A insuficiência da inteligência (sempre artificial)
Introdução
Habitualmente, quando se problematiza a questão da inteligência artificial, se destaca uma pretensa distinção entre o que seria uma “inteligência natural” e uma “inteligência artificial”. Entretanto, a meu juízo, não se vai longe por esse caminho. Há muito que a filosofia nos ensina sobre o caráter superficial da inteligência, sobre o abandono dos traços singulares, ricos, divergentes em prol da generalidade e regularidade que constitui o modus operandi desta faculdade e, nesse sentido, toda inteligência é marcada pelo artificialismo.
A inteligência é mestre em dissimulação, é uma preparação sempre artificiosa, uma sombra, uma subtração para tornar as coisas computáveis à mão. Logo, a filosofia sempre reconheceu seus limites e sua insuficiência, compreendendo que a vida em seu devir, sua multiplicidade, sua inegável novidade, são sacrificados diante das classificações, dos esquemas e dos algoritmos construídos pela inteligência.
Assim, proponho outra distinção: inteligência interna e externa, sendo a primeira a faculdade que os sujeitos possuem que, de acordo com Bergson, desenvolveu-se a partir do instinto (1979) e a segunda como o instrumento tecnológico hoje ao alcance de todos, festejado como ferramenta eficaz ou mesmo aperfeiçoamento do que o homem pode realizar. Empolgados com essa festa, embriagados em suas facilidades, não se para muitas vezes para pensar em suas limitações e consequências, que estão implicadas com a desnaturalização da política, com o enfarto psíquico, com significativos danos ambientais e com a impossibilidade de um horizonte de criação e renovação existencial.
1 A crença no progresso e o fracasso de sua realização
Antes de tudo, é preciso fazer uma marcação histórica: desde a modernidade estamos dominados pela crença no progresso, na convicção que a difusão das ciências e das técnicas iria produzir dias melhores. O homem moderno, participante ativo da vida em seus mais diversos aspectos, responsável por sua condução, orgulhoso de sua razão autônoma, acreditou que poderia dirigir a vida rumo ao melhor. Estaríamos frente a uma evolução sempre crescente de instrumentos, recursos e aparato técnico que nos ajudariam a triunfar nesse propósito. A assim chamada inteligência artificial (IA) nada mais seria do que fruto desse processo e, com ela (ou a partir dela), estaríamos vivendo supostamente o auge da vida humana.
O mundo contemporâneo é o mundo do domínio da técnica, na pressuposição de que isso é um ganho evolutivo, mas suas promessas, sobretudo em seus desdobramentos frente a um mundo mais justo, igualitário e democrático, não se concretizaram. Ao contrário, a despeito de todo o desenvolvimento tecnológico existente, a cada vez aprofundam-se mais e mais as desigualdades, os temores frente à sobrevivência e um profundo adoecimento psíquico.
Mais conectados, facilitados por meio de milhões de aplicativos disponíveis em todas as plataformas, experimentamos, sem dúvida, uma nova velocidade no nosso tempo, mas o que é conquista para a vida prática não é necessariamente uma conquista nem para a prática de pensar nem para a consolidação da democracia ou de melhores condições de trabalho e de vida. Ao contrário, do ponto de vista laboral, a tecnologia tem significado a perda de postos de trabalho e a desesperança geral, sobretudo dos jovens e, do ponto de vista político, no capitalismo de vigilância como chama Shoshana Zuboff (2021) ou o regime de informação como chama Chul Han (2022), em que a dominação de informações e dados e seu processamento por algoritmos e inteligência artificial são utilizados para a vigilância, dá-se o controle e o prognóstico de comportamentos políticos, tornando-se um potente instrumento de poder.
Ou seja, a promessa moderna do progresso técnico é de maior felicidade e liberdade, mas o que se assiste é manipulação a partir do mercado de comportamento futuro. Além disso, o superávit comportamental criou um projeto de vigilância surpreendentemente rentável e uma lógica de acumulação sem precedentes (Zuboff, 2021, p. 95). Ao invés da libertação do espírito, da diminuição do tempo de trabalho e exploração, o desenvolvimento tecnológico trouxe o descarte da força humana de trabalho, gerando um mundo de competitividade crescente, individualismo e falta de solidariedade. Os benefícios digitais são, pode-se considerar, superficiais e não deixam ver o quanto de lucro propiciam às grandes empresas do setor como Google, Amazon, Microsoft, etc: e como a suprema vigilância é vendida como conveniência. Em resumo, a técnica do século XXI não emancipou a humanidade, mas ao contrário. Ela não está sendo revertida a favor do homem como uma análise apressada pode sugerir, mas o levando ao enfarte psíquico e ao afastamento do que o espírito livre é capaz de construir.
Além disso, o excesso de tecnicismo se apresenta como um ganho excepcional, podendo ser aplicado universalmente, levando os homens a depositarem uma fé de proporções mais do que religiosas aos algoritmos. Vendese a ideia de que os “sistemas IA são cérebros descorporizados que absorvem e produzem conhecimentos independentes dos seus criadores, de suas infraestruturas e do mundo em geral” (Crawford, 2025, p. 252). Esconde-se, portanto, o real funcionamento desses sistemas e fecha-se os olhos para as implicações políticas e metafísicas que o encantamento do capitalismo de dados produz.
2 A técnica como instrumento utilitário
A técnica tem uma função utilitária, isto é, uma função útil à vida do homem: de proteção frente aos perigos atuais e de previsão frente aos perigos futuros. Para cumprir esta função, a técnica se serve da faculdade da inteligência, faculdade esta que dirige a conduta do homem frente ao meio que o cerca, frenteàs condições de existência que lhe são dadas. O ato primeiro da inteligência é a fabricação de conceitos: ideias gerais, abstrações, sínteses da multiplicidade. Diz Bergson: “Formar uma ideia geral é abstrair das coisas diversas e cambiantes um aspecto comum que não muda ou que pelo menos oferece para a nossa ação um flanco invariável” (2006b, p. 108).
A inteligência é, portanto, um instrumento do homem para sua segurança e sobrevivência. Ela triunfa quando constrói um caminho utilitário, um caminho onde ele pode apoiar o seu agir, onde pode prever se os elementos dados em cada situação lhe são ou não favoráveis. “A inteligência científica pergunta-se portanto o que precisará ser feito para que um certo resultado desejado seja atingido ou, de modo mais geral, que condições é preciso obter para que um certo fenômeno se produza. Vai de um arranjo das coisas para um rearranjo, de uma simultaneidade para uma simultaneidade” (BERGSON, 2006c, p. 144).
Para prever, a inteligência extrai e retém do mundo o que pode ser repetido e calculado (BERGSON, 2006a, p. 5), o que pode ser estabelecido como um enunciado duradouro, sempre idêntico. Por conseguinte, o fluir que não se repete é por ela eliminado e o mundo inerte torna-se ao mesmo tempo, o resultado de sua abstração e o seu ideal. A inteligência reduz o mundo para facilitar a influência do sujeito sobre as coisas, preparando e iluminando a ação do homem sobre elas, compondo um mundo no qual o homem possa agir. Ocorre que para a comodidade desta ação, alguns efeitos devem ser escamoteados (BERGSON, 2006a, p. 6). Ou seja, a inteligência é uma faculdade fundamental ao homem, uma faculdade que a todo momento é instada a atuar, portanto, uma faculdade que lhe é cara e absolutamente imprescindível, mas sua atuação impõe, necessariamente uma simplificação da vida, um esvaziamento das complexidades, dos paradoxos e das imprevisibilidades.
Para tratar da atividade própria do homem e das condições nas quais ela se exerce, ao invés de se abarcar a totalidade da realidade, a inteligência desvia o olhar daquilo que não é de seu interesse, do que não serve às exigências fundamentais do modo de existência em questão e por isso, em si mesma, ainteligência já é uma artificialidade, posto que se constitui como “uma potência de extrair o que há de estabilidade e de regularidade no fluxo do real” (BERGSON, 2006b, p. 108).
A ação do homem só pode se dar sobre pontos fixos, logo, é a fixidez que a inteligência procura (BERGSON, 2006a, p. 8; 9). O indivíduo supõe que quando estuda algo, este algo permanece estaticamente o que é, porque a vida estática se presta melhor às exigências da lógica e da linguagem. Transição e mobilidade não podem estabelecer o idêntico, logo o verídico, de modo que são deixadas de lado pela inteligência. Toda representação intelectual busca paradas, retenções, justaposições, posições, descontinuidades; todo o resto é negligenciado. Conclusão: a inteligência não representa o mundo, mas sim o que lhe convém representar.
3 Inteligência e imobilismo
A imobilidade é uma necessidade do sujeito e quanto mais ele conseguir representar o mundo por pressupostos de imobilidade, melhor acredita que o compreende (BERGSON, 2006d, p. 165). Quanto mais o homem estabelece o estável, mais acredita triunfar na compreensão da natureza e, de invenção em invenção, ele caminha, certo de que a experiência lhe dá razão.
Ao invés de ler a realidade como uma duração, isto é, como uma continuidade indivisível de movimento, como um fluir dinâmico e ininterrupto, a inteligência capta instantâneos que se prestam às exigências de seu interesse que podem ser calculados e expressos na linguagem corrente. “A inteligência deforma, transforma, constrói seu objeto ou só toca a sua superfície ou só apreende sua aparência” (BERGSON, 2006a, p. 37). Em outras palavras, ela manipula a matéria, mas não lhe toca o fundo; é uma artificialidade ante a vida e, portanto, é sempre um ponto de vista, um recorte de finitude. Mas, como diz Paul Klee, “em todo o universo, o que se dá é o movimento. O repouso que tem lugar na Terra não passa de um entrave ocasional da matéria. Considerar essa estaticidade como um estado primordial é um engano” (KLEE, 2001, p. 46).
Ou seja, a inteligência só se sente à vontade diante da matéria inerte. Claro, o homem deseja tirar partido da matéria, mas se esta se mostrar movente, diferente a cada instante, imprevisível em suas expressões, como o homem realizará o que deseja? Para guiar a ação do seu corpo sobre os corpos circundantes o homem fabricou instrumentos e a ciência levou este trabalho o mais longe que pode (BERGSON, 2006a, p. 36-37) – hoje esse trabalho ganha a dimensão de uma tecnologia que se pretende substituta da própria faculdade que a criou. O mundo tecnológico de hoje oferece como ferramenta comum a todos os homens a faculdade da inteligência fora do homem, tal qual uma faculdade externa, portátil, acessível por qualquer dispositivo tecnológico. Mais ainda, essa faculdade externa teria eficiência e correção melhores do que a faculdade original, estando em processo de aperfeiçoamento contínuo e ininterrupto, se tornando assim, a cada momento, mais confiável e eficiente. No limite, a faculdade externa da inteligência tornaria desnecessária (e por que não?) descartável a faculdade interna da inteligência.
Mas a operação da inteligência (seja interna ou externa, fabricada pela interna), necessita que o seu objeto seja estável, caso contrário não pode realizar sua base sólida de operação conceitual. Os conceitos necessitam supor que as coisas permaneçam o que são, sendo assim, toda variação existente considerada uma multiplicidade quantitativa. Assim, o resultado da atuação de qualquer inteligência é um ponto de vista sobre as coisas, em que sua organização real é substituída por reconstituição esquemática, portanto, por um reducionismo marcado por vieses, em um empobrecimento crescente. Isto é, os esquemas da inteligência não nos convocam para a abertura do mundo, mas para um anseio adaptativo, definitivo, ou seja, fictício.
A crença espontânea do senso comum é que a ciência e a tecnologia dela resultante dominam todos os aspectos que se propõem estudar, quando, na realidade, a IA recompõe o mundo artificialmente – ela o deforma. Esta recomposição “corresponde a um recorte da realidade segundo as linhas que cabe seguir para agir comodamente sobre ela. O mais das vezes, distribuem os objetos e os fatos segundo a vantagem que deles podemos extrair, jogando atabalhoadamente no mesmo compartimento intelectual tudo o que diz respeito à mesma necessidade” (BERGSON, 2006a, p. 34). Daí Nietzsche dizer que o entendimento do homem é uma força de superfície, uma força superficial: seu pensar é um classificar, um nomear, isto é, “qualquer coisa que diga respeito ao arbitrário humano e não atinge a própria coisa” (1984, 54, p. 37).
A inteligência se habituou a operar assim, eliminando o que há de vivo e fluido, o que há de múltiplo e criador. Sendo esquemática, simbólica e artificial, a inteligência sempre fracassará. Por mais confiante que esteja o homem diante de suas verdades, cedo ou tarde ele terá que admitir sua impotência e sua insuficiência, porque a realidade é, antes de tudo, mobilidade. “Não existem coisas feitas, mas apenas coisas que se fazem, nada de estados que se mantêm, mas apenas estados que mudam. O repouso nunca é mais do que aparente, ou antes, relativo… Toda realidade é, portanto, tendência, se conviermos em chamar tendência uma mudança de direção em estado nascente” (BERGSON, 2006e, p. 218-219).
4 Desmistificando a “Inteligência Artificial”
Tratando especificamente do que se chama IA, há duas importantes desmistificações a serem feitas. A primeira desmistificação refere-se à ideia de que os sistemas de IA são autômatos, racionais ou capazes de discernir o que quer seja sem que sejam treinados exaustiva e intensamente para isso. Ao contrário, é preciso grande investimento de capital, inclusive humano, para sua concretização e, como desdobramento disso, seus sistemas são projetados para servir aos interesses dominantes (CRAWFORD, 2025, p. 19). Assim, há forças políticas, históricas, econômicas e culturais que moldam o resultado que acreditamos ser puramente técnico e neutro. Logo, há rótulos, estereótipos, preconceitos, traços ideológicos que são utilizados para prever identidades, conceder créditos e avaliar pessoas, o que faz com que esses modelos só reforcem hierarquias e amplifiquem desigualdades, ao invés de abarcar a complexidade inerente à subjetividade humana.
A segunda importante desmistificação a ser feita refere-se à ideia de que a IA resume-se a bancos de dados e algoritmos, que ocorre na nuvem, sem socorro material ou em uma indústria essencialmente verde. Ao contrário, a base dessa indústria começa pela mineração extrativista, pelos data centers devoradores de energia, passando pela captura maciça de dados e pela prática exploratória assemelhada a tempos idos de escravidão de trabalhadores que sustentam todo esse sistema. A verdade é que “a criação dos sistemas contemporâneos de IA depende da exploração de energia e de recursos minerais do planeta, de trabalho barato e de dados em escala” (2025, p. 26). Há enorme demanda por terras raras, petróleo e carvão, e, pior ainda, não é a indústria da IA que arca com os custos dessa extração. Os danos ambientes, a doença e morte de trabalhadores, a perda de comunidades desalojadas parecem não figurar sequer na narrativa da IA. A extração dos minérios necessários à fabricação dos smartphones e dos laptops vem acompanhada de violência local e geopolítica, mas tudo isso não aparece no imaginário comum quando se trata de IA.
Frequentemente, quando se usa o termo IA pensa-se em algoritmos, nuvens, isto é, associa-se à indústria uma imaterialidade que absolutamente ela não tem. Os minerais e os recursos naturais não renováveis, extraídos predatoriamente, constituem os componentes centrais da computação. O lítio, por exemplo, é o elemento crucial para as baterias recarregáveis. Até o final do século XX ele foi minerado em quantidades modestas, mas hoje, para construir uma única bateria de celular, é preciso 8,5 gramas de lítio; para um carro elétrico, 63 quilos em seu módulo de bateria. Estima-se que a Tesla use mais de 28 mil toneladas de hidróxido de lítio por ano – metade do consumo do planeta (CRAWFORD, 2025, p. 41-43). Pode-se imaginar a escassez iminente de metais essenciais como níquel, cobre e lítio, uma vez que o material produzido tem limitada vida útil e são descartadas como resíduo. Diz Crawford: “cada objeto na rede estendida de um sistema da IA, dos roteadores às baterias e aos data centers, é construído com o uso de elementos que precisaram de bilhões de anos para se formar no interior do planeta” (2025, p. 44).
Ironicamente, usa-se mesmo a IA para propor iniciativas ambientais sustentáveis ou meios de combater as dificuldades climáticas, mas é necessária uma imensa quantidade de energia para que se possa gerar essas predições. Mas como o dano ambiental causado com a previsão de “como evitar dano ambiental” não é visível ou explicitado, o usuário sequer percebe a dramaticidade dessa ironia. E a previsão é que esse consumo cresce ainda mais a cada ano. Tudo isso sem contar no consumo de água necessário para o resfriamento dos servidores, retiradas de comunidades que dependem dela para sua sobrevivência. Crawford chega a dizer que a quantidade exata de consumo de energia usada pela IA é desconhecida, sendo essa informação protegida tal qual os segredos corporativos (2025, p. 56).
E o extrativismo não é apenas de minérios, mas também de dados, tornando-se o que Zuboff chama de capitalismo de vigilância, ou seja, uma era em que a experiência humana se torna matéria-prima gratuita que é traduzida em dados comportamentais. A autora lembra da conquista da América, quando os europeus inventaram medidas legalistas para dar à invasão do continente um verniz de justificativa e onde uma mera declaração de reivindicação territorial bastava para legitimar a invasão. Para tal, os soldados precisavam, antes de atacar os indígenas, ler o édito monárquico de 1513, conhecido como “Requerimento”, que dizia: “Vós Caciques e índios desse continente […]. Nós declaramos ou que seja de conhecimento de todos vós, que há apenas um Deus, uma esperança e um Rei de Castela, que é Senhor destes países; apresentai-vos sem demora, e fazei o juramento de Fidelidade ao Rei de Espanha, e seus Vassalos” (apud ZUBOFF, 2021, p. 208-211).
No neocolonialismo digital que caracteriza o capitalismo de vigilância, dá-se semelhante conquista territorial por meio de declarações (termos de serviço), por exemplo, do Google — que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita a ser explorada, convertida em dados comportamentais cujo conteúdo será não apenas de seu conhecimento, mas de sua propriedade, podendo ser ignoradas quaisquer considerações sobre direitos ou interesse dos indivíduos. Vendido como liberdade, o capitalismo de vigilância em realidade acumula todo tipo de informação sobre um indivíduo que não tem acesso nem a essas informações nem a como as operações de confisco desses dados se processam, uma vez que os ganhos não são para o sujeito, mas sim para terceiros, em uma cadeia de compartilhamento de lucros sucessivos. O que significa dizer que os direitos básicos e as normas sociais do mundo democrático, fincados na autonomia individual, são anulados neste novo funcionamento do mundo, tudo isso permeado pela retórica da inevitabilidade.
Nessa mineração predatória e insaciável, todas as coisas são dados à espera de serem capturados, num acúmulo crescente, alimentado por plataformas e redes sociais. Esses dados é que são utilizados no aprendizado das máquinas, em uma espécie de treinamento em que a correta rotulação e classificação é o que fará a exatidão do que é previsto. Ou seja, a certeza do futuro é a reprodução do passado, por meio de uma combinatória exaustiva do que já foi e do que já se viveu, o que faz com que o olhar para o mundo não possa ser um olhar de descoberta e desvelamento, mas ao contrário, limitado ao que foi. Toda complexidade e singularidade estão fora de alcance e, portanto, a vida em sua exuberância e plenitude, não se deixa alcançar.
Além disso, a IA depende do esforço humano e os trabalhadores digitais recebem centavos de dólar para clicar em microtarefas fundamentais para que o sistema pareça ser mais inteligente do que é, ou seja, há tarefas mecânicas realizadas por humanos e que são fundamentais para que se acredite serem as máquinas a executarem essas tarefas, em um processo de falsa automação. Avançando no aspecto político e jurídico, no modelo próprio da escravidão algorítmica, os trabalhadores precisam funcionar de acordo com a cadência da lógica computacional, como denuncia os filmes de Ken Loach. Em resumo, não há IA sem exploração humana. Diz Crawford: “a comunidade de pesquisa técnica em IA depende do trabalho barato e terceirizado em multidão [crowd-sourced] para muitas tarefas que não podem ser realizadas por máquinas” (2025, p. 81).1
1. De acordo com Crawford, no ano de 2019 teve, em média diária 350 milhões de fotografias enviadas ao Facebook e 500 milhões de tweets (2025, p. 128).
5 O desejo por eros
Ora, se a inteligência como faculdade interna já impede a criação e a emergência do novo, como faculdade externa (ou artificial) exclui por completo o radicalmente diferente, o inauditamente novo. Nada se abre, nada novo entra no mundo. Não há paixão pela diferença e, portanto, não há possibilidade de inventividade e descoberta de novos horizontes. Todos os resultados que ela produz são produto do que foi dito, pensado, calculado, realizado, isto é, ela é uma reprodução e mesmo como predição, é baseada no já constituído, perpetuando o que já, alguma vez, se atualizou. Ou seja, produzindo apenas variações do igual, falta a ela a abertura ao outro, ao diverso, componente fundamental para a criação. Do ponto de vista do pensamento, isso é um horror metafísico; do ponto de vista político, isso significa a manutenção dos sistemas injustos e desiguais que prejudicam boa parte da população mundial; do ponto de vista existencial, é um desconvite ao despertar, à ousadia, à esperança por novos e inéditos começos; do ponto de vista corporativo, é a impossibilidade de construir o que ainda não foi experimentado e a fixidez em padrões repetitivos e limitantes.
Isso sem falar na produção do falso nas tecnologias de comunicação, que desde o rádio já se percebeu o risco, quando o episódio “A guerra dos mundos” foi ao ar. Hoje, com as inúmeras redes sociais e a dependência psíquica de cada indivíduo do seu smartphone, há incontáveis informações falsas produzidas continuamente e que impactam a vida de todos nas diversas esferas da existência.
A inteligência só é capaz de calcular, de operar a estatística multivariada que a cada vez tem sido mais aperfeiçoada e produzida em maior velocidade, inclusive com gasto energético imenso e o consequente impacto ambiental significativamente danoso para isso. Detectar estruturas de interrelações de dados que os olhos humanos não conseguem ver, tal como Turing compreendeu, reconhecer padrão, analisar sinais, é um trabalho impossível ao ser humano, e este domínio é próprio da IA. Seu modus operandi é escolher entre possibilidades já existentes, em padrões já conhecidos, classificando e rotulando todo tipo de coisa, em uma velocidade inumana e isso se confunde com super capacidade, eficiência, rigor e verdade.
Se festeja a IA acreditando que ela possibilita uma confiabilidade e uma competência em níveis que um ser humano jamais poderia alcançar, não havendo expertise humana que se pudesse a ela comparar. Assim, seria correto lhe confiar todas as decisões acerca de resoluções de saúde, justiça, educação e policiamento?
Compreendida como uma expressão de poder, essa análise estatística em escala não é capaz de pensar, porque, como diz Chul Han, o eros lhe é estranho, porque ela não tem desejo pelo outro (2024, p. 97). Mas, “ao pensamento é inerente um desejo pelo outro, por um outro atópico, que escapa a qualquer comparação” (Han, 2024, p. 97).
A IA só trabalha com o que está explicitado e formalizado, ao passo que a mente humana, mesmo quando opera a faculdade da inteligência, tem a seu dispor todas as outras faculdades humanas, que lhe agregam formas resolutivas inesperadas. Platão, no Crátillo, nos ensina que os gregos denominavam noesis o pensamento, que equivale a neou hesis, desejo de novidade. A filosofia é desejo de eros, é amor ao saber, no pressuposto que esse desejo de novidade torna possível um novo futuro para o homem, age como uma resistência ao presente, uma resistência a si mesmo em suas velhas formas já solidificadas. Uma resistência não apenas frente ao grandioso e o visível, mas nas condições mais insignificantes, ante toda e qualquer baixeza e vulgaridade da existência, para que se possa escapar da própria agonia, para resistir ao que nos escraviza, nos faz adoecer e morrer; escapar também ao que é intolerável, à tolice e à ignorância.
6 Informação não é saber
O modo de proceder da mídia digital é a transparência da informação. Esta é cumulativa e aditiva, de curto prazo, estando sempre disponível. Mas o saber é o que não está disponível e, nesse sentido, é preciso lutar pelo saber, é preciso ser seu amigo ou amante, como dizem os gregos.
Para constituir o saber é preciso uma longa experiência, e uma atividade. Se na busca compulsiva e mesmo obsessiva por informação o sujeito se coloca de modo passivo frente ao que lhe é ofertado, o processo do conhecimento demanda uma atividade do sujeito e uma atividade penosa e, muitas vezes, arriscada. Mas no mundo da inteligência externa, o agir cede lugar à operação e isso significa dizer que a hesitação se torna um distúrbio operativo que prejudica a eficiência (Chul Han, 2018, p. 90). Se o pensamento trabalha com rupturas, desvios, surpresas, a operacionalidade dos passos algoritmos apenas calcula, chegando a um ponto que a informação não traz clareza ao mundo, mas ao contrário, embrutecimento e confusão. A informação deixa de ser informativa para se tornar deformadora (Chul Han, 2018, p. 106).
Em realidade, o mundo da informação, dos dados, não passam de uma política de classificação, marcada de vieses, interesses corporativos, práticas colonialistas que reforçam estereótipos, produzem resultados discriminatórios frente à ideia de raça, classe, gênero, deficiência, idade, em uma reprodução exaustiva da forma de pensar essencialista, ou seja, a imposição de uma visão de mundo secular que serve para reforçar práticas discriminatórias e exclusivas, amplificando desigualdades sob a aparência de “neutralidade técnica”.
O saber ou o pensar requer o afrontamento com o que é contraditório, paradoxal e polissêmico. Comprimir ou simplificar a diferença é uma prática de alto custo político e metafísico, porque se diminui o que é singular e variado, ao mesmo tempo que se elege uma forma melhor ou certa de ser, rotulando o que a ela não se assemelha como inadequado, perigoso e potencialmente danoso.
7 Danos Psíquicos
Chul Han nos fala da Síndrome da Fadiga da informação (SFI), termo originalmente cunhado em 1996 pelo psicólogo britânico David Lewis, que se referia apenas aos profissionais que precisavam trabalhar com grande quantidade de informações, mas que hoje se generalizou de modo a vitimar toda a população. Com a SFI se padece do cansaço da informação, em que o sujeito, enfermo psiquicamente, experimenta um estupor de sua capacidade analítica, um déficit de atenção, uma inquietação generalizada e mesmo uma incapacidade de tomar responsabilidades (Chul Han, 2018, p. 104). Em outras palavras, a capacidade de pensar dos sujeitos definha.
Aliás, o excesso de estímulos, impulsos, postagens, informações acaba por destruir e fragmentar a atenção e, diferentemente do que possa parecer a princípio, a atenção multitarefa não representa nenhum progresso civilizatório, mas ao contrário, um retrocesso (Chul Han, 2017, p. 31). Isso porque é na vida selvagem em que o homem tem que se pôr atento a tudo, sob pena de virar presa fácil a qualquer predador. Caso sua atenção relaxe, ele e sua prole podem virar alimento fácil. O desenvolvimento civilizatório significou o relaxamento dessa atenção, posto que se passa a vivenciar uma menor preocupação com a sobrevivência. Hoje, o homem retrocede a esse modo de vida selvagem, com uma hiper atenção que se desdobra em multifocos e fontes de informação. Não é um ganho espiritual ou mesmo intelectual como se pode imaginar, mas uma pura inquietação, sem descanso, exaurindo o sujeito e o levando mais facilmente ao tédio. O homem hiperativo é o homem ideal para o mundo que exige uma produtividade sempre crescente, o homem exausto de si, esgotado psiquicamente. Não à toa, se vê, a todo tempo, multiplicarem os diagnósticos de TDA e TDAH na população mundial.
8 Para além da inteligência (sempre artificial)
Do ponto de vista da filosofia ou do livre pensar, a inteligência é coisa boa, sem dúvida, mas é só inteligência e cabe ao homem ir em busca de outras faculdades que sejam capazes de apreender a vida em sua complexidade múltipla e movente, e, nesse sentido, enquanto a vida estiver contida nas exigências do intelecto o pensamento não pode aflorar. Aliás, se homem consegue fazer filosofia, produzir tanta beleza no mundo e ampliar o seu espírito é exatamente porque não se limita ao uso da inteligência. E essa, mesmo quando muito acionada, não funciona de forma isolada, mas é apoiada por outros e complexos processos, conscientes e inconscientes, tornando o uso e a operação dessa faculdade um produto nada óbvio ou explicitado em seu desenvolvimento e construção.
Assim, mesmo em sua prática de reflexão para a ação, onde se necessita, sem dúvida, da intervenção da inteligência (seja essa interna ou externa) há muito mais do só inteligência. “A inteligência inteiramente pura é um encolhimento de uma potência mais vasta” (BERGSON, 1979, p. 50). Pensar como ato necessário à vida e como conquista existencial implica que atuemos no mundo próximo à vida, compreendendo sua dimensão de criação contínua, de imprevisível novidade e mesmo de mistério. Contentar-se com a representação pobre e esquemática da inteligência frente ao que se desenrola no universo é ser menos do que o homem pode ser.
O homem, desde a modernidade, se encontrou hipnotizado frente aos poderes da técnica; no século XXI se viu maravilhado diante da tecnologia e de suas promessas de perfeição, seus feitos assombrosos que ultrapassariam a inteligência humana. Mas esse caminho só o faz ignorar a novidade sempre renascente, a movente originalidade das coisas, o fundo próspero da vida. Em uma atitude de certo modo delirante, o intelecto interno e externo vai se impondo sobre a vida e não se percebe como se está diante de um sistema de poder que fixa seus interesses, ampliando as desigualdades sociais existentes e beneficiando as corporações e os Estados a quem servem.
Para ultrapassar inclusive a violência política a que historicamente estamos submetidos, é preciso construir o livre pensar e sua busca nunca é de acomodação e muito menos de automatismo frente ao que já foi dado, mas, ao contrário, sair da comodidade do já realizado, dos conceitos fixos, das interpretações consagradas, enfim de tudo o que se transforma em imobilidade. Somente escapando dos seus hábitos, seus limites e necessidades o homem conseguirá produzir um conhecimento autêntico da vida e não um arremedo dissimulado e disfarçado de autêntico.
A representação mecanicista restringe a atividade total da vida à forma de certa atividade já feita, já experimentada, portando, um resíduo do que a vida pode ser ou efetivar. Os esquemas demasiadamente estreitos e rígidos da inteligência fatalmente redundam em contradições com as quais o sujeito não consegue lidar. Humilhada diante do incognoscível, a orgulhosa inteligência experimenta a sua impotência. A modernidade foi o século da autonomia do homem, mas se este permanecer encerrado nele mesmo, valorizando cada vez mais uma faculdade que é boa, mas impotente, não poderá jamais pensar. Como diz Nietzsche, “o nosso entendimento é uma força de superfície, é superficial… Conhece por meio de conceitos: o nosso pensar é um classificar, um nomear, logo qualquer coisa que diz respeito ao arbitrário humano e não atinge a própria coisa” (1984, 54 p. 37).
No processo de abstração próprio da razão há um afastamento do real e uma aproximação de uma generalidade que só existe na mente e na linguagem. Ele serve ao indivíduo humano e a interesses nem tão nobres de certos humanos, mas dista da essência da vida. Vivendo no domínio do intelecto, vive-se numa eterna ilusão e uma eterna escravidão. Não se trata de desprezar ou diminuir a inteligência. Ela cumpre a função a que se pretende – basta pensar o quanto nossa vida prática ganhou em tempo e facilidade com os recursos tecnológicos existentes. Efetivamente os aplicativos indispensáveis hoje na vida de cada um de nós auxiliam e simplificam nossas operações cotidianas e já não se pode viver sem eles. Mas trata-se sim de dizer que sua funcionalidade tem o limite do mecanicismo e do esquematismo, portanto, há toda uma extensão da vida que não deixa capturar por ela e o homem, a cada vez que se deixa convocar menos pela vida, perde em grandeza, em crescimento e em criação.
Poder-se-ia objetar que o homem não tem como ultrapassar a inteligência, dado que é com ela e através dela que se considera todas as formas da consciência. Ocorre que em volta do nosso pensamento conceitual e lógico, resta “uma nebulosidade vaga, feita da mesma substância e às custas da qual se constitui o núcleo luminoso a que chamamos inteligência. Nessa franja residem certas potências complementares do entendimento, potências das quais temos apenas um sentimento confuso quando permanecemos encerrados em nós” (BERGSON, 1979, p. 10).
Sempre haverá forças que não se consomem, devires que não se satisfazem, ordens veladas, ou seja, modos de ser que não conhecemos imediatamente, surpresas potenciais, que vão permitir novos caminhos e novas conquistas humanas. Mas só as conquistaremos se ousarmos ir além da inteligência.
Porque é preciso ir mais além na vida e não viver com o já estabelecido. É preciso querer ir mais do que já foi, realizou ou conquistou, elevar-se a partir de si mesmo, transpor-se, exceder-se. Não sucumbir frente à inteligência é a tarefa que nos possibilita mais vida, que nos afasta do que continuamente quer morrer, com o que tudo em nós se torna fraco e velho. É um sim triunfante à vida, mas não de uma vida que alcança apenas a sobrevivência, de uma vida estéril, depressiva. Um sim triunfante ao que nos renova, nos faz crescer e portanto, nos fortalece.
O caminho da criação é também o caminho dos instrumentos que podem nos auxiliar quando tudo quebra, quando tudo se trai e já não temos controle do que se avizinha. Quando nos descobrimos tristes ou impotentes frente ao modo como organizamos a experiência, só quebrando o ordinário, o autômato, o comum e banal podemos ir mais longe na vida. Não temer o infamiliar e o insuspeito, desmentir o estabelecido e respirar o ar que é próprio dos não cativos.
Referências
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