A LINGUAGEM NA PSICANÁLISE
Este texto foi escrito pelas notas que me orientaram na conferência pronunciada na Casa Dirce de Leitura ( UERJ), no colóquio Entre literatura e ciência , coordenado por Mário Novello (CBPF)
I. Preâmbulo
A intenção e o objetivo deste artigo é problematizar a questão da linguagem na psicanálise no tempo de sua constituição histórica, com a constituição do discurso freudiano. Em consequência, vou me voltar inicialmente para a leitura do discurso freudiano no final do século XIX.
Em seguida, vou destacar de forma esquemática o comentário realizado por Lacan sobre a obra de Freud, em Função e campo da linguagem em psicanálise¹( Discurso de Roma ), no contexto histórico de seu célebre retorno a Freud, iniciado em 1953².
Lacan retomou assim a leitura estruturalista iniciada por Levi Strauss na antropologia social no final dos anos 40 do século XX, no discurso psicanalítico, que se baseou na linguística de Saussure.
Esta inflexão realizada na psicanálise, inscrevendo a linguagem no fundamento do inconsciente e diferenciando esse do registro psíquico do eu, retomou o discurso freudiano dede os primórdios da psicanálise como pretendo demonstrar neste artigo.
II. Memória e percepção
Assim, em 1893, num artigo escrito em colaboração com Breuer, intitulado Considerações preliminares, inserido como capítulo inicial da obra Estudos sobre a histeria, Freud enuncia que os histéricos sofrem de reminiscências³. Em seguida, vai estender esta tese crucial para as demais psiconeuroses (fobia, neurose obsessiva-compulsiva e a psicose alucinatória). Finalmente, a tese em questão vai delinear a totalidade do psiquismo³.
Portanto, a questão da memória passou assim a ocupar uma posição fundamental e estratégica na leitura freudiana do psiquismo, o que era então uma novidade epistemológica do tempo histórico de sua enunciação.
O que isso implica efetivamente em dizer, numa perspectiva estritamente epistemológica?
Nada mais, nada menos, que com o advento da modernidade, no século XIX, ocorreu uma ruptura epistemológica radical⁴, pela qual a leitura do campo psíquico se deslocou do registro da percepção para o da memória. Vale dizer, se nos séculos XVII e XVIII o psiquismo era analisado no registro da percepção, a partir do século XIX o que se impôs como paradigma foi o registro da memória.
Foi por conta do paradigma anterior da percepção, no entanto, que as revoluções científicas foram realizadas no século XVI, com a emergência histórico-epistemológica doa discursos da física , da astronomia e da química.
Segundo o discurso da arqueologia do saber constituído por Foucault em 1966, na obra As palavras e as coisas⁵, se na Idade Clássica a episteme se fundava no registro da representação, em contrapartida na modernidade passou a se fundar nos registros do tempo e da história⁶. Desta maneira, enfim, no campo do psíquico de forma específica, o registro da memória articulava o tempo e a história, constituintes assim da episteme moderna.
Em decorrência, se para a psicanálise a memória se torna fundadora do psiquismo no registro psíquico do inconsciente, para a filosofia de Bergson, ainda no século XIX, na obra intitulada Matéria e memória, o registro da memória se torna assim hegemônico na leitura do psiquismo em oposição à percepção⁷.
Nos mesmos contextos histórico e epistemológico, ainda na tradição francesa, foi publicada uma obra literária magistral de autoria de Marcel Proust intitulada Em busca do tempo perdido. Neste romance marcado pela filosofa de Bergson, a temporalidade se conjuga intimamente com o registro da memória e da rememoração, de maneira que Proust enuncia a existência de duas modalidades de memória, a saber, memória voluntária e memória involuntária, de modo que essa última pode ser aproximada da memória inconsciente enunciada por Freud, com a constituição histórica e epistemológica da psicanálise.
No que concerne ao campo dos saberes do psíquico, de maneira estrita, este deslocamento epistemológico se delineou nos campos terapêuticos da hipnose e da sugestão, configurado nos século XIX. Com efeito, o fenômeno experimental do automatismo mnêmico pós-hipnótico e o sintoma da dupla personalidade⁸ na histeria atestam com eloquência a dita descontinuidade epistemológica, na desconstrução da percepção e a ênfase colocada finalmente desde então no registro da memória.
III. Hipnose e sugestão
Se Freud já realizava as práticas hipnótica e sugestiva em Viena no tratamento da histeria e das demais psiconeuroses⁹, foi com sua ida a Paris para estudar com Charcot, nos anos 80 do século XYX que passou a problematizar tais práticas terapêuticas.
Com efeito, Charcot foi quem reabilitou a hipnose na Europa para o tratamento da histeria na segunda metade do século XIX, pois no final do século XVIII o Mesmerismo foi interditado na França como charlatanismo, pela Sociedade Real de Ciência pela mediação da comissão de sábios instituída pelo Rei¹⁰para examinar esta questão crucial, ´pois o Mesmerismo se disseminou então em Paris e se tornou assim uma moda na França. Desde então a prática da hipnose se tornou popular nas feiras populares em toda a Europa, como um número especial dentre outros, para o divertimento do grande público.
Porém, com seu prestígio científico internacional, como professor de neurologia da Universidade de Paris, Charcot reabilitou a hipnose para o tratamento da histeria, na medida em que essa desnorteava a medicina clínica no século XIX, que se baseava no discurso da anatomoclínica, construído por Bichat no início do século XIX. Segundo tal discurso, com efeito, os sinais clínicos remeteriam a lesões teciduais, de forma a conjugar o registro semiológico do visível com o anatômico invisível no registro do corpo¹¹.
No entanto, com sua plasticidade sintomática e ausência de lesão anatômica, a histeria desafiava então o saber médico, que, em contrapartida, formulava que a histeria era uma modalidade de simulação¹², isto é., que os histéricos eram mentirosos e inventavam assim sintomas inexistentes.
Para superar este impasse, Charcot se valeu assim da hipnose na investigação da histeria, chegando à conclusão de que esta teria uma etiologia traumática, afetando assim o sistema nervoso central, decorrente de acidentes ferroviários, então comuns na Europa pela construção da imensa rede ferroviária¹².
Além disso, diante da impossibilidade de constatação de lesões teciduais, enunciou uma defesa da tese da anatomoclínica, pela formulação de que existiam lesões funcionais do sistema nervoso central e que futuramente se revelariam as lesões teciduais com o aperfeiçoamento das técnicas histológicas¹³.
Contudo, após a sua relação de colaboração científica com Charcot, Freud foi à Suíça para trabalhar com Bernheim, outro pesquisador da histeria que sustentava uma tese radicalmente diferente e até mesmo oposta à de Charcot, segundo a qual o que estaria em questão na histeria seria o campo moral, sob a forma da sugestionabilidade. Com efeito, para este autor, por serem sugestionáveis é que os histéricos se curavam então pela terapêutica hipnótico-sugestiva.
A tese de Freud de que os histéricos sofrem de reminiscências é a resultante destas duas formulações, pois a sugestionabilidade histérica se inscreveria nos traços mnêmicos e não em lesões anatômicas, como supunha erradamente Charcot. Em consequência, a prática hipnótico-sugestiva se baseava na influência do médico sobre o paciente, que se realizaria pela ação da fala e da linguagem do primeiro sobre o segundo¹⁴, numa relação caracterizada pela assimetria.
Além disso, é preciso destacar ainda que, se a terapêutica hipnótico-sugestiva foi reabilitada na segunda metade do século XIX, foi em decorrência da modernidade que promoveu o deslocamento do poder soberano para o poder disciplinar¹⁵, segundo Foucault em Vigiar e punir, e do deslocamento do poder do um para o do múltiplo, segundo Lefort, em A invenção democrática¹⁶, na qual a construção da opinião pública supunha a disseminação das práticas de influência no campo social.
IV. Aparelho de linguagem
Foi assim, neste contexto epistemológico, que, em 1891, Freud publicou dois textos fundamentais, a saber, o artigo sobre O tratamento psíquico¹⁷ e o livro Ensaios sobre a afasia¹⁸, nos quais o primeiro seria de ordem estritamente clínica e o segundo de ordem teórica, mas que seriam complementares.
Assim, se pelo primeiro Freud enunciou a tese de que o tratamento psíquico se realizaria pela linguagem e pelo discurso, pela influência do terapeuta sobre o paciente¹⁹, e não pela prática da introspecção psicológica da psicologia clássica, isso implicaria em formular que o campo psíquico seria fundado num aparelho de linguagem²⁰.
Portanto, os dois textos seriam assim a frente e o verso de uma mesma problemática, qual seja, a da linguagem e do discurso no campo do sujeito, que se articularia assim intimamente com o campo da memória
V. Aparelho psíquico
Em 1895, Freud escreveu um ensaio crucial e nunca publicado, intitulado Projeto de uma psicologia científica, no qual foi enunciado o conceito de aparelho psíquico²¹. Este seria constituído assim, com efeito, pela conjunção do aparelho de linguagem com as intensidades endógenas do organismo que produziam dor e desprazer no infante, pois não seriam reguladas pelo aparelho reflexo e neural como ocorria com as sensações sensoriais
Em consequência, tais intensidades endógenas provocavam assim o desamparo do infante, que precisaria assim da ação do Outro (figura materna), pelo acolhimento e pela oferta de objetos de satisfação²², que apaziguariam então a dor, o desprazer e o desamparo.
Se esboçou assim inicialmente , com efeito, os registros conceituais da pulsão e do desejo²³, tal como Freud problematizou em seguida em A interpretação dos sonhos (1900)²⁴ e nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905)²⁵., com a constituição efetiva da psicanálise.
Configurou-se assim que o aparelho psíquico seria regulador das intensidades endógenas, pela mediação da figura do Outro (mãe), que, pela interpretação (linguagem e discurso), promoveria a constituição das defesas psíquicas para a regulação das intensidades desprazerosas e dolorosas, e que se inscreveriam como traços de memória constituintes do inconsciente, pela transformação daquelas em experiências de prazer²⁶.
VI. Conjunções
Desta maneira, as problemáticas da linguagem e do discurso se inscrevem assim no fundamento do psiquismo desde a constituição da psicanálise, com Freud, na qual o inconsciente seria a resultante e a conjunção das marcas mnêmicas interpretadas pelo Outro, no qual o desejo seria também fundante do inconsciente.
Foi em consequência assim destas conjunções fundamentais que a psicanálise, com Freud, realizou leituras sistemática do campo da literatura, pela articulação do campo conceitual acima enunciado.
VII. Lacan e o retorno a Freud
O ensaio intitulado Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise²⁷ inaugurou, em 1953, o retorno a Freud promovido por Lacan, que retomou frontalmente a problemática da linguagem e do discurso no discurso freudiano, valendo-se para isso da referência à linguística estrutural de Saussure²⁸, realizada anteriormente por Lévi-Strauss na obra intitulada As regras do parentesco²⁹, que constituiu então de forma seminal o discurso estruturalista.
Assim, se a medicina era no o modelo antropológico e epistemológico para a constituição da totalidade das ciências humanas desde o início do século XIX, como formulou Foucault em O nascimento da clínica³⁰, nos anos 40 do século XX a linguística assumiu então esta posição fundamental e estratégica no campo das ciências humanas³¹.
Nesta perspectiva, Lacan retomou os conceitos linguísticos de metonímia e metáfora, para realizar a leitura dos conceitos de deslocamento e condensação em Freud, enunciados por este em A interpretação dos sonhos³².
Para empreender toda esta problematização, enfim, Lacan se valeu do Curso de linguística geral, de Saussure³³, e dos Ensaios sobre a linguagem e a poética, de Roman Jakobson³⁴, assim como da antropologia estrutural de Lévi-Strauss.
Desta maneira , o inconsciente seria não apenas de ordem transindividual , não se superpondo e não se identificando assim com o registro psíquico do ego, como formulava então a psicóloga do eu norteamericana, e seria então também constituído por cadeias de significantes
Notas Bibliograficas
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- FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. II. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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- BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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- ELLENBERGER, Henri. A descoberta do inconsciente. Porto Alegre: Artmed, 2015. Confirme a fonte pretendida.]
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- FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vols. IV-V. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
- FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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- LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Trad. Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes, 1982. (No texto original consta “As regras do parentesco” — confira se não é um título incompleto.)
- FOUCAULT. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.
- Idem
- FREUD. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
- SAUSSURE. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
- JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2007.