O COSMOS INDECISO
(Limitação do determinismo: o universo inacabado)
Ao longo do século 20 a Cosmologia produziu uma imagem dinâmica do universo baseada na teoria da Relatividade Geral (Einstein, 1915) e na hipótese de que, em sua característica global, ele pode ser associado a uma geometria espacialmente homogênea e isotrópica (Friedmann, 1921). Isso significa que em qualquer lugar do espaço tridimensional as propriedades do universo são as mesmas, bem como em qualquer direção: a geometria depende somente do tempo cósmico.
A mudança paradigmática que a cosmologia introduziu com a ideia de um universo dinâmico, promoveu a presença de um antigo conceito, frequentemente mal compreendido: o de infinito.
No modelo cosmológico de Friedmann, o infinito se faz presente tanto na densidade de matéria, como na energia e na curvatura do espaço-tempo, consequência da identificação da fase extremamente condensada do universo a um início singular (o chamado “bigbang”).
Posteriormente, os modelos de universo eterno (possuindo uma fase de colapso, anterior à atual fase expansionista) intimamente associados a observações astronômicas mais precisas, abriram novas perspectivas.
Durante todo este tempo, uma indagação latente foi sistematicamente deixada de lado, a saber: as leis da Física são “eternas”, pétreas ou a interação gravitacional produz variação dessas leis terrestres, associada à evolução do cosmos?
Dirac, Novello, Rotelli, Lattes, Melnikov e outros, examinaram a dependência cósmica das leis físicas, induzindo a inesperada consequência de que as leis do universo ainda estariam em formação. Somos assim levados à perturbadora conclusão de que estaríamos vivendo em um universo inacabado.
O processo de bifurcação, a possibilidade de soluções de uma dada equação mostrarem características distintas quando um parâmetro associado passa por um dado valor, foi uma das grandes descobertas feita pelo matemático Henri Poincaré, mais conhecido por seus trabalhos na construção das ferramentas formais que permitiram a elaboração da teoria da relatividade.
Até então, os físicos, ao descreverem nossa realidade, satisfaziam-se com o uso de equações matemáticas que possuíam um caráter absoluto. A ideia de bifurcação retirou esse traço fundamental e diminuiu sensivelmente a relevância da descrição apoiada no determinismo científico.
A análise de Poincaré, o modo pelo qual ele examinou as propriedades de certos tipos de equações, foi empregada em diversas configurações na ciência e na engenharia. Quando foi usada na compreensão de algumas transformações químicas, ficou explicitado, para além da comunidade científica, que o determinismo na ciência perdera seu caráter absoluto.
No livro La nouvelle aliance, Prigogine e Stengers utilizam-se de propriedades de certos fenômenos possuindo bifurcação — resultados de experimentos de laboratório– para exibir uma nova aliança entre ciência e filosofia.
O ponto mais importante que permitiu essa aliança se fundamenta precisamente na existência de processos de bifurcação, cujo resultado implica na redução da relevância do determinismo na explicação de fenômenos fisicos.
Isso significa que, com o processo de bifurcação, a filosofia encontra na ciência (do mesmo modo que a ciência encontra na filosofia) um modo de ultrapassar quinhentos anos de descrição determinista e aceitar a entrada do indeterminismo na descrição das leis cósmicas.
Ao final do século 20, apareceu a questão de saber se o mecanismo de bifurcação seria possível de ocorrer para além dos fenômenos na Terra e em nossa vizinhança, para além de nosso sistema solar, para além de nossa galáxia, nas grandes dimensões do cosmos.
A partir da análise das equações da teoria da Relatividade Geral que descrevem a evolução do universo, mostrou-se que sim: o fenômeno de bifurcação existe também em processos globais no universo, com consequências bem mais amplas do que aquelas dos laboratórios terrestres.
Abriu-se então um novo território de libertação do pensamento sobre o mundo. Não se tratava mais da explicitação do indeterminismo envolvendo processos limitados, da dimensão humana, típicos de laboratório terrestre, mas sim do sistema de equações que descreve a evolução da geometria do espaço-tempo global, do universo.
No entanto, por mais paradoxal que isso possa parecer, os processos de libertação do pensamento encontram resistências frente ao que está consolidado ao longo da história e assim, o abandono do determinismo em nível cósmico não mereceu a devida atenção fora da academia.
Por outro lado, de modo mais amplo– envolvendo não somente os fenômenos e processos que ocorrem na Terra e em suas vizinhanças, mas também o universo, a totalidade do espaço-tempo e a matéria que o organiza– a existência da dependência cósmica das leis físicas, impõe a necessidade do acompanhamento passo a passo, temporal, dos fenômenos, restringindo a importância do papel reservado aos princípios e axiomas, bem como a própria estrutura lógica da teoria.
Ou seja, mostrou-se a importância crucial da história na descrição do universo e seu funcionamento.
A compreensão da historicidade das leis cósmicas, não invalida as leis físicas terrestres, posto que sua dependência temporal está relacionada ao tempo cósmico. Ou seja, durante toda a existência humana, as leis terrestres não variam, o que justifica o modo de explicação do comportamento da Natureza, em nossa vizinhança, como obediente a Leis!
Somos então levados a aceitar que o universo não programou sua evolução, nem suas leis: ele está em contínua transformação e variação dessas leis. Como se o que chamamos de “processo normal ou regular”, se organizasse precisamente através destas variações e isso não seria um fenômeno extra, raro, mas sim comum: o que chamamos de regularidade, nada mais é do que um infinitesimal intervalo nestas variações.
Ademais, é bom enfatizar — conhecendo o modo pelo qual a presença da curvatura do espaço-tempo entra na interação gravitacional com a matéria, produzindo essa dependência cósmica – que podemos afirmar que essa variação não tem um “propósito”, o que equivale a dizer que o universo, em sua evolução, é inteiramente livre. O cosmos não interrompe a sua experimentação e produz sempre novas multiplicidades, novas regularidades.
Para entendermos como isso é possível, somos obrigados a fazer uma incursão no terreno da Cosmologia, onde se descreve com mais detalhes a variação das leis físicas no Cosmos e sua origem no mecanismo de interação do campo gravitacional (que controla a geometria do universo) com a matéria e como se progride das leis físicas para as leis cósmicas, ou seja, se trata de entender a dependência cósmica das leis físicas.
Torna-se assim necessário pensar o universo de forma mais livre – sem determinações apriorísticas de leis, sem uma regularidade absoluta.
As descobertas da cosmologia implicam uma nova emancipação da ciência tradicional, o que nos leva, inevitavelmente, a empreender de modo mais intenso a aproximação da ciência com a filosofia.
Obs: Esse texto foi extraído do livro MISÉRIA DA CIÊNCIA SEM FILOSOFIA (Mario Novello e Flavia Bruno) a ser publicado em 2027 pela Editora N – 1.