente e Transferência, fornecendo a esta especialidade uma teoria psicodinâmica operada por distinções entre Neurose, Psicose e Perversão. A classificação psiquiátrica americana tentava fazer desaparecer essas distinções, visando substituir estas matrizes de funcionamento do aparelho psíquico com suas diferentes formas de relação com a realidade, com o outro e a formação de sintomas, por uma verificabilidade do corpo. O comportamento passa a ser o alvo do escrutínio.
Consequentemente, a diferenciação entre Neurose e Psicose, questão fundamental na clínica psicanalítica e na psiquiatria psicodinâmica, se torna difusa, cada vez mais inexequível com os critérios vigentes. A ênfase no comportamento, no que é visível, ou em sintomas positivos, para usar a nomenclatura de Hughlings Jackson, tende a transformar cada sintoma em um transtorno. Não mais hierarquizando os transtornos entre si, traz sérias dificuldades para um raciocínio diagnóstico rigoroso e, claro, com efeitos no modo como vão se pensar os usos das medicações. Na CID-10, o termo “psicose” deixa de ser uma forma de organização psíquica, uma via específica de formação de sintoma, para descrever um certo grupo de sintomas objetivamente observáveis: delírios, alucinações, pensamento ou comportamento desorganizados (OMS, 1994). Elimina-se a categoria ampla das psicoses, que incluía a esquizofrenia, a paranoia e as chamadas psicoses afetivas: psicose maníaco-depressiva e depressão psicótica. A psicose maníaco-depressiva se transforma em transtorno afetivo bipolar, a psicose infantil é retirada e o autismo cada vez mais emancipado de sua relação com a psicose, se alinhando a um modelo quantitativo deficitário, que o aproxima das deficiências. A histeria, símbolo maior da psicanálise freudiana, é banida, e alguns de seus sintomas característicos viram transtornos, como o transtorno dissociativo-conversivo, mas também proliferam especulações sobre para onde as histerias migraram no final do século XX (depressões, casos limítrofes, doenças sem causas conhecidas (?)).
O modelo “descritivo” do diagnóstico passa a ser usado como modelo “descritivo” da subjetividade, meio século depois. O diagnóstico ganha contornos identitários na exata medida em que não singulariza. Há uma inversão da causalidade explicativa, em que, antes, o subjetivo explicava o comportamento, e agora o comportamento explica o sujeito, em sua reificação para si. Os sintomas eram índice de alguma coisa que acometia o sujeito em sua intimidade. Agora, passa a ser a condição que explica “quem eu sou”, na própria compreensão, ou identidade. No primeiro caso, o corpo é índice de uma intencionalidade não visível em que o sintoma é um porta-voz; no segundo, o sintoma é o que define como posso me nomear. O indivíduo se transforma em artefato de dessubjetivação, localizando no corpo a definição dos nomes de quem é. Sujeito cerebral, sujeito da cognição, distribuído em tantas capturas quantas são as identidades. Amarrando a ideia de si nos fios do “cabeamento cerebral”, projetando toda uma imagética do espaço físico da cabeça para sustentar a diferença empírica dos atos e camuflar suas implicações éticas. Recorrer à natureza para sustentar a dinâmica dos atos parece um manifesto de desapropriação da política, em que tanto Pessoa como Sujeito são tomados como epifenômenos do corpo (LEWONTIN, 2000; GOULD, 2003).
O exemplo mais explícito desta reviravolta é a aparição do conceito de Neurodivergência, criado pela socióloga australiana June Singer em fins dos anos 1990. Invertendo a concepção padrão de uma Natureza Universal contrastando com a Variação Cultural, o argumento é da Variação Natural explicando o Autismo como diferença e não como doença (ORTEGA, 2008).
Consequentemente, vai se formando uma nova clínica. A psicologia se inclina para construir uma espécie de técnica adaptativa das divergências do corpo, espelhando um modelo explicativo muito comum no campo das deficiências – a explicação pela falta ou déficit. Diante da inviolabilidade da caixa-preta subjetiva lacrada nesse novo cenário, a psicologia tende a se confundir com uma pedagogia mais ampla, uma espécie de ciência do bem viver, do wellness, da prescrição do que poderá encaixar na fantasia da “melhor versão de si mesmo”. Onde o ator em questão trata a si mesmo como um objeto a ser aperfeiçoado por inúmeras técnicas, reproduzindo um ethos da Ascese (CABANAS, 2022). Mas também pode ser tomada como espécie de sociologia individualizada, que reconhece as fontes históricas do sofrimento, localiza suas fontes e seus culpados, e reedita para o indivíduo um vocabulário de causas das injustiças do mundo e do seu próprio sofrimento. Constrói modelos identificatórios de objetificação, que, alicerçados na realidade histórica, ganham credibilidade, justificam o sofrimento verificado. É um modelo reivindicativo, mas, em geral, desimplicado. Sociologicamente informado, mas politicamente inofensivo.
A ênfase radical na dimensão quantitativa deforma os fenômenos a serem tratados, confundindo descrição e objeto. O leito de Procusto operacional preestabelece as condições para o que deve ser descrito, observado e tratado, facilitando certo gerenciamento “eficaz” dentro das estratégias de accountability e managerialism que se tornaram onipresentes na saúde. O gerenciamento eficaz dos dispositivos – agora como ferramentas administrativas coletivas – corresponde à compreensão objetivada de si, no nível individual. Mas é o crossover, é a transversalidade que viabiliza planificar a variação da concepção do diagnóstico, do tratamento, mas, especialmente, a própria compreensão “do que eu sou”. A redução da identificação da variação objetivada como “quantidade” tem como efeito a compreensão dos transtornos como déficits. Isso seria impossível sem a colonização do discurso dos próprios sujeitos, que agora devem frasear seu sofrimento em chave deficitária e a partir das categorias pré-estabelecidas: quanto eu tenho de Inteligência, Empatia, Traços Antissociais etc. Os saberes psi migram de uma técnica terapêutica especializada para uma engenharia social capaz de fornecer uma ontologia, uma causa ao sujeito. Nesse novo mundo vem embutida uma promessa de que essa dimensão subjetiva é moldável ao desejo consciente do freguês, é questão de regulagem (ROSE, 2013).
O filme A acompanhante perfeita (Companion, Drew Hancock, EUA, 2025) captura esse desejo de forma precisa. Mostra exatamente o problema da mistura entre o desejo e as máquinas, e de como nós nunca somos objetivos nem com elas, ou talvez especialmente com elas. A cena que mais nos ajuda a compreender esse grande transe em que estamos inseridos é a cena em que o dono do “robô acompanhante” usa o aplicativo de celular para modular as características do androide, em quantidades de atributos, habilidades e competências. Ele diminui sua “inteligência”, sua “agressividade”, ou aumenta sua “ternura” para atender ao que lhe convém; controla o outro de forma objetiva. Há um encantamento pelo alcance do controle, mas sem reflexão alguma sobre o desejo de controlar o outro. Ironicamente tudo se transforma quando o próprio robô se apropria do aplicativo que modula a si mesma; possibilitando o exercício deste mesmo poder, agora na direção inversa, migrando da ironia ao horror.
As concepções quantitativas deficitárias estão mais presentes nos diagnósticos mais populares, o que leva a crer que têm relação direta com sua expansão. A depressão a partir dos anos 1990, que se populariza quando adota critérios deficitários em termos de sintomas (anedonia, insônia, perda de peso etc.) concomitantemente a um modelo causal de déficit de serotonina (HEALY, 2002). No campo da infância, o TDAH se expande. O transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade, atualmente, é dividido em dois grandes clusters de 18 sintomas, que são basicamente déficits de habilidades e competências explicitamente ligadas a trabalhos escolares ou a um trabalho de escritório.
O uso “operacional” das categorias psiquiátricas parece gerar um falso tráfico de valor: embora aparente tratar de uma dimensão interior e subjetiva — o que implicaria uma valorização —, na verdade, ao assumir um caráter descritivo e comportamental, acaba por se afastar do íntimo e do subjetivo. Ainda assim esta dimensão do valor é traficada. Opera-se uma transdução seletiva do valor: é verdadeiro porque é íntimo, mas não é íntimo porque é generalizável, mas ainda assim verdadeiro. Trafica o valor de verdade que a interioridade portava, mas subtraindo o que lhe é específico – que era o fato de não ser reproduzível.
Assim temos um duplo nó “cego” que pretende inviabilizar qualquer manobra de desestabilização identitária. Por um lado, o transtorno tem uma ancoragem no corpo, na natureza, em que a pessoa identificada não tem relação alguma com a produção de seus sintomas. Por outro lado, o tráfico de “valor subjetivo” associado ao sintoma inviabiliza seu comentário ou sua crítica na medida em que o sujeito é uma vítima de sua doença, como também pensamos a partição das responsabilidades no tocante a doenças orgânicas. O sujeito está blindado por todos os lados, pelo corpo e pelo sofrimento (existe uma formulação irrefletida da agência embutida em todos estes arranjos da folk-psychology). O que induz um papel das terapêuticas, que ou serão as terapêuticas da acessibilidade e/ou as terapêuticas do bem-estar. O TDAH é um caso exemplar, mas não é um fenômeno interno aos novos moldes de diagnóstico na psiquiatria; ele floresce como fenômeno social em um contexto em que a pedagogia transfere para os saberes psi a patente do fracasso. Não o fracasso escolar, nem o fracasso da psiquiatria ou da psicologia: a causa do fracasso é o Indivíduo, o corpo da criança.
Um comentário sobre a operacionalização pragmática da educação
Precisamos fazer um pequeno desvio para apontar a convergência do processo macro e micropolítico dos anos 1990 na educação. A ênfase na cognição produzirá novas formas de pensar o que é a Educação. A educação pública, universal e laica é um produto do ideário da Revolução Francesa, que, no esforço de produzir autonomia, fraternidade e liberdade, as bases da cidadania, precisa investir em um aparato que irá fornecer condições mais ou menos igualitárias para todos. O acesso à educação pública de qualidade, ou pelo menos equânime, é a condição para a emergência de uma comunidade ou do “político” propriamente dito, em que o conceito de cidadania, com seus pressupostos antropológicos, filosóficos e jurídicos, opera como uma linguagem comum. Educação para a república ou educação para a cidadania são as marcas desse ideário.
A década do cérebro é a década em que estes ideais são transformados. Não é uma mudança somente dos “métodos pedagógicos”, mas do papel da educação em uma sociedade, sua finalidade. A mudança, detalhada no livro de Christian Laval – A Escola não é uma empresa, tem inspiração nas chamadas Universidades Corporativas, criadas por empresas como IBM e McDonalds, no início dos anos 1980. Por que estas multinacionais investiram em dispositivos de educação? Segundo os autores, as universidades tradicionais educam em excesso. Excesso quantitativo: muito tempo ensinando coisas que não serão “úteis” na empresa. Por que não propor uma formação mais rápida, barata e com ênfase técnica? Habilidades e competências (para realizar procedimentos, aplicar protocolos, seguir corretamente as instruções). Mas as universidades também pecariam por um excesso qualitativo, uma vez que na formação a emergência de uma consciência crítica pode de fato atrapalhar a boa execução de protocolos, técnicas, programas etc. Conclusão das corporações: precisamos de universidades que formem indivíduos que executem melhor os programas, mas sem o aparato crítico que possa questionar a sua própria prática. Precisamos de uma educação tecnicamente excelente e alienante do ponto de vista ético. As premissas pragmáticas enraizadas no ideário americano estão explícitas, e rapidamente estas diretrizes chegam à comunidade europeia e são inseridas como parâmetros na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A partir de então, as premissas que ligavam educação e cidadania são substituídas por premissas que ligam educação e empregabilidade, cristalizadas em duas palavras-chave que devem orientar os objetivos dos processos pedagógicos: aquisição de habilidades e competências (LAVAL, 2019).
O paradigma quantitativo-deficitário faz uma função de terraplanagem ideológica do campo, em que a verificação do processo educativo se baseia na verificação das habilidades e competências do sujeito cognitivo. As avaliações medem essas habilidades, mas não entram no mérito da dimensão pública da educação e sua finalidade cívica. A educação se torna privada mesmo quando pública, no sentido de que visa qualificar os indivíduos para que possam desempenhar a melhor performance em seus postos técnicos; a dimensão cidadã da educação é eclipsada.
A lógica da accountability, da contabilização universalizada que hierarquiza o campo da educação nos parâmetros da produtividade, se cristaliza nos anos 2000 e talvez tenha relação com o crescente processo de desautorização do campo pedagógico em relação ao que aparece como problema na escola. Mas, na escola não aparece só o que pode ser contabilizado ou o que é razoável. A escola, como espaço de socialização, especialmente se universalizada, historicamente seria o lócus designado para este aperfeiçoamento coletivo e colaborativo, no seu relevante papel civilizacional. O que antes era tomado como um problema típico das escolas (como a agressividade, por exemplo), agora parece ser tomado como uma condição (o controle da agressividade) para poder estar nela. Impressiona que um campo tão produtivo ao longo do século XX transfira para a psicologia e a psiquiatria um saber/poder tão simplificador em relação a tudo que já foi suposto do papel da educação na construção de uma sociedade democrática. Precisamos considerar que só recentemente a geração que foi socializada nesse paradigma chegou ao magistério, reproduzindo esta partição de responsabilidades e premissas de intencionalidade em seu campo profissional. A fonte das dificuldades escolares passa a ser os corpos dos alunos, alterações neurocognitivas, que, como a base causal do comportamento, devem ser invocadas quando se quer produzir um novo comportamento. Mas a escola não é uma fábrica de comportamentos, concebê-la nesse nível de reducionismo parece insustentável. Curiosamente, é o desviante, o sofrimento, o páthos, que faz a marca do que não pode ser encaixado (LAJONQUIÉRE, 2010).
Legislações do interior: judicializar os afetos, psicologizar o sofrimento, cuidar dos traumatizados, compensar os abusados.
A linguagem psicologizada invadiu o senso comum a partir dos anos 1980, pelo menos se acompanharmos o levantamento de Franck Furedi (2003) sobre a aparição da palavra “trauma” na imprensa inglesa entre a década de 1980 e 2000. Segundo Fassin (2012), essa expansão empiricamente verificável denota a emergência de uma nova economia moral. Um novo horizonte de exercício de fantasias coletivas de valor, que podem ser codificadas binariamente como bem e mal, mas que, na prática, se revelam bem mais complexas e que inevitavelmente também se tornam objeto de cálculo nessa consciência administrativo-pragmática da gestão do sofrimento. Curiosamente, a gradativa perda de direitos por parte das populações mais pobres e marginalizadas vem acompanhada de uma crescente convocação ao cuidado, cuidado com o outro, cuidado de si, cuidado com o mundo, “capitalismo terapêutico”, na expressão cunhada por Josep Orra (2011). Uma espécie de desamparo generalizado alçado à categoria de lema e que parece ver risco, ou potencialidade de desamparo, em qualquer movimento. Segundo Furedi (2008), é nessa armadilha moral que os pais contemporâneos estão presos, mas essa vigilância e esse cuidado/controle não são dirigidos somente às crianças. A passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle, tão elegantemente resumida por Deleuze (1992), parece depender desse modo de operar o cuidado para conquistar seus resultados. O desamparo relativo das crianças, com sua dependência emocional, financeira, legal etc. que acertadamente justifica diferentes graus de tutela, se expande para todos, justificando um cuidado embrulhado como produto: do mercado, do estado, da Saúde. Mas algo estranho vem embutido nesta proliferação da ideia de acolhimento, que é a concomitante precarização de todas as formas de relação social, a começar pelas leis trabalhistas, regimes de aposentadoria, perda de direitos no campo da Assistência, da Saúde etc.. Como resumiu um paciente em relação a sua avaliação de um local em que foi abrigado: “um excêntrico acolhimento”. É em um mundo apresentado como cada vez mais truculento e inviabilizado que estas iniciativas de autocuidado, completamente despolitizadas e alienantes prosperam com toda força.
As disputas políticas envolvendo o estatuto do trauma em relação a populações e/ou indivíduos assujeitados, despossuídos ou injustiçados privatizam o dano, psicologizando-o. Claro que isso não quer dizer que ele não seja verdadeiro, mas também nos ilumina sobre como se define o que é a Verdade em um campo Discursivo específico. O papel das vítimas e dos “danos morais” no campo jurídico, na França, como analisado no livro de Eliacheff e Laruvière O tempo das vítimas (2012) analisa o intrincamento entre o espaço jurídico e o espaço terapêutico. A proliferação e a identificação com os diagnósticos psiquiátricos têm relação com esta nova economia moral e relação direta com o campo jurídico, que o instrumentaliza. A psiquiatria, como fonte de saber racional sobre os sujeitos e seus comportamentos, foi convocada desde pelo menos a metade do século XIX pelo poder judiciário para explicar o que até então não tinha explicação racional (LANTÉRI-LAURA, 1994). Os avanços do processo de objetificação do diagnóstico na psiquiatria sempre tiveram, historicamente, relação com essa dimensão pericial (em suas ligações com a Justiça e que com o poder Militar). Propomos uma leitura bem ampla da ideia de perícia, realçando o seu papel instituído e performativo de justificação racional e prova embasada na ciência, usada para viabilizar decisões. Quanto mais literais são estas decisões, mais o processo pericial reifica o que pericia. Porque necessariamente neste ponto o diagnóstico se depara com o gerenciamento, seja a averiguação da verdade dos traumatizados sem lesão física nos acidentes de trem na Inglaterra do século XIX, seja a averiguação pericial da verdade dos soldados traumatizados na Segunda Guerra Mundial, ou contemporaneamente, a averiguação da comprovação do diagnóstico para que um seguro de saúde pague por um tratamento nos sistemas privados de saúde (HEALY, 1993). Quando as consequências do saber, da perícia são literalmente importantes, em termos da decisão judicial, das consequências financeiras, tudo deve se passar como se não houvesse dúvida sobre o que se averigua e se declara. É essa literalidade pericial que vemos crescentemente sendo aplicada como uma espécie de prova dos nomes que provam o que realmente eu sou. É este abraço na simplificação do que em outro tempo nunca se mostrou totalmente mensurável que merece uma análise mais atenta.
Conclusão: algumas palavras sobre a psicologia no presente
Estes elementos tentam situar as premissas e os componentes do que seria, no senso comum e nos discursos técnicos que o alimentam, o estado da psicologia na passagem do século. À medida que o psicológico vai se cognitivizando, assume papel de auxiliar da regulação dos indivíduos em nome da manutenção ou melhora de sua funcionalidade. Na Economia, na Educação e na Saúde, o conceito de funcionalidade se impõe onipresentemente, óbvio e transparente, quase sinônimo de realidade. Na medida em que se torna critério quase onipresente nas categorias diagnósticas, torna-se um analisador do que se supõe como sendo a normalidade. É importante distinguir entre os chamados Transtornos Mentais Graves e Persistentes e os chamados Transtornos Mentais Comuns. No primeiro caso, a funcionalidade é um analisador da gravidade, especialmente em relação às consequências dos sintomas e seus desdobramentos no tocante ao nível de autonomia e, portanto, de apoio, reabilitação etc. No segundo caso, que envolve sintomas e transtornos ansiosos, depressivos e queixas físicas inespecíficas, casos na fronteira da normalidade, a funcionalidade tende a se tornar o critério do próprio transtorno. Na medida em que tais sintomas são inespecíficos e não necessariamente denotam um transtorno, a incapacitação funcional lhe outorga sua razoabilidade. Os Transtornos Mentais Comuns são os que mais impactam epidemiologicamente, na produtividade e no INSS, com número significativo de afastamentos e incapacitação. O enquadramento quantitativo, deficitário, baseado no gerenciamento privilegia e faz aparecer o que tem instrumentos para manejar. O relativo sucesso desse gerenciamento é efeito de uma seleção do que deve ser objeto destes cuidados. É a conclusão da pesquisa de Farhad Dalal The Cognitive Behavioral Tsunami: managerialism, politics, and the corruptions of science. O critério é enviesado para identificar o que tem solução na perspectiva do gerenciamento, deixando de fora, completamente desassistidos, os que não correspondem aos modelos pré-estabelecidos. A implementação deste modelo gerencial-assistencial no sistema de saúde inglês se revela frágil na medida inversamente proporcional em que planificava os problemas e as soluções em uma racionalidade administrativa. No modelo do Sujeito objetivado seria possível dizer que o tratamento tende a se tornar um treinamento de técnicas de administração de si. Habilidades sociais, competências emocionais, respiração, controle do pensamento, alfabetização emocional, higiene do sono, programa de gerenciamento da raiva etc. Estratégias bem desenhadas, que podem ser reduzidas ao modelo de um manual, transmissíveis em treinamentos rápidos, mas não criticáveis nem pelo profissional que a aplica nem pelo indivíduo ao qual se aplica. Instrumentos de calibragem visando minimizar o sofrimento, com um pano de fundo de controle de comportamentos inapropriados para prevenir todas as suas possíveis consequências judiciais.
Uma das grandes preocupações do campo psi atualmente é a proliferação dos aplicativos de saúde mental e o papel da Inteligência Artificial em processos até então exclusivamente humanos. Como não existe Inteligência Natural, toda Inteligência é, por definição, artificial; é justamente o artifício que denota a Inteligência. Essa inteligência não é a mesma coisa que o aparato ou a máquina que calcula, o computador, o robô; em sua fisicalidade, eles podem ter diferentes inteligências, aptidões e competências, inclusive. Sua especialização evidencia sua submissão, os distingue dos humanos como sujeitos de direitos, o que está presente na etimologia da própria palavra robot, termo cunhado pelo escritor tcheco Karel Capek, que significa “trabalho forçado”.
Ainda assim, a distinção Inteligência Artificial opera uma marcação, que é a ideia de que as máquinas pensam, mas este pensar é de que ordem? Seria possível pensar que, desde a cibernética dos anos 1950 até o momento, o que se produziu foi, em essência, uma modalidade de subjetivação? Projetada nos robôs, arquitetada nos aplicativos, mas essencialmente uma compreensão cognitiva da experiência (humana)? Nesse sentido, teremos que chamar de Inteligência Artificial a própria teoria psicológica, porque é na exata medida em que este funcionamento é conceitualizado, operacionalizado e reificado que ele se torna artifício, tornando nossa reflexividade o artifício da inteligência (para os humanos e para as máquinas). A psicologia é uma máquina de produzir os artifícios da pessoa, fornecendo conceitos, práticas, métodos, diagnósticos, prescrições, prognósticos que cognitivizam a realidade. É essa redução que permite alguma eficácia de um aplicativo, mas também de qualquer outra “técnica”. Não é porque ele captura uma essência psicológica do sujeito que estava lá para ser averiguada, é porque ele maquinifica o que antes não estava objetivado. O nosso medo de que as máquinas adquiram consciência parece inverter o sentido do outro risco, que seria a consciência se tornar maquínica. Desde que a cibernética foi inventada, nossa consciência não se manteve pura, alheia, manipulando esse objeto inerte, que, por uma agência exterior à própria pulsão cibernética, criou esse capítulo da história tecnológica e cultural. O sujeito cognitivo é efeito de um modelo viral de compreensão do mundo que incide sobre os objetos na mesma medida em que incide sobre as formas de subjetivação. O gerenciamento e o terapêutico, segundo Alain Ehrenberg (2018), se tornam onipresentes porque há nessa “realidade artificial” a possibilidade ou o desejo de um continuum entre o que administramos objetivamente fora dos corpos e o que sonhamos administrar no interior dos corpos. Essa continuidade e integração são muito mais um efeito de planificação do que as correspondências de uma realidade harmoniosa que se descobre como um dado. Muito fica de fora desse mundo da consciência. O que tentamos cartografar é uma política da nomeação, em que a psicologia, como discurso da interioridade, se transforma em uma espécie de máquina de extração objetificante. Planifica e modula na cognição, nas habilidades e competências, uma analítica das individualidades – uma anatomia dos potenciais de ação, de otimização do rendimento e de ascese – seja moral, seja produtiva. E obviamente, a produtividade se transforma no lastro da moral. Isso retorna como limite de como cada um poderia saber de si, privilegiando e instituindo a interioridade como objeto de captura.
Apesar da gravidade do cenário, continuam existindo forças muito potentes na psicologia, na psicanálise e na psiquiatria contemporâneas. Novas problematizações, novas invenções clínicas, conceitos, dispositivos, pesquisas, articulações interdisciplinares, movimentos críticos, clínicos e políticos que não abordamos aqui. Neste mundo apresentado como planificado precisamos exercitar a crítica, porque sem ela corremos o risco de nos tratarmos mutuamente de forma desafetada e inumana. O diagnóstico sobre o estado da psicologia nessa passagem do século XX ao XXI não deve nos abater, mas nos lançar ao trabalho de fazer frente ao que conseguimos, de forma fragmentária, incompleta e indicial, compreender.
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